sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Mon Sauveur

A noite caía, as ruas estavam desertas. A pequena cidade não era mais a mesma. Os rostos eram tão hostis e as pessoas por trás destes me eram incógnitas.
Cabelos coloridos esvoaçantes me causavam repugnância. Uma escolha mal pensada me torturava, me arrebatava por completo em culpa e desespero.
Não reconhecia os sorrisos de outrora, não encontrava os lençóis compartilhados, não encontrava qualquer abrigo. Estivera fora por muito tempo. A brisa litorânea soprava agressiva, a maresia grudava na pele e as unhas do arrependimento cravavam-se em minhas têmporas. Como queria correr dali. Me envergonhava minha própria presença na amaldiçoada orla da lagoa. Nos olhos que me julgavam, eu tentava encontrar minha dignidade perdida. Em vão.
O telefone não sossegava em meu bolso e eu sabia que era você quem me ligava. Relutava em atendê-lo. De que valeria? Estava arrasada, assolada na maior e mais profunda humilhação de todos os tempos. Na verdade, acho que não queria deixá-lo me ver em tão deplorável circunstância.
E enquanto eu me alimentava da areia imunda e de desilusão, você apareceu. E ainda à distância, reconheci no seu sorriso a minha salvação. Você despontou embalado pelas lembranças nossas e tão somente nossas, que capazes de me arrancar o riso em meio ao pânico e a solidão. Solidão da pior estirpe; daquelas que se sente mesmo quando entre outros cem.
E então eu logo compreendi que achara meu lar em alguém. Embora já suspeitasse antes, a confirmação eu tive no aconchego do seu abraço.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Segura minha mão

Naquela época, a garotada corria por toda a parte. Era assim. Nós cuidávamos o mais rápido possível do serviço da casa que era pra poder jogar bola e pular corda na rua. E a criançada inventava brinquedo, inventava brincadeira... A vida não era fácil como hoje não, hoje vocês tem tudo pronto e tem de tudo.
Mas eu era feliz, viu. Ah! Que sorriso amarelo o que?! Não me arrependo de nada não! Se bem que casar eu não queria.
Mas sabe como é, né minha filha? Tinha de ser assim. Deus quis assim.
Se eu acredito em Deus?! Mas que pergunta! Veja que tenho quase um século de vida e já vivi muito pra poder te garantir que não cai uma única folha de uma árvore se não for da vontade divina! É que você é muito jovenzinha... Vestida nesse avental branco, ainda se ilude com esse negócio de ciência. Eu também já fui assim.
Onde estava mesmo? Ah sim. Casar eu não queria. Quando era rapariga, tal como você, queria só saber de estudar. Eu teria dado boa professora, sabe? Mas o danado do Euzébio cismou com a minha cara. Pelo menos eu prefiro acreditar ainda, depois de mais de ciquenta anos, que foi pelo meu rosto que ele se apaixonou. Ele era bom homem, ia me buscar todos os dias na época do ginásio. Mas aí ele me fez crer que esposa dele não tinha necessidade de trabalhar fora e que se com ele eu me casasse, não tinha porque continuar frequentando a escola. Devia ser ciúmes que, sabe menina, eu to velha agora, mas eu era muito bonitinha quando tinha a sua idade.
Mas não me arrependo de nada não! Esteja certa de que não me arrependo. Criei três filhos, sabe? Três homens honrados, dignos e muito esbeltos. E hoje em dia vocês querem ensinar como que se cuida de criança, dizem que não se pode dar palmada e é por isso que o mundo tá nesse pé. Por isso que hoje filho não respeita mais os pais. Eu eduquei os meus filhos de acordo com a moral e os bons costumes que hoje já nem se escuta mais falar. Por isso que não gosto de televisão. Olha quanta pouca vergonha que passam na televisão, que antigamente, a gente até ouvia dizer que era coisa do diabo. Deus nos livre! Será que você pode abaixar um pouquinho o volume? Nunca vi tanto barulho em enfermaria de hospital.
Os meus filhos não vêm me ver porque... Ora, como por que? Eles não podem se ocupar com sua velha mãe uma vez que já se despendem às próprias famílias e aos próprios negócios. Mas não me sinto infeliz, não me sinto sozinha não. Estou te dizendo, minha filha! Tenho quase um século de vida. Solidão já não me aflige, que eu vivi tanta coisa...E olha que não me arrependo de nada!
Mas menina, faz um favor? Larga de tomar nota de tudo que eu falo e me segura um pouco a mão.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A rua é democrática

A hora se arrastava, não havia mais absolutamente nada a se fazer e nem qualquer companhia pra curar o ócio tedioso e improdutivo.
Nos bolsos, carregava uma única nota de cinco reais, já reservada à pagar a condução de volta pra casa. E ainda que no lugar da nota de cinco houvesse uma de cinquenta, não gastaria dela sequer um centavo, pois estava completamente capturada pela consciência adquirida ao longo dos anos e que fora reafirmada ao assistir Surplus e outras coisas do gênero. Estava preocupada com a preservação dos valores essenciais da vida e simplesmente não podia corroborar com nada que fosse contrário à minha nova forma de enxergar o mundo.
Caminhando pelas ruas, me perdi na bagunça do centro, típica de finais de ano. Que bagunça agradável! Que bagunça bonita de se ver...
Numa esquina, uma fábrica à céu aberto de quadros pintados com spray, funcionando diante dos olhos de quem passasse e quisesse ver.
Alguns metros adiante, caricaturistas, poetas, representantes do movimento hare krishna, gente de terno e gravata, mulheres de salto alto, crianças e famílias transitavam frenéticos, eufóricos. Hesitavam seguir seus respectivos rumos ao passar pela calçada aglomerada, de onde ecoava Starway to Heaven, do Led Zeppelin. A música era tocada por um rapaz corajoso que vestia flanela xadrez. Não corajoso apenas por se apresentar em público num espaço comum à toda gente, mas por expor a si e seus equipamentos aos possíveis olhares invasivos, aos olhos que julgam e também aos que cobiçam. Mas a verdade é que não havia má fé da parte de seus expectadores, tampouco dele próprio que cumpria o papel de entreter e fazer sorrir o paulistano sofrido. E seu público, certamente, era o mais variado que eu já tinha conhecido. Ao seu lado, dançava uma criança de menos de quatro anos de idade, pareada a um homem grisalho, trajando trapos encardidos, que fazia caretas e outras bizarrices. Um homem cujo a maioria se recusaria estar ao lado. Dançava também com eles, uma senhora descalça, desdentada e sorridente.
Pensei comigo, então: Qual outro cenário é capaz de expressar tão genuína liberdade quanto esse? O que há de mais democrático nessa cidade que as próprias ruas? A rua por si só é democrática. Quem, se não ela, abriga tamanha diversidade? E em qual outra parte cabe tanta gente? E não é preciso de mais do que boa arte - e atente que com "boa" quero dizer bem intencionada e não necessariamente erudita- pra ressuscitar o lado humano até daqueles que sequer lembravam que estavam vivos. Que até se esqueceram que existiam.

domingo, 1 de dezembro de 2013

Dicotomia sem solução

Eu poderia ter escolhido perder os cabelos entranhada em sentenças matemáticas. Poderia ter me perdido entre átomos e moléculas. Entre fórmulas e gráficos. Cálculos e sistemas binários. Eu poderia ter escolhido tudo, qualquer coisa.
Poderia ter escolhido viver quantas vidas quisesse, criando novas vozes, novos personagens. Poderia agraciar o mundo com melodias e pinturas fantásticas. Com poesia. Com comida saborosa, quem sabe.
Contudo, envaidecida pela promessa de compreender o funcionamento do ser que sempre mais me afugentou, escolhi enveredar no mais subjetivo universo inerente ao homem: A Psychē.
Escolhi a ciência que relativiza toda e qualquer ação que permeia a vida de um indivíduo. Que sistematiza as relações conferindo a elas significados jamais pensados por quem as constituiu. Que transforma uma infinidade de abstrações em fenômenos discutíveis e analisáveis.
É impossível não amar as infindas possibilidades e descobertas proporcionadas por esta implacável escolha, que já vem causando consequências subversivas ao próprio propósito há três anos. Assim como também é inevitável odiá-la com efervescência. Ódio este, exaustivamente explicado através de suas teorias e sistemas, ensejando a manutenção eterna da raiva.
E por mais que a sua importância seja intangível, imensurável, seus equívocos irritam o estômago já cansado de tanto sentir ojeriza.
Melhor que qualquer outra ciência, a psicologia viabiliza que muita gente de má fé se instrumentalize dela, adequando-a não só para nutrir o ego como também para se defender da objetividade do mundo. Porque o mundo continua existindo, apesar da psicologia. A vida existe, apesar da psicologia.
E pra esse tipo de gente e quaisquer outros que pretendam se utilizar do conhecimento acadêmico pra se autopromover e suster sua vã soberbia eu desejo a ruína. Do âmago da alma, eu desejo a ruína. E ai daqueles dispostos ao psicologismo de tentar interpretar meu desgosto, meu desamparo.

