sexta-feira, 7 de junho de 2013

Delírios de grandeza e saudade

Entrei naquele carro que você nunca comprou e nós viajamos para aquela praia que você sempre quis conhecer.
Escutamos as músicas que não cheguei a te apresentar e você, como sempre, me disse que agora prefere MPB.
Divagamos sobre política, educação, sobre nossas atuais boas vidas. Eu sobre aquele mestrado que ainda não conquistei e você sobre aqueles números extensos que nunca residiram sua conta bancária. Sempre tão ambiciosa, sempre tão cheia de poder.
E nós comemos um jantar refinadíssimo, pois era seu desejo.
Finalmente, quando acabou o passeio, peguei suas mãos já calosas em função da idade que você nunca atingiu e pintei suas unhas com aquele esmalte cor de goiaba que você tanto adora.
E você sorriu, exibindo as facetas em porcelana que nunca chegou a implantar nos dentes. Mas isso, claro, sem abrir mão de seu tão antigo hábito de acender seu Marlboro vermelho a todo instante. Triste vício, porém intransferivelmente seu.
Mas triste mesmo foi o momento em que despertei. Não de um sonho, como se poderia pensar, mas de um devaneio, de um quase-delírio.
Acordei num ponto de ônibus qualquer, numa sexta-feira qualquer. E como já não fosse suficientemente doloroso constatar a ausência de nossos sonhos, lembrei-me que sequer te tenho aqui comigo. Nem mesmo sua face rugosa eu tive a chance de conhecer.
No caminho para casa, passando pela avenida, desconhecidos me acenavam confundindo-me com você. Curioso pois em razão de sua fama, é de se estranhar que desconheçam sobre sua partida.
Embora seja compreensível associarem-me a seus traços e suas madeixas rubras tais quais as minhas.
Por fim, acabei entrando no ônibus velho e sujo. Acompanhada apenas de saudades e de um amor por você que jamais acabará. Sem seu abraço, sem ouvir sua voz esbravejando com cobradores e motoristas, sem debochar alegremente de seus peculiares costumes, sem comer seu feijão aguado, sem enlouquecer ao te ver com minha calça jeans recém comprada e sem sentir seu doce perfume de óleo de andiroba.
Enfim, vida e morte seguiram seu caminho e eu fiquei aqui sozinha.

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