quinta-feira, 30 de julho de 2015

Sobre quartos, luas e janelas

Independente da mutabilidade das coisas, algumas constantes transcendem qualquer espaço temporal.
Os conteúdos se transformam, mas a forma insiste em não ter nenhuma forma.
As paredes com suas visíveis rachaduras ainda carregam a mesma tinta, exceto por alguns rabiscos escritos com caneta hidrográfica.
A janela ainda é a mesma. Os telhados, cobertos de fuligem, continuam escondendo verdades que alguma inspiração súbita poderá revelar.
A Lua cintila no breu avermelhado e com o seu brilho impar, ela se impõe cheia e altiva, reivindicando o trono dos céus. Hoje ela é rainha, mas nas noites tristes e apagadas é ela, a mesma Lua, quem se recolhe tímida e apavorada pelos olhares da Terra.
Os anos passam, as horas escorrem pelos limites dos ponteiros e eu não mudo, embora já tenha sido tantas nesse tempo.
Desajeitada e oscilante uma ideia chega de mansinho. Não é segura o bastante, mas precisa se materializar, criar asas e voar pelo mundo. Se ela entrou pela janela, por que eu deveria mantê-la presa dentro do quarto, guardada nos cadernos?
A alguns metros, há uma outra janela. Dentre tantas, ela nunca foi notada. Nela está contida uma silhueta. Me pergunto quantas pessoas além de mim contemplam o luar estonteante estampado na vulgaridade de uma noite como outra qualquer. 
Me flagro questionando se pela outra janela também entram ideias e na forma como elas são acolhidas. O dono da silhueta, será ele um bom anfitrião? Permitirá que elas se espraiem ou as tomará do mundo somente para si?
Quantos outros além de mim tem como essência não ter essência alguma?
Serão outros quartos, outras janelas, outras luas e outras ideias mentoras de outras teses particulares e intransferíveis como a minha?
Prefiro crer que sim, pois se assim o creio, não exploro solitária as encruzilhadas da vida. E as teses particulares já não são tão intrasferíveis assim. E todos os quartos e janelas, luas e ideias poderão ser representadas aqui, em comunhão semântica.
Porque sabem, por mais que tudo mude, mudar é algo que não mudará jamais.  

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