De volta à janela, debruçado sobre o parapeito coberto de cinzas, ousou uma forçosa epifania.
Ah, a janela do quarto. Lugar tão conhecido, tão gasto e ainda assim, sempre bem-vindo. A paisagem imutável, os ruídos das casas em volta e o oblíquo desejo de encontrar respostas que nenhum outro espaço no mundo elucidaria.
A janela propriamente representava pouco. Mas o simbolismo que carregava intrínseco a si era irrevogável.
Pensou há quanto já estaria morto, não fosse seu otimismo que, embora abalável, nunca se dava por vencido. Otimismo atrelado ao nada.
Não era um homem de fé. Não cria. Nem em deus, nem forças do universo, nem em si talvez. Procurava um lugar confortável, onde houvesse paz e alguma convicção. Mas a paz no mundo moderno é objeto místico, desconhecido.
Percebeu a inconsistência de suas expectativas. Almejava protagonizar a vida sem ter que escrever sua história com as próprias mãos. Dava a algum autor desconhecido à responsabilidade de suas ações. Como pode um incrédulo esperar que uma força maior domine seu dia a dia? Não era como um cristão, que sustenta a certeza de que o Deus onipotente é quem discorre as linhas do destino. O que esperar então?
Em desespero, com seus rasos recursos mundanos, pedia:
"Que a fumaça leve consigo toda a saudade, incluindo aquela dos momentos que nem nunca se fizeram e das pessoas que jamais chegaram.
Que cada estrela no céu cinza opaco trate de guardar, no distante intangível, as angústias que se ocupam em flagelar o ego franzino e doente.
Que os drinques gelados curem a infecção nas feridas de toda alma carente.
Que as luzes da cidade iludam por algum instante qualquer coração solitário que insista crer na capacidade humana de amar ao próximo como a si mesmo sob todas as circunstâncias.
Que a ciência descubra o princípio ativo que livre todo ser humano de seus constantes tormentos ontológicos. E que se cure com ele toda deficiência social, pra que então se prive qualquer homem do encargo da práxis contínua.
Que a morte seja sempre indolor, pra quem vai e pra quem fica.
Que a inspiração não se esvaia antes que se pontue a primeira linha.
Que os próximos romances desabrochem fecundos.
E que os cigarros não acabem antes que o café esfrie.
Amém."
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