sábado, 12 de maio de 2012

Dor,


Eu já te superei com tanta dignidade.
Teve um tempo, que você parecia querer me matar. Éramos eu e você. Só nós duas tentando chegar num consenso. Você não me deixou comer, me fez emagrecer dez quilos em menos de dez dias.
Você era alimentada por uma inflamação que realmente quase me tirou a vida.
Anos depois, enquanto eu agradecia por você ter me tornado mais forte, você veio e tomou minha mãe de mim.
Era a minha única mãe, sabia? Você não precisava ter devastado a vida dela em menos de um ano. Não precisava ter resumido sua existência num corpo sem vida. E você penetrou o coração de todos enquanto isso ocorria. Você, com astúcia, se engastou na minha alma. Eu não me atrevia a reclamar. A sua crueldade era com a minha mãe. Ela foi a vítima da história que você confeccionou. Você, protagonista, junto com a Morte, sua coadjuvante, me fizeram derramar lágrimas que eu nem sabia que tinha guardadas.
Desde então Dor, você tem feito brincadeiras de mal gosto comigo.
Você aparece fraquinha e já quase me derruba. Essas suas rasteiras não tem a menor graça. Uma hora você pode quebrar as minhas pernas. Você me assusta. Nunca sei se aparece pra me ensinar ou pra constituir mais uma novela fúnebre. É sério, você me assusta.
Estou tentando sugar sua companhia pra ter qualquer aprendizado que seja. Mas por favor, deixe sua colega de estrada, a Morte, fora disso.
Falo sério. Eu tenho medo de morrer. Só não tenho mais medo de morrer do que tenho de ver a Morte outra vez.

Nenhum comentário:

Postar um comentário