domingo, 20 de outubro de 2013

Prece moderna

De volta à janela, debruçado sobre o parapeito coberto de cinzas, ousou uma forçosa epifania.
Ah, a janela do quarto. Lugar tão conhecido, tão gasto e ainda assim, sempre bem-vindo. A paisagem imutável, os ruídos das casas em volta e o oblíquo desejo de encontrar respostas que nenhum outro espaço no mundo elucidaria.
A janela propriamente representava pouco. Mas o simbolismo que carregava intrínseco a si era irrevogável.
Pensou há quanto já estaria morto, não fosse seu otimismo que, embora abalável, nunca se dava por vencido. Otimismo atrelado ao nada.
Não era um homem de fé. Não cria. Nem em deus, nem forças do universo, nem em si talvez. Procurava um lugar confortável, onde houvesse paz e alguma convicção. Mas a paz no mundo moderno é objeto místico, desconhecido.
Percebeu a inconsistência de suas expectativas. Almejava protagonizar a vida sem ter que escrever sua história com as próprias mãos. Dava a algum autor desconhecido à responsabilidade de suas ações. Como pode um incrédulo esperar que uma força maior domine seu dia a dia? Não era como um cristão, que sustenta a certeza de que o Deus onipotente é quem discorre as linhas do destino. O que esperar então?
Em desespero, com seus rasos recursos mundanos, pedia:
"Que a fumaça leve consigo toda a saudade, incluindo aquela dos momentos que nem nunca se fizeram e das pessoas que jamais chegaram.
Que cada estrela no céu cinza opaco trate de guardar, no distante intangível, as angústias que se ocupam em flagelar o ego franzino e doente.
Que os drinques gelados curem a infecção nas feridas de toda alma carente.
Que as luzes da cidade iludam por algum instante qualquer coração solitário que insista crer na capacidade humana de amar ao próximo como a si mesmo sob todas as circunstâncias.
Que a ciência descubra o princípio ativo que livre todo ser humano de seus constantes tormentos ontológicos. E que se cure com ele toda deficiência social, pra que então se prive qualquer homem do encargo da práxis contínua.
Que a morte seja sempre indolor, pra quem vai e pra quem fica.
Que a inspiração não se esvaia antes que se pontue a primeira linha.
Que os próximos romances desabrochem fecundos.
E que os cigarros não acabem antes que o café esfrie.
Amém."



sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Como um homem qualquer

Aos tropeços, ele perambulava pelas ruas mais sinistras de São Paulo.
Sempre solitário, salvo a companhia de seu cão sujo e sarnento tal qual o dono.
As mãos sempre encardidas. A roupa sempre fétida.
Não tinha certeza sobre a procedência de seu nome, mas era José. Zé...Zé ninguém.
Ao contrário do que se poderia esperar, ele não recebia maus olhares. Na verdade, não recebia olhar algum.
Vez ou outra, sua presença incitava a fuga dos passantes.
Não entendia. Sentia-se inofensivo e indefeso, embora tivesse consciência plena de seu desajustamento.
Não raro, sentia medo. Conhecia histórias pavorosas sobre atrocidades que se cometia com gente como ele. Além do mais, perdia comparsas para o frio, para a inanição e para a violência. Sofria as perdas e não tinha a quem chorá-las.
Por essa razão, optou limitar-se à relação com seu peludo pulguento. O cachorro era o único a quem ele podia garantir o cuidado e a integridade. Exceto se tivesse grande má sorte a ponto de perdê-lo também.
Numa noite gélida, peregrinava sem rumo por um bairro central. Não tremia. O álcool aquecia seu corpo e a embriagues acalentava o trapo que possuía no lugar do coração.
Num quarteirão escuro, vasculhava lixeiras a procura de alguma coisa que, embora descartada por outrem, lhe pudesse ser de utilidade.
Avistou um homem, cujo a cabeça já era quase toda tomada por fios brancos. Arriscou-se. Pediu alguma esmola. Mas o velho, franzindo a testa, sequer deu-lhe ouvidos. Seguiu a passos acelerados, como se nada tivesse ocorrido.
O miserável questionou-se sobre sua própria existência. Podia já ter morrido de hipotermia sem ter se dado conta, vai saber.
Resmungou para o cachorro e este abanou o rabo em gesto fraterno.
Mais adiante, numa parada de ônibus, viu entre sombras a figura de uma moça. Uma garota jovem, de mochila nas costas a denunciá-la estudante.
Muito antes dele perceber, ela já o observava ao longe, rodopiando, tropicando e quase caindo.
Ao perceber sua notoriedade para a jovem, entrou em estado quase catatônico. Prostrou-se bem no meio da calçada e a encarou desconfiado.
Ela, compadecida de seu estado, apenas abaixou a cabeça demonstrando respeito.
Cambaleante, ele arrastou-se até uma árvore enraizada no concreto do passeio. O cachorro, sempre aqui e ali a fuçar os postes e arbustos.
Do alto da copa o homem colheu uma flor. E do mais alto ápice de audácia, emergiu o impulso de oferecê-la a menina.
Já no instante seguinte, arrependeu-se supondo e imaginando a já quase palpável realidade amarga: A repugnância estampada no rosto da estudante.
Mas para sua surpresa, ela sorriu prontamente, estendendo os dedos delicados para apanhar sua oferta.
O pobre homem encheu-se de ternura e quase chorou. Ele existia, afinal. Com os olhos marejados, sorriu exibindo a gengiva já quase toda banguela, com exceção de um ou outro dente já putrefato.
Saiu apressado. Não queria tomar mais tempo de sua mais nova amiga, a quem ele provavelmente jamais veria outra vez.
Passados alguns metros, desafiou-se a cantarolar uma canção, tamanha era a alegria. De sua música, quase nada se entendia. O cão, seguia chacoalhando-se e latindo ao vê-lo tão contente.
O mendigo compreendia que o ato da jovem era de compaixão. Mas nem por isso desmerecia sua legitimidade. Ora, claro que ele não conquistaria a admiração e tampouco o amor de alguém em tais condições. Porém, pelo menos por alguns poucos segundos, alguém pôde proporcioná-lo, ou quem sabe, devolvê-lo o direito de ser como um homem qualquer.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Sobre xaropar

Xaropar é se preocupar demais. É problematizar situações antes mesmo que se constituam os fatos. É mexer no que está quieto, se precipitar. Xaropar é ponderar e investigar toda e qualquer ação que seja de cunho subjetivo. E quase toda ação (pra não dizer toda) provinda de um sujeito é subjetiva. Xaropar é ser autoagressivo. É se martirizar com muita, mas muita antecedência.
Em meu próprio caso, tento compreender as formas que ultimamente me delineiam enquanto indivíduo. Elas se transformam. E essas transformações são abruptas demais, constantes demais. Logo que me emancipo num aspecto, me fragilizo por completo noutro. São formas desenhadas com traços tênues que se misturam facilmente ao mundo, mesclando figura e fundo. Mas que porra é essa?
Talvez não devesse despender de tanta reflexão, de um esforço tão denso para assuntos de ordem relativamente superficial. Desaprendi a "deixar rolar".
Dessa vez é certo que o conflito está em mim. Bem melhor ter essa certeza e, consequentemente, manter a comunicação de mim para comigo. Não existe nenhum objeto externo que mereça o fardo de compartilhar minhas angústias.
Capaz ser tudo fruto desse ócio maldito. Esse ócio que se iniciou como queda da produtividade e, finalmente, se instaurou por completo outra vez. E de novo recai sobre mim a culpa e o desespero por, supostamente, rascunhar a vida.
Talvez exista uma necessidade intrínseca, absoluta por uma fase de introspecção pela qual não quero me submeter. Por que? Por medo, simplesmente. E se ao meu despertar, todos tiverem ido embora? Aliás, todos quem, afinal? Sob uma ótica mais realista, racional e, despropositadamente cruel, nunca houve ninguém e nem nunca haverá.
Do leque de sistemas que permeiam minha modesta existência, não vejo algo que esteja propriamente fora do lugar. Mas ainda assim, está tudo fora de ordem. Estou intimamente ligada ao fantasma de uma crise que já não tem mais causa.
Em todos nós habita um buraco. Temos a opção de preenchê-lo ou deixá-lo aberto para as eventualidades. Transito por essas opções. Honestamente, estou tentando largar-me ao acaso. Mas existe uma ansiedade corrosiva. Aquela apressada corrida rumo ao nada, já citada diversas vezes.
Feliz de quem consegue operar de fato no nível operacional. Feliz de quem consegue ser. De quem consegue somente ser.

domingo, 4 de agosto de 2013

Erotomaníaca (Inspirado em ''À la folie... pas du tout'')

