Com sua roupa sintética e brilhante, ergue-se do marasmo do subúrbio em busca da livre exerção de sua identidade.
É dia de ir pro centro.
É dia de ver luzes piscando rápido, de sentir a vibração do som que toca alto em seus ouvidos.
Ouvidos entorpecidos pelo êxtase de suas músicas favoritas, livres dos ruídos e da cidade hostil.
Sobe e desce a rua Augusta, procurando uma cura para seu enfado.
Deixa seu salário de estagiário nos botecos, bebendo drinques baratos.
Os faróis dos carros pintam um quadro abstrato do seu conturbado dia-a-dia. Remetem ao caos e descontentamento, às idas e vindas, ao alarme do despertador, aos poemas lidos entre uma e outra parada do metrô.
É tudo sempre fatidicamente tão igual.
Sua semana transcende o calendário para o mundo real utilizando-se das mesmas formas e intenção. O cinza que delineia os dias úteis, estampa-se na frieza da rotina dos prédios sem vida. Assim como o vermelho-sangue dos finais de semana colore a cachaça salpicada de groselha, tornando sua existência colorida somente naqueles dois dias.
Em frente a estação Consolação, encontra sempre as mesmas caras pálidas, o mesmo cheiro de cigarro, o mesmo cenário produzido intencionalmente, composto de pessoas de hoje vestindo os casacos de seus antepassados. Pessoas preservando o charme e glamour de outrora, porém, sem abrir mão da desdourada e promíscua modernidade.
Em seu chapéu, a notável tentativa de reconstituir o passado ao qual sequer pertenceu.
Olha sua imagem refletida no vidro fumê, a exteriorização de sua ideologia démodé.
Uma foto perfeita pra um retrato futurista confeccionado há décadas atrás.
No rosto, um sorriso tímido e fugaz.
A fronte franzida de confiança e obstinação.
Na alma, o prazer pela satisfação do fetiche da autenticidade.
Nas entranhas do inconsciente, o desgosto de ser um exímio enganador de si mesmo.
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