sábado, 22 de junho de 2013

Um dilema sem dialética

Havia algum tempo que ela adotara uma maneira mais fácil e menos narcísica de falar sobre si.
Era usando um discurso em terceira pessoa, que seus sentimentos se esvaíam, em detalhes, pelo mundo.
Não é incomum confeccionar um objeto romântico, ideal e perfeito para constituir uma bela prosa. Mas no caso dela a fixação por seu objeto transcendia as intenções literárias.
Era sob o viés do amor que ela escrevia já há meses. Sendo ele maior ou menor motivo. Sendo oculto ou sendo explícito. Ele estava sempre presente. O amor insistente, incansável, que com o tempo foi forçado a se transformar num amor mais altruísta, desesperançoso. Mas ainda era o mesmo amor. Com o mesmo vigor que tivera em seu apogeu.
E ela sabia que a fonte nutritiva para tudo em sua vida tinha sua nascente ali. Mas se ramificava através de inúmeras justificativas e desculpas disfarçadas em novos objetivos.
Não era por menos que suas noites eram regadas por lágrimas e insônia e era tudo tão doloroso que só podia ser percebido por sentidos sensíveis ao silêncio. Mas para seu azar, ninguém conseguia percebê-la ali calada e trancada em seu sofrimento.
As razões para escrever estavam diminuindo. Na verdade, havia muito para ser escrito ainda, mas onde estavam seus leitores?Pior do que não receber a única atenção que esperava era notar que haviam muitas outras disputando a mesma fonte de inspiração.
Achava injusto. Não admitia que desconhecidas se apossassem de sua história e a apagassem lentamente pelo esquecimento.
Ao mesmo tempo, quando tomada pela lógica, sentia-se egoísta e infantil pois no fundo sabia que era muito complicado tecer com as próprias mãos a felicidade do outro. Mas acima de todas as coisas era essa felicidade que mais importava. O outro merecia, mais do que ninguém, sorrir em paz.
Era afogada nesse dilema que ela vivia há semanas. Queria ver o rosto alegre do outro, mas insistia em tomá-lo para si. E sabia que se o tomasse, provavelmente o extinguiria. Seja por incapacidade, pela distância, pelas circunstâncias...
Talvez apenas o outro conseguisse entender essa dualidade, essas nuances sentimentais extremamente complexas. Ou talvez ele estivesse desinteressado, cuidando a seu modo de superar suas mazelas e alcançar sua merecida felicidade. Na verdade, é impossível supor seu posicionamento nessa história, pois sabia disfarçar tudo muito bem. Seja lá o que fosse, apenas escondia.
E ela, já tão desconfiada de tudo e todos ficava a mercê de seu humor. Quando bem humorada, era otimista, compreensiva e corajosa. Com o humor abalado, cogitava-o como mentiroso, insensível, enganador. E quando finalmente tentava uma dialética, perdia-se ainda mais e então chorava.
Embutidos no medo de perdê-lo estavam também o medo da solidão e do fracasso. Ora acreditava em destino, ora acreditava que eram os resquícios de sua adolescência esperando para serem resolvidos.
Mesmo com uma sensação estranha de que estava gastando a última centelha de sua história de amor, ainda tentava juntar os quadros chamuscados para formar um novo filme.
Pois afinal, quem pode saber se a teoria sore o destino não é mesmo a correta?

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