Naquela época, a garotada corria por toda a parte. Era assim. Nós cuidávamos o mais rápido possível do serviço da casa que era pra poder jogar bola e pular corda na rua. E a criançada inventava brinquedo, inventava brincadeira... A vida não era fácil como hoje não, hoje vocês tem tudo pronto e tem de tudo.
Mas eu era feliz, viu. Ah! Que sorriso amarelo o que?! Não me arrependo de nada não! Se bem que casar eu não queria.
Mas sabe como é, né minha filha? Tinha de ser assim. Deus quis assim.
Se eu acredito em Deus?! Mas que pergunta! Veja que tenho quase um século de vida e já vivi muito pra poder te garantir que não cai uma única folha de uma árvore se não for da vontade divina! É que você é muito jovenzinha... Vestida nesse avental branco, ainda se ilude com esse negócio de ciência. Eu também já fui assim.
Onde estava mesmo? Ah sim. Casar eu não queria. Quando era rapariga, tal como você, queria só saber de estudar. Eu teria dado boa professora, sabe? Mas o danado do Euzébio cismou com a minha cara. Pelo menos eu prefiro acreditar ainda, depois de mais de ciquenta anos, que foi pelo meu rosto que ele se apaixonou. Ele era bom homem, ia me buscar todos os dias na época do ginásio. Mas aí ele me fez crer que esposa dele não tinha necessidade de trabalhar fora e que se com ele eu me casasse, não tinha porque continuar frequentando a escola. Devia ser ciúmes que, sabe menina, eu to velha agora, mas eu era muito bonitinha quando tinha a sua idade.
Mas não me arrependo de nada não! Esteja certa de que não me arrependo. Criei três filhos, sabe? Três homens honrados, dignos e muito esbeltos. E hoje em dia vocês querem ensinar como que se cuida de criança, dizem que não se pode dar palmada e é por isso que o mundo tá nesse pé. Por isso que hoje filho não respeita mais os pais. Eu eduquei os meus filhos de acordo com a moral e os bons costumes que hoje já nem se escuta mais falar. Por isso que não gosto de televisão. Olha quanta pouca vergonha que passam na televisão, que antigamente, a gente até ouvia dizer que era coisa do diabo. Deus nos livre! Será que você pode abaixar um pouquinho o volume? Nunca vi tanto barulho em enfermaria de hospital.
Os meus filhos não vêm me ver porque... Ora, como por que? Eles não podem se ocupar com sua velha mãe uma vez que já se despendem às próprias famílias e aos próprios negócios. Mas não me sinto infeliz, não me sinto sozinha não. Estou te dizendo, minha filha! Tenho quase um século de vida. Solidão já não me aflige, que eu vivi tanta coisa...E olha que não me arrependo de nada!
Mas menina, faz um favor? Larga de tomar nota de tudo que eu falo e me segura um pouco a mão.
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