Estava mais do que certa sobre ele ser louco por ela. Por que haveria de dar tantos sinais caso fosse mentira?
Mas claro que ele jamais admitiria às claras, ela pensava. Tamanha era sua importância, vistosa era sua carreira. Um acadêmico cheio de estofo, de fala prolixa, de conhecimento exímio, digno de seu título. Doutor. Ah, doutor!
Já ela era apenas uma aluna que acabara de iniciar sua jornada em busca do primeiro canudo. Mas dormia todas as noites com a certeza de que era consigo que o professor de neurofisiologia estava prestes a se casar.
Durante as aulas, ele fixava o olhar em seu rosto. Era como se quisesse dar a ela uma aula particular. Tão dispensáveis eram os outros jovens, a sala de aula, a universidade e o seu emprego. Importante mesmo era ela. A atenção dela, a ternura com a qual prestava atenção em cada uma de suas palavras.
E ela, muito dedicada e compreensiva, sempre o perdoava por não responder seus recados. Sabia que ele padecia de vontade de escrever dezenas de cartas, entregar incontáveis presentes e até quem sabe cantar, ao pé de seu ouvido, sua canção preferida. Mas não podia! E indubitavelmente sofria por essa razão.
Não conversava com quase ninguém a respeito de seu romance. A quem tentou confessar, não creu. Para ela, isto significava inveja. Lógico que não creriam! Não havia qualquer outra no campus que não amaria trocar de lugar com ela.
E assim ia levando os dias. Tecendo minuciosamente cada detalhe de seu futuro com seu amado professor.
E ele? Bem, ele gostava dela. Considerava-a excelente aluna. Não lembrava ao certo qual era seu nome, já que não era dos mais comuns. Além do mais, era demasiadamente ocupado para conseguir memorizar os nomes de tantos alunos. Ministrava suas aulas durante o dia e também a noite. Participava de inúmeras bancas, orientava muitas pesquisas. As vezes, encontrava-se sem tempo até mesmo para apreciar a companhia da esposa e dos filhos. Mas era feliz. Incontestavelmente feliz.
Vez ou outra, ficava um pouco assustado com a desmedida dedicação da menina, pois esta escrevia extensos artigos sobre anatomia cerebral, desenhava complexos esquemas do sistema nervoso e sabia mais do que qualquer outro aluno sobre neurônios e sinapses. Além de contemplar o hábito demodé de presenteá-lo com maçãs quase todos os dias.
Mas, de forma bastante generalista, ficava orgulhoso quando percebia a admiração saltar dos rostos de seus alunos. Embora o que mais contasse era a satisfação em poder deixar para o mundo o seu legado.
O que ele não sabia é que no caso dela, não se tratava de admiração. Era amor, era paixão, era erotomania.


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

O que caralhos você está fazendo aqui?

Idolatrar o Poder pode parecer obsoleto. Mas não pra mim. Sempre funciona comigo, até mesmo nos mais frágeis símbolos.
Aliás, quão débil sou eu diante de qualquer porra de imagem pseudo-autoritária? Com exceção da divina, porque é sempre um passatempo duplamente excitante blasfemar contra Deus. Em primeiro porque nem mesmo acredito que exista e em segundo porque nos lapsos de crença surge aquele prazer ignóbil em desautorizar a entidade suprema. Infantil, confesso. Porém, inenarravelmente sincero.
Eu que me afundo em combustível oriundo de uma imaginação profana, descomungo a mim mesma da ordem moral toda vez que me surge algum pensamento a seu respeito. Não é todo mundo que desperta em mim o lado sórdido. E atente para o fato de que sequer te conheço.
Mas, como não ser boa, como não ser fofa, como não ser delicada e reverente à uma verdadeira ameaça? É, eu me afundo. E digo mais: Não me importo nada. Me afundo e não nado de volta à superfície. Não, não sei fazer jogo duro, tampouco aprendi a esconder o jogo. Despejo o deck sobre a mesa, já que dessa aposta não perco e nem levo nada.
O que será que é você? O que caralhos você está fazendo aqui?
Se veio por bem, espero que fique mais. Se foi por mal, então foi um mal necessário. Deveras necessário. Substituível, porém indispensável. Porque no final das contas o trabalho de destroçar meus tabus acabou ficando por sua conta. Por sua conta e meu risco. Mas eu assumi os riscos desde o início.
Então, sei lá. Valeu aí, de verdade mesmo.

terça-feira, 23 de julho de 2013

Que tal mais um café?

Pulando os ladrilhos que calçavam a praça, ela caminhava cantarolando uma canção. Mas em silêncio. Mentalmente.
A música parecia ecoar de algum ponto visceral. Pois era como se, afinado a melodia, todo seu corpo vibrasse.
Já não mais havia sinais da tempestade impiedosa que varrera a cidade. Salvo um arco-íris estampado no céu e a relva que ainda estava molhada.
O dia era tão lindo. Parecia uma composição de cinema para uma cena de recomeço. E sentia-se uma tensão nos ares, digna de fazer crer que aquela era a deixa para o clímax do enredo.
Repetia os versos da canção como se fossem seus, tamanha era a harmonia entre si e a criação do autor.
"Entra pra ver, mas tira o sapato pra entrar,
que eu mudei de lugar, algumas certezas... "
Tinha ainda algum tempo livre pra desperdiçar com suas próprias bobagens e por essa razão, caminhava despreocupada.
No caminho, via nos sorrisos dos passantes o que já não via em si própria há muito tempo: Esperança.
Que belos eram os sorrisos. Onde se escondiam?
E foi distraída em sua viagem pelas estrofes e acordes de Cícero que chegou por acaso onde, mais tarde, entenderia que era seu destino: A cafeteria.
Sequer apreciava café. Optava, como para todas as coisas, por escolhas alternativas.
No balcão, pediu capuccino. Pediu pra que caprichassem na canela. E, voltando-se para dentro de si, pediu paz.
As mesas estavam quase todas cheias, enquanto que ali nela, não havia ninguém. Não sabia se mais perturbava um coração roubado ou um coração vazio. Mas não queria pensar nisso agora. Só queria paz e canela.
Mas no meio de tantos vultos, tantos rostos sem face, havia um especial. Um com o olhar ávido, atrás de lentes. Nas mãos, segurava um livro extenso, de alguma série de fantasia.
Certamente não era adolescente, mas exprimia um ar bem humorado e, indiscutivelmente, jovial.
Lia, mas a leitura não o entretinha. O café já estava frio. A conta já estava paga. Restava sair e, quem sabe, aproveitar o final do almoço pra adiantar algum trabalho.
Mas o destino, que nunca vacila, cruzou seu olhar com o dela. Ela que estava lá, agitada, pensando "no tempo que levou pra arrumar aquela gaveta". Ela que olhava as horas, que se dispersava, que lia alguma manchete aleatória no jornal.
Ela que quando o viu passar todo atrapalhado pelos corredores estreitos formados por mesas e cadeiras, sorriu subitamente.
E ele, timidamente, sorriu de volta. Mas com a alma. E como quem não quer nada, cochichou: "Que tal mais um café?"




segunda-feira, 22 de julho de 2013

Miocárdio

Arranque-o do peito, dilacere-o.
Esfregue as feridas com vinagre e sal.
Esmurre-o com força até desfalecê-lo.
Corra, transpire a dor, mantenha os músculos rijos.
Regue os tecidos com líquido venoso.
Aqueça, abrase, combuste. Nunca pare, jamais desista.
Esfole a carne, esfacele as células.
Porém, sobreviva.
No final, as cicatrizes serão robustas, mas indolores. E os riscos? Os riscos são letais. Mas verdade é que só se percebe a vida ao contrastá-la com seu oposto. Só se vive porque se morre. E a morte é irremissível.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Então eu aprendi

que quem ama de verdade, sente quando é hora de partir.
E que amor que é amor, não vai embora através das circunstâncias. Não importa a distância, a falta de contato e nem as más interpretações do outro lado. O amor persiste. E quando é amor, do tipo que todos almejam sentir (sem saber das complicações), naturalmente liberta.
Eu sei, eu demorei muito pra aprender o que sempre ouvi o mundo inteiro dizer. Mas agora sigo crendo, finalmente, que não se pode lutar contra o impossível. O impossível não é por acaso. Nada é por acaso.
Agora eu entendo que não se pode transformar uma história bonita em martírio e que por mais amargos que estejam sendo esses dias póstumos, seu resultado será recompensador. Não só pra mim. Eu não penso só em mim. Nunca pensei. Nunca foi uma questão de orgulho porque, não sei se feliz ou infelizmente, orgulho é coisa que desconheço.
Eu morri. Nós morremos. E já faz tempo demais pra continuar relutando em nascer outra vez.
Pegue as oportunidades, olhe ao redor. Persiga seus objetivos ferozmente. Sinta raiva, sinta saudade, sinta o medo de ser infeliz pra sempre. Sinta a solidão. Sinta.
Viva as fases, não ultrapasse os limites do tempo. Espere. Siga paciente, mas siga sempre.
Mate a fantasia e finalmente desvende a realidade. Não, ela não é doce, mas é... palpável.
Então, eu aprendi. E acho que aprendi tudo isso com você. Se não foi diretamente, pelos seus conselhos, foi através da nossa história. Empiricamente.
Entendi seus motivos. Céus! Mais do que nunca eu enxergo os porquês! E você sempre esteve certo. Exceto por acreditar que eu sou tão forte quanto você.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Ceticismo

