De volta à janela, debruçada sobre o parapeito empoeirado, procurou verdades ocultas sob a promessa de salvar o Planeta. Quanto maior a causa, menor a frustração, já dizia - em outras palavras - o sábio poeta da periferia.
Ah, a janela do quarto! Lugar tão conhecido, gasto, ordinário e ainda assim sempre querido.
A paisagem imutável, os ruídos das casas em volta e o ardente desejo de patentear uma fórmula eficaz pra curar o mundo da distopia que se revela diante dos olhos dos menos insensíveis.
Pensou há quanto já estaria morta, não fosse seu otimismo que, embora abalável, nunca se dava por vencido. Otimismo atado a convencimentos decadentes, entusiasmo, energia e talvez alguma soberba. Sim,
soberba. Só a presunção da juventude é capaz de propulsionar os motores ideológicos já tão enferrujados pela contemporaneidade.
Tão mais fácil seria protagonizar a vida sem ter que fazer da História a sua história. Tão mais fácil seria ignorar tudo que fugisse à ordem do indivíduo. Se Drummond se envergonhava do operário, ela então temia ter algum de seus devaneios capturado por quem compõe a realidade que é crua e é fria e é sórdida. Ter revelados os discursos incongruentes, ter açoitadas as crenças, ter lançadas as cobranças à face e as contas... As
contas. Todos nós somos credores de coerência, explicação e ação.
De súbito, flagrou-se a si rogando, não se sabe a quem, a seguinte prece:
"Que cada estrela no céu cinza opaco trate de guardar, no distante intangível, as angústias que se ocupam em flagelar cada ego franzino e doente.
Que estejam sob proteção os marginais ultrajantes de quem todo mundo se esqueceu.
Que se aqueça todo coração errante que, pelas calçadas inglórias do destino mal traçado, vão ofegantes.
Que as luzes da cidade iludam por algum instante toda alma perdida e solitária que insista crer na bondade de quem lhes quer longe.
Que se livre a humanidade de suas problemáticas ontológicas com alguns miligramas de fluoxetina. Que se conserte, espontaneamente, toda deformidade social, pra que então nos privem o ofício da práxis contínua.
Que a morte seja sempre indolor, pra quem vai e sobretudo pra quem fica.
Que a inspiração não se esvaia antes que se pontue a primeira linha.
Que a pós-modernidade, líquida e etérea perdoe a miséria dessas rimas
Amém."