terça-feira, 23 de julho de 2013

Que tal mais um café?

Pulando os ladrilhos que calçavam a praça, ela caminhava cantarolando uma canção. Mas em silêncio. Mentalmente.
A música parecia ecoar de algum ponto visceral. Pois era como se, afinado a melodia, todo seu corpo vibrasse.
Já não mais havia sinais da tempestade impiedosa que varrera a cidade. Salvo um arco-íris estampado no céu e a relva que ainda estava molhada.
O dia era tão lindo. Parecia uma composição de cinema para uma cena de recomeço. E sentia-se uma tensão nos ares, digna de fazer crer que aquela era a deixa para o clímax do enredo.
Repetia os versos da canção como se fossem seus, tamanha era a harmonia entre si e a criação do autor.
"Entra pra ver, mas tira o sapato pra entrar,
que eu mudei de lugar, algumas certezas... "
Tinha ainda algum tempo livre pra desperdiçar com suas próprias bobagens e por essa razão, caminhava despreocupada.
No caminho, via nos sorrisos dos passantes o que já não via em si própria há muito tempo: Esperança.
Que belos eram os sorrisos. Onde se escondiam?
E foi distraída em sua viagem pelas estrofes e acordes de Cícero que chegou por acaso onde, mais tarde, entenderia que era seu destino: A cafeteria.
Sequer apreciava café. Optava, como para todas as coisas, por escolhas alternativas.
No balcão, pediu capuccino. Pediu pra que caprichassem na canela. E, voltando-se para dentro de si, pediu paz.
As mesas estavam quase todas cheias, enquanto que ali nela, não havia ninguém. Não sabia se mais perturbava um coração roubado ou um coração vazio. Mas não queria pensar nisso agora. Só queria paz e canela.
Mas no meio de tantos vultos, tantos rostos sem face, havia um especial. Um com o olhar ávido, atrás de lentes. Nas mãos, segurava um livro extenso, de alguma série de fantasia.
Certamente não era adolescente, mas exprimia um ar bem humorado e, indiscutivelmente, jovial.
Lia, mas a leitura não o entretinha. O café já estava frio. A conta já estava paga. Restava sair e, quem sabe, aproveitar o final do almoço pra adiantar algum trabalho.
Mas o destino, que nunca vacila, cruzou seu olhar com o dela. Ela que estava lá, agitada, pensando "no tempo que levou pra arrumar aquela gaveta". Ela que olhava as horas, que se dispersava, que lia alguma manchete aleatória no jornal.
Ela que quando o viu passar todo atrapalhado pelos corredores estreitos formados por mesas e cadeiras, sorriu subitamente.
E ele, timidamente, sorriu de volta. Mas com a alma. E como quem não quer nada, cochichou: "Que tal mais um café?"




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