Naquela manhã, embora o sol brilhasse para a maioria, sobre a sua cabeça pairava uma nuvem nebulosa e carregada.
Era acometida por uma tempestade torrencial de dúvidas, arrependimentos, frustrações e melancolia. Era tão custoso dar as costas aos vestígios de esperança... Era deveras doloroso seguir em frente, sem olhar pra trás, desguarnecida de motivos.
O motivo pra viver era somente viver. Todo e qualquer esforço seria em razão de evitar grandes sofrimentos e não de buscar felicidade. Na verdade, estava exausta de sua busca desvairada por sabe-se lá o que. Já era tempo de sossegar, descansar dessa extenuante jornada rumo ao nada.
Apesar dos pesares, era uma bela manhã. Vestiu um casaco de lã, muniu-se de fones de ouvido e saiu.
Obviamente não havia um destino premeditado. E pensava angustiada que se nem pra'quela caminhada descompromissada conseguia se projetar, o que esperar então de sua vida?!
Depois de tanta dedicação e paciência para com um futuro incalcansável encontrava-se incrédula em relação ao destino. Bem porque, pensava que mesmo que comprovasse sua teoria do desígnio, o universo não estaria a seu favor. Suas crenças se dissolviam de forma a levá-la, finalmente, à desistência.
A chama do amor impossível que alimentava há meses havia se apagado sem aviso. O impossível tornara-se mais que concreto, era também propositalmente ideal e invencível. Sua falta de fé tomou proporções gigantescas a ponto de abalar o inabalável. Simplesmente era o fim. Derrotada, apenas conformava-se com o fim. Ademais, antes lamentar-se pela finitude de um bom sentimento do que assisti-lo transformar-se em ódio. Ao menos as lembranças gratas resistiriam.
Caminhava sem pressa. Sentia uma enorme leveza que, no entanto, não era de alívio e sim consequência do vazio. Se sentia dominada por uma espécie de liberdade forçosa que mais parecia abandono, rejeição. Liberdade seria se estivesse, por escolha, desacompanhada. Mas a leveza estranha era na verdade solidão.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Ser humano

Ser humano é sofrer.
E o ser humano sofre pelo simples fato de ser.
Ser humano entorpece a realidade pra não perceber que em seu íntimo sabe que é feito de nada e como nada vai perecer.
Entorpece-a com sonhos, devaneios, amor, arte, fumo e bebida. Não importa. Mais dia ou menos dia vai envelhecer, vai morrer.
Sua doença começa na existência. E só existe para si porque pensa existir. Pensa, se incomoda, sufoca as indagações e se acomoda.
Culpa a vida por incompreendê-la, pela incapacidade de atribuí-la algum sentido, algum motivo.
Trabalha, inventa, produz. Não sendo assim, é consumido pelo caos da exclusiva habilidade de refletir sobre ser.
Ah! Ser humano...
Investe na fé, investe no amor.
Relativiza tudo.
Certo e errado, prazer e dor.
Fraciona tantos significados que chega a zero no numerador e no denominador.

sábado, 6 de julho de 2013

Café da manhã

Naquela manhã, me senti enganada pela vida. Não que fosse novidade que ela faria isso muitas e muitas vezes, mas dessa vez me senti traída e ainda não houve dor que superasse esta.
Não posso imaginar quão pior foi a sua dor. A dor aguda do punhal traiçoeiro da ilusão, atravessando nossos corações.
O seu café tinha mais calor que você. A banana que descascou com dificuldade guardava, em suas fibras, mais vida do que você.
Mas você esteve firme naqueles dias. Eu te vi segurando sua bandeja com tanta vitalidade, seu determinismo era tão forte. Havia uma chama em seu olhar que era intensa, porém, tremeluzia. Eu já devia saber... Eu devia ter escutado o que me diziam.
Mas não. Eu cri que você ficaria.
Mas tudo foi finito. Presença, esperança.
O que persiste imortal e invisível é a saudade.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Minha terra, minha vida

Da mistura antagônica de amor e ódio é que nascem as manhãs sob as cinzas na Selva de Pedras.
É da luz do sol que depende o bom humor de seu povo que não precisa de muito pra ser feliz. Esse sol que só vive escondido e que quando aparece, aparece tímido, com raios franzinos, na Terra da Garoa.
Essa gente que vive sufocada pelas dificuldades, pela hostilidade da vida conturbada, do céu avermelhado, da aridez nos olhares, é boa demais por viver sempre sorrindo. O coração é desconfiado, mas generoso que é, está sempre acessível. Oh, gente carrancuda, gente durona, cheia de marra!
É essa gente disposta que me contagia. Combustível heroico para a rotina caótica em nossa terra cheia de charme, poeira e poesia.
A heterogeneidade é nosso privilégio. Grato privilégio.
Ah, essa nossa gente bonita...
O branco, a índia, a linda pretinha do maracatu , o loirinho de pele rosada, o gringo, o cearense, a baiana arretada. Gente de toda parte do Brasil, do mundo. A galera do skate, gente pseudo-culta, gente culta de verdade. O barbudo do violão, o rapaz da bossa nova, o estudante, o trabalhador assalariado. O artesão, a atriz de rua, a patricinha, o executivo de terno e gravata. O gamer, o fotógrafo, o hippie, o mendigo. O turista, o hipster, o repentista, o rapper na rinha, o sertanejo, o rockeiro dobrando a esquina da 24 de maio. A dona de casa, o aposentado...
São incontáveis os rostos, são as tantas cores e as formas que compõem o cenário da nossa elegante metrópole judiada.
Verdes, azuis, vermelhos e amarelos são nossos caminhos de ferro. Asfaltadas e concretas são as jornadas. E mesmo com todas as faltas, mesmo saturada, cheia de escassez, os canteiros contemplam belas árvores centenárias.
A avenida que leva o nome de nossa naturalidade é nosso orgulho. É Paulista, tal como sua gente, e abriga desde as mais belas artes, até o clamor legítimo de um povo que luta por dignidade.
O horizonte é contornado sobre vários arranha-céus, mas nem por isso o crepúsculo deixa de ser estonteante.
E é por este prisma ambivalente que vou vivendo cada dia em minha cidade, que não é Rio de Janeiro, mas é maravilhosa. E é por estes tantos motivos que por mais que me enfureça nunca perde meu amor. Posso vir a me despedir de São Paulo. Pode ser que um dia realmente saia daqui. Mas o fato incontestável é que mesmo que saia de São Paulo, São Paulo jamais sairá de mim.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Psicologizando desconexamente

O choro é passível de ser engolido sim. Nas primeiras vezes é um pouco complicado porque os suspiros arranham a garganta, o coração e a alma. Mas com o tempo, qualquer um é capaz de aprender.
Cada um tem seu truque. Igual engolir comprimido. Uns colocam na ponta da língua, outros no meio dela e alguns, mais ousados até dissolvem-no na água e bebem a mistura amarga.
O fato indiscutível é que todos, TODOS nós mais cedo ou mais tarde teremos de lidar com o mundo caindo sobre nossas cabeças, com o chão nos sendo tomado e com a bola de arame farpado que se forma em nossa traqueia, obstruindo-a, nos tirando o ar.
Parte de mim está morrendo. E está morrendo claramente pra dar espaço a uma nova pessoa. A tão sonhada maturidade está se aproximando e isso dói. Parece que cada vez doerá mais. Mas também será mais sutil e suportável. É, é paradoxal mesmo.
As lágrimas mais doídas da minha vida toda, foram as que eu contive na fila de uma empresa, segurando a carteira de trabalho nas mãos pra ser contratada. Estava em frangalhos, mas ninguém podia saber.
Com o tempo, a vida não nos permite mais derramar o pranto por um dia inteiro na cama. Sem comer, sem dormir ou tomar banho. Se isto acontecer, certamente algum diagnóstico tratará de nos colocar num lugar social muito pior: o lugar do doente. E aí pode-se dizer que a vida acaba mesmo. Internações, estimulantes, anti-psicóticos, avental, cateter na veia.
E se não for isso, então é a drogadição que acaba conduzindo exatamente pro mesmo status. Só que neste caso, os olhares são muito mais cruéis e preconceituosos.
Sabemos que uma pressãozinha no peito, que acomete a todos, não pode ser responsável por estragar os anos pósteros. Por isso que na hora que a maré aumenta, até quem não tem perna corre da praia.
Ninguém gosta, mas no fundo, todo mundo sabe que é melhor digerir a mágoa, por mais doloroso que seja o processo, do que deixá-la no domínio das continentais terras psíquicas.

