sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Mon Sauveur

A noite caía, as ruas estavam desertas. A pequena cidade não era mais a mesma. Os rostos eram tão hostis e as pessoas por trás destes me eram incógnitas.
Cabelos coloridos esvoaçantes me causavam repugnância. Uma escolha mal pensada me torturava, me arrebatava por completo em culpa e desespero.
Não reconhecia os sorrisos de outrora, não encontrava os lençóis compartilhados, não encontrava qualquer abrigo. Estivera fora por muito tempo. A brisa litorânea soprava agressiva, a maresia grudava na pele e as unhas do arrependimento cravavam-se em minhas têmporas. Como queria correr dali. Me envergonhava minha própria presença na amaldiçoada orla da lagoa. Nos olhos que me julgavam, eu tentava encontrar minha dignidade perdida. Em vão.
O telefone não sossegava em meu bolso e eu sabia que era você quem me ligava. Relutava em atendê-lo. De que valeria? Estava arrasada, assolada na maior e mais profunda humilhação de todos os tempos. Na verdade, acho que não queria deixá-lo me ver em tão deplorável circunstância.
E enquanto eu me alimentava da areia imunda e de desilusão, você apareceu. E ainda à distância, reconheci no seu sorriso a minha salvação. Você despontou embalado pelas lembranças nossas e tão somente nossas, que capazes de me arrancar o riso em meio ao pânico e a solidão. Solidão da pior estirpe; daquelas que se sente mesmo quando entre outros cem.
E então eu logo compreendi que achara meu lar em alguém. Embora já suspeitasse antes, a confirmação eu tive no aconchego do seu abraço.

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