Pulando os ladrilhos que calçavam a praça, ela caminhava cantarolando uma canção. Mas em silêncio. Mentalmente.
A música parecia ecoar de algum ponto visceral. Pois era como se, afinado a melodia, todo seu corpo vibrasse.
Já não mais havia sinais da tempestade impiedosa que varrera a cidade. Salvo um arco-íris estampado no céu e a relva que ainda estava molhada.
O dia era tão lindo. Parecia uma composição de cinema para uma cena de recomeço. E sentia-se uma tensão nos ares, digna de fazer crer que aquela era a deixa para o clímax do enredo.
Repetia os versos da canção como se fossem seus, tamanha era a harmonia entre si e a criação do autor.
"Entra pra ver, mas tira o sapato pra entrar,
que eu mudei de lugar, algumas certezas... "
Tinha ainda algum tempo livre pra desperdiçar com suas próprias bobagens e por essa razão, caminhava despreocupada.
No caminho, via nos sorrisos dos passantes o que já não via em si própria há muito tempo: Esperança.
Que belos eram os sorrisos. Onde se escondiam?
E foi distraída em sua viagem pelas estrofes e acordes de Cícero que chegou por acaso onde, mais tarde, entenderia que era seu destino: A cafeteria.
Sequer apreciava café. Optava, como para todas as coisas, por escolhas alternativas.
No balcão, pediu capuccino. Pediu pra que caprichassem na canela. E, voltando-se para dentro de si, pediu paz.
As mesas estavam quase todas cheias, enquanto que ali nela, não havia ninguém. Não sabia se mais perturbava um coração roubado ou um coração vazio. Mas não queria pensar nisso agora. Só queria paz e canela.
Mas no meio de tantos vultos, tantos rostos sem face, havia um especial. Um com o olhar ávido, atrás de lentes. Nas mãos, segurava um livro extenso, de alguma série de fantasia.
Certamente não era adolescente, mas exprimia um ar bem humorado e, indiscutivelmente, jovial.
Lia, mas a leitura não o entretinha. O café já estava frio. A conta já estava paga. Restava sair e, quem sabe, aproveitar o final do almoço pra adiantar algum trabalho.
Mas o destino, que nunca vacila, cruzou seu olhar com o dela. Ela que estava lá, agitada, pensando "no tempo que levou pra arrumar aquela gaveta". Ela que olhava as horas, que se dispersava, que lia alguma manchete aleatória no jornal.
Ela que quando o viu passar todo atrapalhado pelos corredores estreitos formados por mesas e cadeiras, sorriu subitamente.
E ele, timidamente, sorriu de volta. Mas com a alma. E como quem não quer nada, cochichou: "Que tal mais um café?"
terça-feira, 23 de julho de 2013
segunda-feira, 22 de julho de 2013
Miocárdio
Arranque-o do peito, dilacere-o.
Esfregue as feridas com vinagre e sal.
Esmurre-o com força até desfalecê-lo.
Corra, transpire a dor, mantenha os músculos rijos.
Regue os tecidos com líquido venoso.
Aqueça, abrase, combuste. Nunca pare, jamais desista.
Esfole a carne, esfacele as células.
Porém, sobreviva.
No final, as cicatrizes serão robustas, mas indolores. E os riscos? Os riscos são letais. Mas verdade é que só se percebe a vida ao contrastá-la com seu oposto. Só se vive porque se morre. E a morte é irremissível.
Esfregue as feridas com vinagre e sal.
Esmurre-o com força até desfalecê-lo.
Corra, transpire a dor, mantenha os músculos rijos.
Regue os tecidos com líquido venoso.
Aqueça, abrase, combuste. Nunca pare, jamais desista.
Esfole a carne, esfacele as células.
Porém, sobreviva.
No final, as cicatrizes serão robustas, mas indolores. E os riscos? Os riscos são letais. Mas verdade é que só se percebe a vida ao contrastá-la com seu oposto. Só se vive porque se morre. E a morte é irremissível.
quinta-feira, 18 de julho de 2013
Então eu aprendi
que quem ama de verdade, sente quando é hora de partir.
E que amor que é amor, não vai embora através das circunstâncias. Não importa a distância, a falta de contato e nem as más interpretações do outro lado. O amor persiste. E quando é amor, do tipo que todos almejam sentir (sem saber das complicações), naturalmente liberta.
Eu sei, eu demorei muito pra aprender o que sempre ouvi o mundo inteiro dizer. Mas agora sigo crendo, finalmente, que não se pode lutar contra o impossível. O impossível não é por acaso. Nada é por acaso.
Agora eu entendo que não se pode transformar uma história bonita em martírio e que por mais amargos que estejam sendo esses dias póstumos, seu resultado será recompensador. Não só pra mim. Eu não penso só em mim. Nunca pensei. Nunca foi uma questão de orgulho porque, não sei se feliz ou infelizmente, orgulho é coisa que desconheço.
Eu morri. Nós morremos. E já faz tempo demais pra continuar relutando em nascer outra vez.
Pegue as oportunidades, olhe ao redor. Persiga seus objetivos ferozmente. Sinta raiva, sinta saudade, sinta o medo de ser infeliz pra sempre. Sinta a solidão. Sinta.
Viva as fases, não ultrapasse os limites do tempo. Espere. Siga paciente, mas siga sempre.
Mate a fantasia e finalmente desvende a realidade. Não, ela não é doce, mas é... palpável.