domingo, 23 de junho de 2013

Prodígio

Dentre todas as coisas que compunham seu visual anedótico, meio Starbucks na hora do almoço misturado com Augusta de sexta-feira a noite, era o seu sorriso que mais chamava atenção.
Claro que não era tão perceptível, escondido atrás da barba e dos óculos de armação larga. Sorriso maduro de aspecto pueril.
Embora aparentasse inocência, escondia a sabedoria de mais de cem anos. Não sei dizer se vinha dos livros, dos antepassados ou de outras vidas. Só sei que um rapaz tão jovem e tão pouco vivido certamente guardava alguma receita secreta sobre inteligência.
E sua sagacidade era tão vistosa que formava de dentro pra fora uma potente camada de valência, capaz de atrair incontáveis pessoas. Em outras palavras, era através de sua beleza interna que conquistava prontamente quem conhecia. Não que fosse feio por fora. Mas os apetrechos xadrezes e seu chapéu escondiam um pouco de seu brilho.
Não era incomum que tivesse crises ou sofresse sem motivos óbvios. Pessoas geniais sofrem desse mal. E embora brincasse de Narciso, era muito menos orgulhoso de si do que poderia ser, afinal, sua auto-estima era suficientemente baixa para cegá-lo.
Das palavras fazia legítimas obras de arte. E era modesto. Tanto que se dispunha a ler os rascunhos miseráveis alheios com dedicação e afinco.
Esse rapaz prodígio passou por mim como um vetor desvairado, deixando apenas boas lembranças, algumas fotografias e meu olhar perdido em admiração.
Sua passagem foi breve. Seu legado, imensurável.
Hoje, quando o avisto de longe, me felicito em vê-lo sorrindo sem artifícios, com menos disfarces. É bom constatar o fortalecimento de seu ego e a preservação de sua essência. Pois continua o mesmo bobo de discurso tristonho sempre bem disposto.
Ele inclusive me acena, embora não me tenha deixado uma porta aberta, apenas as vidraças de algumas janelas distantes, para que eu pudesse gritá-lo quando estivesse em apuros. Muito justo, afinal já havia dado de cara com minha porta fechada, trancafiada a sete chaves.
E no meu íntimo, me arrependo por tê-lo deixado ir embora tão depressa. Apesar de que prendê-lo, seria nada menos do que egoísmo da minha parte.

sábado, 22 de junho de 2013

Um dilema sem dialética

Havia algum tempo que ela adotara uma maneira mais fácil e menos narcísica de falar sobre si.
Era usando um discurso em terceira pessoa, que seus sentimentos se esvaíam, em detalhes, pelo mundo.
Não é incomum confeccionar um objeto romântico, ideal e perfeito para constituir uma bela prosa. Mas no caso dela a fixação por seu objeto transcendia as intenções literárias.
Era sob o viés do amor que ela escrevia já há meses. Sendo ele maior ou menor motivo. Sendo oculto ou sendo explícito. Ele estava sempre presente. O amor insistente, incansável, que com o tempo foi forçado a se transformar num amor mais altruísta, desesperançoso. Mas ainda era o mesmo amor. Com o mesmo vigor que tivera em seu apogeu.
E ela sabia que a fonte nutritiva para tudo em sua vida tinha sua nascente ali. Mas se ramificava através de inúmeras justificativas e desculpas disfarçadas em novos objetivos.
Não era por menos que suas noites eram regadas por lágrimas e insônia e era tudo tão doloroso que só podia ser percebido por sentidos sensíveis ao silêncio. Mas para seu azar, ninguém conseguia percebê-la ali calada e trancada em seu sofrimento.
As razões para escrever estavam diminuindo. Na verdade, havia muito para ser escrito ainda, mas onde estavam seus leitores?Pior do que não receber a única atenção que esperava era notar que haviam muitas outras disputando a mesma fonte de inspiração.
Achava injusto. Não admitia que desconhecidas se apossassem de sua história e a apagassem lentamente pelo esquecimento.
Ao mesmo tempo, quando tomada pela lógica, sentia-se egoísta e infantil pois no fundo sabia que era muito complicado tecer com as próprias mãos a felicidade do outro. Mas acima de todas as coisas era essa felicidade que mais importava. O outro merecia, mais do que ninguém, sorrir em paz.
Era afogada nesse dilema que ela vivia há semanas. Queria ver o rosto alegre do outro, mas insistia em tomá-lo para si. E sabia que se o tomasse, provavelmente o extinguiria. Seja por incapacidade, pela distância, pelas circunstâncias...
Talvez apenas o outro conseguisse entender essa dualidade, essas nuances sentimentais extremamente complexas. Ou talvez ele estivesse desinteressado, cuidando a seu modo de superar suas mazelas e alcançar sua merecida felicidade. Na verdade, é impossível supor seu posicionamento nessa história, pois sabia disfarçar tudo muito bem. Seja lá o que fosse, apenas escondia.
E ela, já tão desconfiada de tudo e todos ficava a mercê de seu humor. Quando bem humorada, era otimista, compreensiva e corajosa. Com o humor abalado, cogitava-o como mentiroso, insensível, enganador. E quando finalmente tentava uma dialética, perdia-se ainda mais e então chorava.
Embutidos no medo de perdê-lo estavam também o medo da solidão e do fracasso. Ora acreditava em destino, ora acreditava que eram os resquícios de sua adolescência esperando para serem resolvidos.
Mesmo com uma sensação estranha de que estava gastando a última centelha de sua história de amor, ainda tentava juntar os quadros chamuscados para formar um novo filme.
Pois afinal, quem pode saber se a teoria sore o destino não é mesmo a correta?

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Delírios de grandeza e saudade

Entrei naquele carro que você nunca comprou e nós viajamos para aquela praia que você sempre quis conhecer.
Escutamos as músicas que não cheguei a te apresentar e você, como sempre, me disse que agora prefere MPB.
Divagamos sobre política, educação, sobre nossas atuais boas vidas. Eu sobre aquele mestrado que ainda não conquistei e você sobre aqueles números extensos que nunca residiram sua conta bancária. Sempre tão ambiciosa, sempre tão cheia de poder.
E nós comemos um jantar refinadíssimo, pois era seu desejo.
Finalmente, quando acabou o passeio, peguei suas mãos já calosas em função da idade que você nunca atingiu e pintei suas unhas com aquele esmalte cor de goiaba que você tanto adora.
E você sorriu, exibindo as facetas em porcelana que nunca chegou a implantar nos dentes. Mas isso, claro, sem abrir mão de seu tão antigo hábito de acender seu Marlboro vermelho a todo instante. Triste vício, porém intransferivelmente seu.
Mas triste mesmo foi o momento em que despertei. Não de um sonho, como se poderia pensar, mas de um devaneio, de um quase-delírio.
Acordei num ponto de ônibus qualquer, numa sexta-feira qualquer. E como já não fosse suficientemente doloroso constatar a ausência de nossos sonhos, lembrei-me que sequer te tenho aqui comigo. Nem mesmo sua face rugosa eu tive a chance de conhecer.
No caminho para casa, passando pela avenida, desconhecidos me acenavam confundindo-me com você. Curioso pois em razão de sua fama, é de se estranhar que desconheçam sobre sua partida.
Embora seja compreensível associarem-me a seus traços e suas madeixas rubras tais quais as minhas.
Por fim, acabei entrando no ônibus velho e sujo. Acompanhada apenas de saudades e de um amor por você que jamais acabará. Sem seu abraço, sem ouvir sua voz esbravejando com cobradores e motoristas, sem debochar alegremente de seus peculiares costumes, sem comer seu feijão aguado, sem enlouquecer ao te ver com minha calça jeans recém comprada e sem sentir seu doce perfume de óleo de andiroba.
Enfim, vida e morte seguiram seu caminho e eu fiquei aqui sozinha.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Destino

O amor ainda estava lá. Mas dessa vez, num lugar mais escondido. Num recipiente opaco talvez. Pra não chamar muita atenção, quem sabe. Mas ainda assim, podia-se sentir sua fragrância exalando doce e sutil nos ares litorâneos.
Já não importavam mais as circunstâncias, não eram necessárias explicações, tampouco era necessário dizer o óbvio.
O que os olhos de fato contemplavam era a centelha de uma vida ideal que ficava pra traz e sem qualquer garantia de sobrevivência.
Não é que não havia esperança, na verdade, como já se sabe, a esperança é sempre a última sobrevivente. Só já não fazia nenhum sentido erguer uma bandeira estampada com os mais genuínos sentimentos. Tão genuínos que seria um crime deixá-los expostos a quem quisesse passar, olhar e julgar sem conhecer os motivos.
Não podia mais haver egoísmos. Tudo devia ser dito e mais importante ainda: devia ser escutado. Não havia razão para omitir nenhum assunto, nenhuma palavra.
Os rostos estavam tão mudados. O tempo sempre se encarrega de promover as mudanças. Mas como é de nosso comum conhecimento, o que é intrínseco nunca muda. Sobretudo aos olhos de quem sabe exatamente com quem e o que está lidando. Exímios conhecedores das almas um do outro.
E o Tempo, o Devastador, o Soberano não deixa mais qualquer lacuna para ser preenchida com perspectivas futuras. Ele é inteiramente responsável pelas decisões e pelo destino dessas duas vidas que um dia se cruzaram por acaso.
E embora seja verdadeiramente angustiante ter os olhos cerrados pelo incerto, há ainda o alento de que as linhas corretas provavelmente já devem ter sido traçadas e portanto estão definitivamente definidas. Se Deus ou o Diabo as escreveu? Não sei. Não é possível sequer comprovar sua existência. Mas o indiscutível é que pelo menos em mim, habita uma força maior que me faz crer fielmente que o que for pra acontecer, se for o certo, simplesmente acontecerá.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Novos ares

