sexta-feira, 6 de setembro de 2013

Como um homem qualquer

Aos tropeços, ele perambulava pelas ruas mais sinistras de São Paulo.
Sempre solitário, salvo a companhia de seu cão sujo e sarnento tal qual o dono.
As mãos sempre encardidas. A roupa sempre fétida.
Não tinha certeza sobre a procedência de seu nome, mas era José. Zé...Zé ninguém.
Ao contrário do que se poderia esperar, ele não recebia maus olhares. Na verdade, não recebia olhar algum.
Vez ou outra, sua presença incitava a fuga dos passantes.
Não entendia. Sentia-se inofensivo e indefeso, embora tivesse consciência plena de seu desajustamento.
Não raro, sentia medo. Conhecia histórias pavorosas sobre atrocidades que se cometia com gente como ele. Além do mais, perdia comparsas para o frio, para a inanição e para a violência. Sofria as perdas e não tinha a quem chorá-las.
Por essa razão, optou limitar-se à relação com seu peludo pulguento. O cachorro era o único a quem ele podia garantir o cuidado e a integridade. Exceto se tivesse grande má sorte a ponto de perdê-lo também.
Numa noite gélida, peregrinava sem rumo por um bairro central. Não tremia. O álcool aquecia seu corpo e a embriagues acalentava o trapo que possuía no lugar do coração.
Num quarteirão escuro, vasculhava lixeiras a procura de alguma coisa que, embora descartada por outrem, lhe pudesse ser de utilidade.
Avistou um homem, cujo a cabeça já era quase toda tomada por fios brancos. Arriscou-se. Pediu alguma esmola. Mas o velho, franzindo a testa, sequer deu-lhe ouvidos. Seguiu a passos acelerados, como se nada tivesse ocorrido.
O miserável questionou-se sobre sua própria existência. Podia já ter morrido de hipotermia sem ter se dado conta, vai saber.
Resmungou para o cachorro e este abanou o rabo em gesto fraterno.
Mais adiante, numa parada de ônibus, viu entre sombras a figura de uma moça. Uma garota jovem, de mochila nas costas a denunciá-la estudante.
Muito antes dele perceber, ela já o observava ao longe, rodopiando, tropicando e quase caindo.
Ao perceber sua notoriedade para a jovem, entrou em estado quase catatônico. Prostrou-se bem no meio da calçada e a encarou desconfiado.
Ela, compadecida de seu estado, apenas abaixou a cabeça demonstrando respeito.
Cambaleante, ele arrastou-se até uma árvore enraizada no concreto do passeio. O cachorro, sempre aqui e ali a fuçar os postes e arbustos.
Do alto da copa o homem colheu uma flor. E do mais alto ápice de audácia, emergiu o impulso de oferecê-la a menina.
Já no instante seguinte, arrependeu-se supondo e imaginando a já quase palpável realidade amarga: A repugnância estampada no rosto da estudante.
Mas para sua surpresa, ela sorriu prontamente, estendendo os dedos delicados para apanhar sua oferta.
O pobre homem encheu-se de ternura e quase chorou. Ele existia, afinal. Com os olhos marejados, sorriu exibindo a gengiva já quase toda banguela, com exceção de um ou outro dente já putrefato.
Saiu apressado. Não queria tomar mais tempo de sua mais nova amiga, a quem ele provavelmente jamais veria outra vez.
Passados alguns metros, desafiou-se a cantarolar uma canção, tamanha era a alegria. De sua música, quase nada se entendia. O cão, seguia chacoalhando-se e latindo ao vê-lo tão contente.
O mendigo compreendia que o ato da jovem era de compaixão. Mas nem por isso desmerecia sua legitimidade. Ora, claro que ele não conquistaria a admiração e tampouco o amor de alguém em tais condições. Porém, pelo menos por alguns poucos segundos, alguém pôde proporcioná-lo, ou quem sabe, devolvê-lo o direito de ser como um homem qualquer.

Nenhum comentário:

Postar um comentário