domingo, 23 de junho de 2013

Prodígio

Dentre todas as coisas que compunham seu visual anedótico, meio Starbucks na hora do almoço misturado com Augusta de sexta-feira a noite, era o seu sorriso que mais chamava atenção.
Claro que não era tão perceptível, escondido atrás da barba e dos óculos de armação larga. Sorriso maduro de aspecto pueril.
Embora aparentasse inocência, escondia a sabedoria de mais de cem anos. Não sei dizer se vinha dos livros, dos antepassados ou de outras vidas. Só sei que um rapaz tão jovem e tão pouco vivido certamente guardava alguma receita secreta sobre inteligência.
E sua sagacidade era tão vistosa que formava de dentro pra fora uma potente camada de valência, capaz de atrair incontáveis pessoas. Em outras palavras, era através de sua beleza interna que conquistava prontamente quem conhecia. Não que fosse feio por fora. Mas os apetrechos xadrezes e seu chapéu escondiam um pouco de seu brilho.
Não era incomum que tivesse crises ou sofresse sem motivos óbvios. Pessoas geniais sofrem desse mal. E embora brincasse de Narciso, era muito menos orgulhoso de si do que poderia ser, afinal, sua auto-estima era suficientemente baixa para cegá-lo.
Das palavras fazia legítimas obras de arte. E era modesto. Tanto que se dispunha a ler os rascunhos miseráveis alheios com dedicação e afinco.
Esse rapaz prodígio passou por mim como um vetor desvairado, deixando apenas boas lembranças, algumas fotografias e meu olhar perdido em admiração.
Sua passagem foi breve. Seu legado, imensurável.
Hoje, quando o avisto de longe, me felicito em vê-lo sorrindo sem artifícios, com menos disfarces. É bom constatar o fortalecimento de seu ego e a preservação de sua essência. Pois continua o mesmo bobo de discurso tristonho sempre bem disposto.
Ele inclusive me acena, embora não me tenha deixado uma porta aberta, apenas as vidraças de algumas janelas distantes, para que eu pudesse gritá-lo quando estivesse em apuros. Muito justo, afinal já havia dado de cara com minha porta fechada, trancafiada a sete chaves.
E no meu íntimo, me arrependo por tê-lo deixado ir embora tão depressa. Apesar de que prendê-lo, seria nada menos do que egoísmo da minha parte.

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