Este vento que sopra hoje gélido e intenso traz consigo sonhos traçados há um tempo longínquo. Suficientemente remoto para ser esquecido. Mas quando o caos se instaura, se faz necessário cavar a alma até suas vísceras. Ou mais do que isso: Até o núcleo da célula do espírito, onde está inscrito o código da felicidade.
E foi no ato destrutivo de me afundar de uma só vez nas infindas lamentações e desgraças de uma vida sem propósito é que tive de encarar, já quase que sem forças, uma estrutura amorfa, desconhecida, perigosa e amedrontadora: o vazio existencial.
Como já era sabido pelos povos antigos, é do caos que surge a organização. Organização esta que nomeia os sentimentos, que dá sentido aos desejos, que determina o lócus dos sonhos mais insanos e descabidos, que concede papéis às pessoas e que acima de tudo devolve o amor próprio.
Dar sentido à existência é tarefa árdua e dinâmica. Seu dinamismo se dá ao passo que uma razão para a vida não satisfaz o vazio definitivamente. Significar esta lacuna existente entre vida e morte consiste em atualizar os motivos para estar vivo a cada segundo vivido.
E são estes novos ares que me felicitam de verdade. Estes que trazem esperança, estes que sopram belas imagens de um futuro alcançável, não tão distante. Estes que me imprimem pequenos bons momentos. Que me dão a graça de ouvir cantar um pássaro pela manhã ao abrir a janela do quarto. Que me presenteiam com a simplicidade de sentar na poltrona do ônibus, num dia ensolarado e bonito, enquanto escuto minha canção favorita nos fones de ouvido e por este pretexto, sorrio. Sorrio sem grandes precedentes, sorrio verdadeiramente.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Um monólogo esquizofrênico de mim comigo mesma

-Ei
-Ei...
- Como você chegou até aí? Sabe, sei lá... você tem tantos amigos. Sua vida parece legal. Me contaram que você tem até um amor eternizado em seu peito..
- Não é assim, dessa forma tão banal quanto você vê e fala. Primeiro que não foi por acaso que vim parar onde estou. E já te adianto que foi um caminho ardiloso.
- Não parece. Você é tão diferente de mim.
- Sim. Inclusive não sou capaz de muita coisa que você é.
- Eu? Mas eu sou infeliz. As pessoas me perturbam na escola. Ninguém é fã de Ramones ou de punk rock. Somente eu. Na maior parte do tempo, eu estou sozinha.
- Quando chegar aqui, verá que esse era o menor de seus problemas, e torcerá por exclusividade. Por ser diferente dos outros. Você também lamentará pelo tempo em que pôde ficar sozinha e administrar seus próprios sentimentos, sem depender de ninguém. Verá que nunca deveria ter deixado o teatro, tampouco a guitarra.
- Mas por que você deixou?
- Porque comecei a priorizar não o que tinha, mas o que me faltava. E isso implica em ingratidão, em falta de reconhecimento, de autoestima... Se paga um preço alto para ter tudo isso que você almeja hoje.
- Mas não estou querendo nada demais. Só quero que minha vida seja legal como a sua. Quero poder sair aos fins de semana com amigos de verdade, quero poder experimentar as bebidas que você bebe, quero ter uma família normal, um namorado que me ame. Isso não é muito.
- A mãe que você tem hoje, eu não trocaria por nada. Ela é bastante imperfeita e eu sei disso. Ela erra, ela é bem chata às vezes, mas ela te ama independente e acima de qualquer coisa nessa vida. Tudo que você imaginar. O problema dela é não ter nada em que se agarrar. No dia em que ela te perder, ela não terá mais qualquer razão para continuar viva.
- Não acredito nisso que fala. Ela não se importa comigo. Aliás, você está me privando de querer me parecer com você e eu não entendo o motivo.
- Sabe, você devia atentar-se ao que digo e não ao que sou ou faço. Se seguir por este caminho, vai sofrer. Vai perder convicções, vai deixar que te moldem, que te ditem o que fazer. Vai perder pessoas as quais poderiam vir a ser grandes amigos. Vai gastar muito tempo presa a ideia de que é necessário ter alguém em quem você coloque sua felicidade. O que é preciso fazer para que você saiba desde já que seu sucesso só depende de você?
- Nada do que você me diz faz sentido. Olhe para você. Você é a pessoa mais livre e autossuficiente que eu conheço. Não tem ninguém que te obrigue a nada. Tem o mundo em suas mãos e as pessoas aos seus pés. Você vai ser psicóloga. Não há nada nesse mundo que você não possa decifrar. Independente de como o consegue, você tem seu próprio dinheiro. Você pode usar uma roupa diferente todos os dias. Você tem um computador com acesso à internet. Pode andar sozinha de ônibus, pode passar a madrugada inteira fora de casa, viajar pra outro estado... TUDO. Você pode tudo. Sua vida nunca para, você nunca está sozinha ou entediada. Agora olhe só para mim. Tudo que tenho é esse CD player onde toco meus álbuns do Ramones e meu violão que mal sei tocar. Estou fadada a todos os dias esperar que o tempo passe pra que as aulas comecem e eu nunca posso fazer NADA. Passo horas devaneando sobre o que está acontecendo no mundo lá fora. Vejo gente feliz, se divertindo, gente amando e sendo correspondida. Vejo tudo isso, porém somente em minha cabeça.
- Menina, não seja tão fútil. Ser autossuficiente hoje, pra mim, é demérito. Não sou por escolha e sim por ser forçada a ser. Ninguém me obriga a nada porque também ninguém espera mais nada de mim. Meu dinheiro não é meu, já que não é conquistado com meus esforços. Posso hoje peregrinar por esse mundo que tanto te suscita curiosidade e inveja, mas se pudesse, passaria mais tempo no quarto, ouvindo meus álbuns.
- E por que não o faz então?
- Porque não suporto ficar sozinha.
- Viu? Eu te disse que é ruim.
-Sim, nunca disse que não era. No entanto, você é capaz, você fica. Eu não. Enquanto que seu medo é perder o que se passa lá fora, o meu é perder o que se passa aqui dentro de mim.
- Já chega, não faz mais sentido te ouvir. Diga o que quiser que eu continuarei desejando ser igualzinha a você.
Mas se puder, por favor, apenas me explique por qual motivo tenta me desiludir.
- Não tento te desiludir. Estou tentando salvá-la.
- Me salvar? Como assim? Quem diabos você pensa que é?
- Eu sou você.

terça-feira, 7 de maio de 2013

Por demérito, sem título

Quão irresponsável você foi ao despertar um coração quieto, sendo que nunca teve a intenção de nutrir qualquer bom sentimento?
Como pôde tratar como nada o que poderia vir a tornar-se tudo? Fantasia que jamais existiria, não fosse você e suas mentiras sob o azul do céu e sobre a grama fria.
Toda rigidez uma hora desmorona, se tratada com doçura. Todo coração se aquece frente a um gesto verdadeiramente amigo.
Amigo? Podia ter sido. Ou até mais, se assim desejasse. Mas é deveras incompleto para andar ao lado de alguém, sem precisar estribar-se numa muralha de concreto, tijolos e segurança. Mesmo que feita de uma superfície fria e agourenta, está sempre aí, estática a te involucrar. Enquanto que ao ar livre, o mundo dança conforme o ritmo dos ventos desconhecidos.
Imatura a escolha de não assumir riscos.
Dentre os recortes de sorrisos, fico aqui tentando achar algum que tenha sido real.
Tateando todas as lembranças verifico se alguma merece ser preservada. Mas no final, acabam todas arremessadas ao fogo do esquecimento. Ordinárias chamas que consomem lentamente seu descaso.
Com que estômago me vem proferir a palavra? Com que coragem me sorri de cara lavada?
Me serve de consolo, que assim tão despreparado, a vida há de te ensinar muito com algumas bofetadas.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Obrigado por ousar

