Desavisada das infinitas consequências, fitou certa familiaridade naqueles olhos opacos. Não sabia bem onde os tinha visto antes, mas habitava-lhe a certeza de que cedo ou tarde, aconteceria alguma coisa errada.
Certo seria o que afinal? Fingir que na sombra petulante daquele olhar não havia nada?
E como incomodava ser todos os dias premiada com algumas verdades ásperas e atrevidas daquele insolente ser.
No fundo sabia que ali havia muito medo. Sabia que lhe faltava compreensão e cuidado. Coisa que não cabia a ela consertar.
E era fato que ele precisava desarmar-se de suas rochosas convicções. Se exprimisse sua fragilidade, ela poderia ser sua mentora num universo repleto de oportunidades.
E bem que ela espreitava uma vau para conduzi-lo até seu mundo. Aquele que acreditava ser o único bom de verdade.
Confiava que podia protegê-lo dos eventuais males que o acometessem. Ela poderia supri-lo. Não em tudo, mas naquilo que mais lhe faltasse.
É que a perturbava a ideia de não retribuir àquela mão solidária que recebera dele próprio outrora. Pois embora ele soubesse disfarçar bem, era impossível esconder o tamanho de seu coração.
E ela inquietava-se com os mistérios de uma alma já trancafiada, porém pulsando para esvair-se por entre as brechas do acaso.
Se pudesse, pediria pra que ele se detivesse em deitar nos seus braços e se preocupasse apenas com os próprios machucados. Aqueles esquecidos, que ninguém nunca percebeu ou quis tratar.
Mas ainda que estivesse sempre lá, sempre presente, sempre bem disposta, presumia não haver muito espaço para ela dentro daquela cabecinha repleta de velhas opiniões formadas sobre tudo. Já que ela era, assumidamente, uma metamorfose ambulante.
Independentemente do que diziam as más línguas, ela tinha uma certeza: Ali com ele, sem importar a circunstância, ela era capaz de sentir. E era um novo sentir, pois já estava farta das nostálgicas sinfonias que insistiam em ressoar em seus ouvidos mnemônicos.
Importante mesmo, era que seu corpo estremecia ao contato com o dele. E o dele, mesmo que relutante, agradecia.
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