Estava mais do que certa sobre ele ser louco por ela. Por que haveria de dar tantos sinais caso fosse mentira?
Mas claro que ele jamais admitiria às claras, ela pensava. Tamanha era sua importância, vistosa era sua carreira. Um acadêmico cheio de estofo, de fala prolixa, de conhecimento exímio, digno de seu título. Doutor. Ah, doutor!
Já ela era apenas uma aluna que acabara de iniciar sua jornada em busca do primeiro canudo. Mas dormia todas as noites com a certeza de que era consigo que o professor de neurofisiologia estava prestes a se casar.
Durante as aulas, ele fixava o olhar em seu rosto. Era como se quisesse dar a ela uma aula particular. Tão dispensáveis eram os outros jovens, a sala de aula, a universidade e o seu emprego. Importante mesmo era ela. A atenção dela, a ternura com a qual prestava atenção em cada uma de suas palavras.
E ela, muito dedicada e compreensiva, sempre o perdoava por não responder seus recados. Sabia que ele padecia de vontade de escrever dezenas de cartas, entregar incontáveis presentes e até quem sabe cantar, ao pé de seu ouvido, sua canção preferida. Mas não podia! E indubitavelmente sofria por essa razão.
Não conversava com quase ninguém a respeito de seu romance. A quem tentou confessar, não creu. Para ela, isto significava inveja. Lógico que não creriam! Não havia qualquer outra no campus que não amaria trocar de lugar com ela.
E assim ia levando os dias. Tecendo minuciosamente cada detalhe de seu futuro com seu amado professor.
E ele? Bem, ele gostava dela. Considerava-a excelente aluna. Não lembrava ao certo qual era seu nome, já que não era dos mais comuns. Além do mais, era demasiadamente ocupado para conseguir memorizar os nomes de tantos alunos. Ministrava suas aulas durante o dia e também a noite. Participava de inúmeras bancas, orientava muitas pesquisas. As vezes, encontrava-se sem tempo até mesmo para apreciar a companhia da esposa e dos filhos. Mas era feliz. Incontestavelmente feliz.
Vez ou outra, ficava um pouco assustado com a desmedida dedicação da menina, pois esta escrevia extensos artigos sobre anatomia cerebral, desenhava complexos esquemas do sistema nervoso e sabia mais do que qualquer outro aluno sobre neurônios e sinapses. Além de contemplar o hábito demodé de presenteá-lo com maçãs quase todos os dias.
Mas, de forma bastante generalista, ficava orgulhoso quando percebia a admiração saltar dos rostos de seus alunos. Embora o que mais contasse era a satisfação em poder deixar para o mundo o seu legado.
O que ele não sabia é que no caso dela, não se tratava de admiração. Era amor, era paixão, era erotomania.
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