Desavisada das infinitas consequências, fitou certa familiaridade naqueles olhos opacos. Não sabia bem onde os tinha visto antes, mas habitava-lhe a certeza de que cedo ou tarde, aconteceria alguma coisa errada.
Certo seria o que afinal? Fingir que na sombra petulante daquele olhar não havia nada?
E como incomodava ser todos os dias premiada com algumas verdades ásperas e atrevidas daquele insolente ser.
No fundo sabia que ali havia muito medo. Sabia que lhe faltava compreensão e cuidado. Coisa que não cabia a ela consertar.
E era fato que ele precisava desarmar-se de suas rochosas convicções. Se exprimisse sua fragilidade, ela poderia ser sua mentora num universo repleto de oportunidades.
E bem que ela espreitava uma vau para conduzi-lo até seu mundo. Aquele que acreditava ser o único bom de verdade.
Confiava que podia protegê-lo dos eventuais males que o acometessem. Ela poderia supri-lo. Não em tudo, mas naquilo que mais lhe faltasse.
É que a perturbava a ideia de não retribuir àquela mão solidária que recebera dele próprio outrora. Pois embora ele soubesse disfarçar bem, era impossível esconder o tamanho de seu coração.
E ela inquietava-se com os mistérios de uma alma já trancafiada, porém pulsando para esvair-se por entre as brechas do acaso.
Se pudesse, pediria pra que ele se detivesse em deitar nos seus braços e se preocupasse apenas com os próprios machucados. Aqueles esquecidos, que ninguém nunca percebeu ou quis tratar.
Mas ainda que estivesse sempre lá, sempre presente, sempre bem disposta, presumia não haver muito espaço para ela dentro daquela cabecinha repleta de velhas opiniões formadas sobre tudo. Já que ela era, assumidamente, uma metamorfose ambulante.
Independentemente do que diziam as más línguas, ela tinha uma certeza: Ali com ele, sem importar a circunstância, ela era capaz de sentir. E era um novo sentir, pois já estava farta das nostálgicas sinfonias que insistiam em ressoar em seus ouvidos mnemônicos.
Importante mesmo, era que seu corpo estremecia ao contato com o dele. E o dele, mesmo que relutante, agradecia.

terça-feira, 23 de abril de 2013

Um eminente canalha

E é assim, fingindo não querer, que ele as assalta da segurança de suas certezas, da quietude de suas almas.
As pega desarmadas, este canalha, este putrefato ser.
Coa o sangue de seus corações esmagados, só para bebê-lo sozinho sob o luar que reverbera sua cara cínica, pálida e desavergonhada.
Escolhe a esmo a quem sortear aquelas lágrimas dissimuladas ou a quem condecorar com a medalha das otárias.
Proferir ''eu te amo'', para ele, não é coisa rara nem cara.
Com expressão severa e pérfida racionalidade, não se detém de sua perversidade.
Se embaraça em seus dilemas.
Diz valorizar a amizade, mas sacode a genitália toda vez que vê um rabo de saia.
Carrega consigo as insígnias de suas nefastas vitórias sobre aqueles amores trouxas de outrora que sem qualquer pudor, ele fez nascer, combustar e arder.
E com inegável habilidade consegue esgueirar-se, como um rato, pelas beiradas das desculpas fiadas, diz que sua mente nunca está mal intencionada e que em sua ingenuidade e inocência todos devem crer.
Ninguém que não visse (como eu vi) sua auto-estima escorrer pelo ralo entenderia a razão para tais atos.
Fatos compreendidos, porém não justificados.
Humano desqualificado.
Um ladrão de almas, de valores e de moral.
Um cretino, um verdadeiro animal.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Life on Mars

Era um planeta que recebia muitos visitantes, mas eram poucos os que ficavam.
Sua natureza era bastante hostil as vezes e pra se tornar habitante, era necessário muito afinco, muita perseverança.
Suas tempestades eram intensas, mas seu solo era bem rígido. Sua atmosfera podia ser maleável, mas sua robusteza era inflexível.
Eu o via cintilando bem longe. Uma adorável estrela vermelha. Mas mesmo distante, sabia que havia lá uma morada só pra mim. E eu o considerava meu lar primário pois depois de desvendá-lo, a Terra perdeu suas migalhas de esplendor.
Quem um dia denominou-o estrela da morte, é porque não foi agraciado com a força oriunda de sua fúria. Sua fúria não era necessariamente má se compreendida ou bem sublimada.
Independente de quais fossem as circunstâncias, era sempre um astro acolhedor. Não importando quão grande fosse minha frieza, apenas me aquecia.
Hoje seu brilho continua ofuscando a órbita mórbida de todo o restante da população galática. Continua colossal e arbitrariamente emana, para mim, sua boa e exasperada energia.
Não obstante, continuo a admirá-lo, mesmo que sem poder fazer visitas com a frequência que gostaria.
Mesmo que sinta medo de que se torne mais populoso do que sua extensão possa suportar, ainda me felicito em saber que há pra mim um lugar guardado e que possivelmente continuará guardado mesmo que eu jamais volte lá.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Instante de amor

Há quem diga que aquela era uma massa homogênea. Uma grande massa disforme de pessoas comuns e desinteressantes.
Mas eu digo que não. Não era não. No meio da caótica multidão, havia um par de olhos brilhantes que fugia sem graça toda vez que encontrava os meus.
Um olhar que me conquistou em frações de segundos. Um semblante perfeito, carismático.
Naqueles globos oculares eu via a transmissão nítida de quem era. Estudante, mesma idade que eu, mesmo gosto musical, mesmos propósitos, mesmas expectativas.
Via também uma gama de momentos felizes juntos projetados em lâminas imaginárias. Mãos dadas no parque, comédia romântica debaixo do cobertor, risadas espontâneas e chocolate. Sempre tem de haver chocolate.
E visto que nos daríamos tão bem, concluí ali mesmo que devia ser quem eu tanto esperava. Sim, era minha alma gêmea, a parte que faltava.
Mas no instante em que esboçava um sorriso medroso, meus ouvidos despertaram para o som da voz metálica: ''Próxima estação, Alto do Ipiranga''.
Era meu destino. Era minha parada. Era o final.
Antes de mais nada, estava tudo terminado entre nós.
Cabisbaixa, me posicionei frente as barras de metal e borracha que se abriram. Tentei dar uma ultima olhada, mas falhei ao ser empurrada, pelo fluxo, pra fora do vagão.
Foi com a mesma veracidade que me conquistou que se despediu de mim para sempre. E tão veloz foi minha capacidade de esquecer. Uma velocidade proporcionalmente grande à intensidade daquele amor.
Um amor de uma vida inteira, que durou somente um instante.

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Vocês...

São meu porto seguro.

Não é a primeira nem a ultima vez que me sinto compelida a falar sobre a importância da amizade, descoberta por mim ainda há pouco, muito pouco.
Da primeira vez, foi dito que era uma grata surpresa descobrir que o segredo da felicidade está nas relações. Relações estas que precisam necessariamente extravasar o núcleo parental. Relações estas que se mobilizam em prol das semelhanças mas sem se objetarem pela diferença.
Naquela época, me era ainda obscuro o conceito de amigo. Mas ainda assim, dizer ao mundo que eu havia me dado conta da sua existência foi um enorme passo para hoje reconhecer que é indispensável tê-los aqui comigo.
Contente estou hoje por descobrir que tenho alguma capacidade de valência. Pode não ser minha melhor virtude, mas o fato é que descobri o óbvio: Sou um ser social e me sinto feliz sendo assim. Em outras palavras, é gratificante saber que sou capaz de me ligar/ vincular às pessoas e consequentemente experimentar um amor mais altruísta, mais compreensivo, mais dinâmico.
Quando escrevi o primeiro texto referente a esse tema, não imaginei que dentro de alguns meses teria tão claro em mente os nomes e os rostos das pessoas mais importantes e significativas na minha vida. Na verdade, pensava ainda que continuaria a criar laços muito frágeis e que a vida consistia em elaborar subterfúgios constantemente para manter as pessoas por perto. Já hoje, vivo uma quase certeza de que tenho o direito de ser livremente quem eu sou, seja com quem for. Vocês me mostram isso todos os dias e me dão o respaldo, o suporte necessário para seguir acreditando que independente de qual seja a circunstância, eu não estou sozinha.
Alguns integram minha rotina, outros compõe mais as minhas lembranças, mas isso não altera em nada sua importância. Seu espaço reservado em minhas convicções continua intacto. Se não fosse a inibição exercer sobre mim um peso tão forte ou então a distância física e adversidades do dia-a- dia que nos limitam, certamente abraçaria a todos vocês mais vezes.
Me vejo as vezes sem recursos pra retribuir toda a magnitude da força positiva que representam pra mim hoje. E ainda assim, estou segura de que sou compreendida e isso eu também devo a vocês.

Dessa forma, sem mais delongas, só tenho mais uma coisa a dizer: Obrigada.

quarta-feira, 27 de março de 2013

hey, you're hipster buddy!

