sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A rua é democrática

A hora se arrastava, não havia mais absolutamente nada a se fazer e nem qualquer companhia pra curar o ócio tedioso e improdutivo.
Nos bolsos, carregava uma única nota de cinco reais, já reservada à pagar a condução de volta pra casa. E ainda que no lugar da nota de cinco houvesse uma de cinquenta, não gastaria dela sequer um centavo, pois estava completamente capturada pela consciência adquirida ao longo dos anos e que fora reafirmada ao assistir Surplus e outras coisas do gênero. Estava preocupada com a preservação dos valores essenciais da vida e simplesmente não podia corroborar com nada que fosse contrário à minha nova forma de enxergar o mundo.
Caminhando pelas ruas, me perdi na bagunça do centro, típica de finais de ano. Que bagunça agradável! Que bagunça bonita de se ver...
Numa esquina, uma fábrica à céu aberto de quadros pintados com spray, funcionando diante dos olhos de quem passasse e quisesse ver.
Alguns metros adiante, caricaturistas, poetas, representantes do movimento hare krishna, gente de terno e gravata, mulheres de salto alto, crianças e famílias transitavam frenéticos, eufóricos. Hesitavam seguir seus respectivos rumos ao passar pela calçada aglomerada, de onde ecoava Starway to Heaven, do Led Zeppelin. A música era tocada por um rapaz corajoso que vestia flanela xadrez. Não corajoso apenas por se apresentar em público num espaço comum à toda gente, mas por expor a si e seus equipamentos aos possíveis olhares invasivos, aos olhos que julgam e também aos que cobiçam. Mas a verdade é que não havia má fé da parte de seus expectadores, tampouco dele próprio que cumpria o papel de entreter e fazer sorrir o paulistano sofrido. E seu público, certamente, era o mais variado que eu já tinha conhecido. Ao seu lado, dançava uma criança de menos de quatro anos de idade, pareada a um homem grisalho, trajando trapos encardidos, que fazia caretas e outras bizarrices. Um homem cujo a maioria se recusaria estar ao lado. Dançava também com eles, uma senhora descalça, desdentada e sorridente.
Pensei comigo, então: Qual outro cenário é capaz de expressar tão genuína liberdade quanto esse? O que há de mais democrático nessa cidade que as próprias ruas? A rua por si só é democrática. Quem, se não ela, abriga tamanha diversidade? E em qual outra parte cabe tanta gente? E não é preciso de mais do que boa arte - e atente que com "boa" quero dizer bem intencionada e não necessariamente erudita- pra ressuscitar o lado humano até daqueles que sequer lembravam que estavam vivos. Que até se esqueceram que existiam.

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