quarta-feira, 30 de maio de 2012

Inveja

Pessoas transitam pela sala decorada com abajures à meia luz. Todos empenhados em satisfazer as exigências da ocasião.
Confraternização entre família e amigos. Todos entusiasmados em contemplar o novo ano e abraçar, mesmo que com falsidade, o maior número de pessoas possível.
E aquele casalzinho adolescente, ah, que horror. Simplesmente nem se levantam do sofá.
Não há quem  não os olhe torto na festa. Todos comem, bebem, fingem se divertir.
Os avós abominam o namoro pecaminoso deles dois. No tempo deles não era assim.
Os pais desprezam, são vaidosos. Seus esforços em manter as aparências os toma tempo demais.
Os convidados agradecem por  pelo menos tê-los como assunto que os ocupe e mantenha longe da comida; pelo menos pra disfarçar por alguns minutos.
Que casal abrutalhado, indecente, que romance inadequado. 
E ela, elegante, sem precisar estar vestida de gala, nem pra exibir o manequim tem coragem de abandonar o namorado. Ela se arrumou para ele. De toda essa exuberância, dessa farta refeição e bebidas refinadas, ele ainda é seu mais saboroso prato.
Alguns contam suas conquistas em alto e bom som. Pra que serve ser bem sucedido se não para ser enaltecido entre os ''amigos''?
O carro do ano, a  matricula do filho na melhor escola da região, a conquista de um título político na cidade...
Trajados à rigor, todos degustam aquela champanhe minuciosamente apropriada. Contam casos, dão gargalhadas forçadas.
Um coração sensível é capaz de observar que não estão felizes.  Nenhum deles está feliz.
Ah, espere!  Mas e quanto àquele casal?
Aquele casal abrutalhado, indecente...romance inadequado. 
Depois de criticados em segredo durante a ceia, durante as preces e até enquanto soavam as músicas de boas-vindas ao novo ano, foram ignorados.
Vejam só! Insolentes! Não têm vergonha? 
Ninguém os quer por perto. São desagradáveis. Indesejáveis!
São desagradáveis porque sua explícita paixão contamina  quem está a volta.
Desagradam porque são invejáveis.
Que deselegantes! Que vergonhoso fazer-nos desejar sentir o desejo incontrolável  idêntico ao deles. 
Não há  quem não troque essa  merda de festa infeliz por um amor, por um sentimento de verdade.

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