Com sua roupa sintética e brilhante, ergue-se do marasmo do subúrbio em busca da livre exerção de sua identidade.
É dia de ir pro centro.
É dia de ver luzes piscando rápido, de sentir a vibração do som que toca alto em seus ouvidos.
Ouvidos entorpecidos pelo êxtase de suas músicas favoritas, livres dos ruídos e da cidade hostil.
Sobe e desce a rua Augusta, procurando uma cura para seu enfado.
Deixa seu salário de estagiário nos botecos, bebendo drinques baratos.
Os faróis dos carros pintam um quadro abstrato do seu conturbado dia-a-dia. Remetem ao caos e descontentamento, às idas e vindas, ao alarme do despertador, aos poemas lidos entre uma e outra parada do metrô.
É tudo sempre fatidicamente tão igual.
Sua semana transcende o calendário para o mundo real utilizando-se das mesmas formas e intenção. O cinza que delineia os dias úteis, estampa-se na frieza da rotina dos prédios sem vida. Assim como o vermelho-sangue dos finais de semana colore a cachaça salpicada de groselha, tornando sua existência colorida somente naqueles dois dias.
Em frente a estação Consolação, encontra sempre as mesmas caras pálidas, o mesmo cheiro de cigarro, o mesmo cenário produzido intencionalmente, composto de pessoas de hoje vestindo os casacos de seus antepassados. Pessoas preservando o charme e glamour de outrora, porém, sem abrir mão da desdourada e promíscua modernidade.
Em seu chapéu, a notável tentativa de reconstituir o passado ao qual sequer pertenceu.
Olha sua imagem refletida no vidro fumê, a exteriorização de sua ideologia démodé.
Uma foto perfeita pra um retrato futurista confeccionado há décadas atrás.
No rosto, um sorriso tímido e fugaz.
A fronte franzida de confiança e obstinação.
Na alma, o prazer pela satisfação do fetiche da autenticidade.
Nas entranhas do inconsciente, o desgosto de ser um exímio enganador de si mesmo.

segunda-feira, 25 de março de 2013

Caro estranho

Esqueci o que se faz pra tentar fazer parte da vida de alguém. Ainda mais a sua, que é oca.
E se você soubesse que existe um momento em todos os meus dias, que me lembro de você, caro estanho?
Não duvido que pensaria as piores coisas como eu também penso de quem chega me intimidando assim.
E se descobrisse que você é assunto entre nossos amigos? Talvez fosse querer demais te pedir pra compreender. Mas é pura empolgação.
Mas uma empolgação tão verdadeira, que não cabe só no plano ideal. Precisei trazer pra esse real-virtual-fora da minha cabeça.
Não sei se já te conheço, mas você parece tão familiar. Essas suas risadas, as suas patadas, sua falta de consideração. Sua falta de noção sobre as coisas que vivo a insinuar. Essa sua lerdeza proposital.
Independente do que venha a ser você, caro estranho, só me ensine o que fazer pra ter esperança outra vez.
Nutra essa minha insensatez, você não precisa fazer muito. Me empreste a sua ingenuidade, essa sua solidão e a sua possível falta de caráter.
Me acenda um cigarro, caro estranho. Não te importa o que me faz mal. Afinal, quem sou além de uma disposta e triunfante pessoa legal com quem você conversou sobre seus drinques favoritos nos últimos dias.
Deixa o tempo passar. Uma hora eu descubro o que esconde esse rostinho infantil, essa expressão de quem não espera nada do mundo nem da vida. Esse semblante claro e doce que movimenta minha constrita capacidade de criar e imaginar e tentar esquecer.
Esse sarcasmo instigante não me permite te esquecer ali quieto e sozinho. Não vou assumir às pressas aquilo que nem sei definir. Mas também não vou desistir tão facilmente de descobrir quem essa pessoa que com absolutamente nada me faz tão bem.
Não sei como você conseguiu isso.
E só você conseguiu isso, meu querido e estimado estranho.
Não sei como e nem até quando.
Mas já estou, sem dúvidas, em dívida.



terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Mudanças

A cada 24 horas, renovo meus costumes. Eu que sempre detestei mudanças, hoje me sinto pertencente a essa vida conturbada e imprevisível.
Já não sinto ódio pelas mudanças, mas não significa que não sou sensível à elas.
Ver uma clínica de estética, sóbria, fria e cinzenta no lugar do pequeno hotel colorido com cores quentes e decorado com o táxi amarelo vintage, me fez derramar uma lágrima.
Para qualquer espectador que me visse de forma rasa e breve, apenas de passagem pela avenida, pareceria uma irritação ocular, ou quem sabe um pequeno cisco. Mas de forma introspectiva, no meu mais íntimo eu, estava a me despedaçar.
Da mesma forma me senti ao esbarrar com a porta fechada do bar onde costumava ir quase todos os dias.
Como não bastasse o desgaste das lembranças, as coisas concretas que sobram dos tempos alegres, simplesmente desmoronam.
E de forma infantil e egoísta, fico a me perguntar com que direito o mundo foge do meu controle sem que eu tenha permitido.
Quando me olho no espelho e percebo que algumas mudanças foram minhas escolhas e portanto são reversíveis, não me incomodo. Se hoje sou ruiva, amanhã posso ser loira e quem sabe depois morena. Mas se me deparo com sutis marcas de expressão que representam o próprio tempo estampado em meu rosto, entro em desespero.
Pensava estar lidando bem com a incerteza, com as possíveis surpresas do amanhã. Mas então, tenho recaídas e percebo que alguma certeza me cairia bem agora. Algum aconchego em um abraço repleto de segurança. Porque é fato que a vida nos ensina a buscar nossas conquistas. Mas quem nunca desejou, em algum momento, ser conquistado? Quem nunca desejou ter alguém pra confiar afetos fixos, que por ingenuidade, acreditamos ser definitivos?

Felicidade

O que é a felicidade se não a abstração de todos os nossos desejos narcísicos reunidos no que acreditamos ser um estado de espírito?
''Felicidade não existe. '' - Disse a professora logo após uma breve apresentação do conteúdo programático. ''E por que não existe? ''- Perguntei.
''Porque não apresenta manifestação fisiológica.''
Comecei então a refletir sobre os sintomas que as emoções em geral provocam em mim. Finalmente, então, descobri porque tantos dizem que alegria é diferente de felicidade. Sim, é diferente. É diferente porque de fato felicidade não existe.
Ainda sobre este mesmo tema, comecei a refletir que existem mais nomes para emoções negativas do que para as positivas, além de melhores e mais abrangentes definições. Se estou triste, ansiosa, com medo, angustiada, sinto dores no peito, choro, tremo. Se estou alegre, apenas sorrio.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

Me desculpe, estou muito atrasada. Sei que já não dá mais tempo de dizer que andei errada e eu entendo.

domingo, 27 de janeiro de 2013

Em terceira pessoa, pra abster-me de falar de mim

Bate forte em seu córtex frontal, pressiona suas têmporas, range os dentes e estala os dedos. Não é capaz de sequer esboçar um sorriso porque sabe o quanto sua felicidade anda frágil ultimamente.
Em seu futuro, vê sucesso. Sabe exatamente onde colocar cada tostão que está por vir, mas sabe também que o essencial não se compra.
Embora tenha aprendido a apreciar a lua, não quer fazê-lo sozinha. Embora acredite amar alguém, não é capaz de escrever qualquer palavra a respeito disso.
Aponta o dedo à face alheia. Implora pra que não tenham medo, mas sabe que no fundo só sabe temer.
Aprendeu que quanto mais se conhece, mais é necessário regredir no tempo. Que quanto mais profunda é uma questão, também mais antiga ela é. Quantos e quantos traumas engastados na alma ainda serão descobertos?
Passou toda a vida acreditando que a felicidade chegaria em forma de olhos brilhantes e cabelos bonitos. Que qualquer afago serviria de consolo. Que qualquer ombro seria suficientemente confortável. Esqueceu-se que não pode dar a outro o que é de sua exclusiva responsabilidade.
Já não é mais novidade que terá que construir consigo própria seus objetivos. Que terá que conseguir preencher sozinha seus vazios.
Está aflita. Se sente velha. É sozinha. Mas não está certa de que quer ser sozinha. Talvez queira ser pega pelo braço, talvez queira sim ser companhia.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Tudo é tudo e tudo é nada

Embora relativamente confuso, verdadeiramente difuso, esse arsenal de boas recordações é o bem mais valioso que carrego hoje.
O futuro nunca pareceu tão incerto. Incerto como uma melodia que destoa, tensiona os ouvidos sem pretender qualquer alívio, sem prometer nenhuma resposta.
E é destes acordes dissonantes que componho uma música ilógica que retumba nas paredes escorregadias dessa minha alma carente de tudo.
E essa composição aniquila todas as certezas que a cada dia se tornam mais descartáveis, considerando minha busca por aquilo que todos clamam: uma tal de felicidade.
Desse poucos segundos de inspiração pueril e covarde, desfruto quase nada. Desperdiçando a escassa criatividade procurando dar sentido às palavras.
Desses rabiscos, dessas questões, dessa inquietude, só quero ainda mais. Porque aprendi que em paz não se cria nada. Descobri que é no caos que se faz necessária a dúvida e quem sabe até a esperança.
Quando confortavelmente inerte, não existe anseio. Portanto, quero mais é que o mundo gire rápido. Quero mais é que o caos transborde para fora do meu controle. Quero mais é que a vida se faça como bem tiver que se fazer.
Porque o meu bem eu encontrei num estado chamado instabilidade.