Então, eu aprendi. E acho que aprendi tudo isso com você. Se não foi diretamente, pelos seus conselhos, foi através da nossa história. Empiricamente.
Entendi seus motivos. Céus! Mais do que nunca eu enxergo os porquês! E você sempre esteve certo. Exceto por acreditar que eu sou tão forte quanto você.
E que amor que é amor, não vai embora através das circunstâncias. Não importa a distância, a falta de contato e nem as más interpretações do outro lado. O amor persiste. E quando é amor, do tipo que todos almejam sentir (sem saber das complicações), naturalmente liberta.
Eu sei, eu demorei muito pra aprender o que sempre ouvi o mundo inteiro dizer. Mas agora sigo crendo, finalmente, que não se pode lutar contra o impossível. O impossível não é por acaso. Nada é por acaso.
Agora eu entendo que não se pode transformar uma história bonita em martírio e que por mais amargos que estejam sendo esses dias póstumos, seu resultado será recompensador. Não só pra mim. Eu não penso só em mim. Nunca pensei. Nunca foi uma questão de orgulho porque, não sei se feliz ou infelizmente, orgulho é coisa que desconheço.
Eu morri. Nós morremos. E já faz tempo demais pra continuar relutando em nascer outra vez.
Pegue as oportunidades, olhe ao redor. Persiga seus objetivos ferozmente. Sinta raiva, sinta saudade, sinta o medo de ser infeliz pra sempre. Sinta a solidão. Sinta.
Viva as fases, não ultrapasse os limites do tempo. Espere. Siga paciente, mas siga sempre.
Mate a fantasia e finalmente desvende a realidade. Não, ela não é doce, mas é... palpável.
Então, eu aprendi. E acho que aprendi tudo isso com você. Se não foi diretamente, pelos seus conselhos, foi através da nossa história. Empiricamente.
Entendi seus motivos. Céus! Mais do que nunca eu enxergo os porquês! E você sempre esteve certo. Exceto por acreditar que eu sou tão forte quanto você.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
Ceticismo
Naquela manhã, embora o sol brilhasse para a maioria, sobre a sua cabeça pairava uma nuvem nebulosa e carregada.
Era acometida por uma tempestade torrencial de dúvidas, arrependimentos, frustrações e melancolia. Era tão custoso dar as costas aos vestígios de esperança... Era deveras doloroso seguir em frente, sem olhar pra trás, desguarnecida de motivos.
O motivo pra viver era somente viver. Todo e qualquer esforço seria em razão de evitar grandes sofrimentos e não de buscar felicidade. Na verdade, estava exausta de sua busca desvairada por sabe-se lá o que. Já era tempo de sossegar, descansar dessa extenuante jornada rumo ao nada.
Apesar dos pesares, era uma bela manhã. Vestiu um casaco de lã, muniu-se de fones de ouvido e saiu.
Obviamente não havia um destino premeditado. E pensava angustiada que se nem pra'quela caminhada descompromissada conseguia se projetar, o que esperar então de sua vida?!
Depois de tanta dedicação e paciência para com um futuro incalcansável encontrava-se incrédula em relação ao destino. Bem porque, pensava que mesmo que comprovasse sua teoria do desígnio, o universo não estaria a seu favor. Suas crenças se dissolviam de forma a levá-la, finalmente, à desistência.
A chama do amor impossível que alimentava há meses havia se apagado sem aviso. O impossível tornara-se mais que concreto, era também propositalmente ideal e invencível. Sua falta de fé tomou proporções gigantescas a ponto de abalar o inabalável. Simplesmente era o fim. Derrotada, apenas conformava-se com o fim. Ademais, antes lamentar-se pela finitude de um bom sentimento do que assisti-lo transformar-se em ódio. Ao menos as lembranças gratas resistiriam.
Caminhava sem pressa. Sentia uma enorme leveza que, no entanto, não era de alívio e sim consequência do vazio. Se sentia dominada por uma espécie de liberdade forçosa que mais parecia abandono, rejeição. Liberdade seria se estivesse, por escolha, desacompanhada. Mas a leveza estranha era na verdade solidão.
Era acometida por uma tempestade torrencial de dúvidas, arrependimentos, frustrações e melancolia. Era tão custoso dar as costas aos vestígios de esperança... Era deveras doloroso seguir em frente, sem olhar pra trás, desguarnecida de motivos.
O motivo pra viver era somente viver. Todo e qualquer esforço seria em razão de evitar grandes sofrimentos e não de buscar felicidade. Na verdade, estava exausta de sua busca desvairada por sabe-se lá o que. Já era tempo de sossegar, descansar dessa extenuante jornada rumo ao nada.
Apesar dos pesares, era uma bela manhã. Vestiu um casaco de lã, muniu-se de fones de ouvido e saiu.
Obviamente não havia um destino premeditado. E pensava angustiada que se nem pra'quela caminhada descompromissada conseguia se projetar, o que esperar então de sua vida?!
Depois de tanta dedicação e paciência para com um futuro incalcansável encontrava-se incrédula em relação ao destino. Bem porque, pensava que mesmo que comprovasse sua teoria do desígnio, o universo não estaria a seu favor. Suas crenças se dissolviam de forma a levá-la, finalmente, à desistência.
A chama do amor impossível que alimentava há meses havia se apagado sem aviso. O impossível tornara-se mais que concreto, era também propositalmente ideal e invencível. Sua falta de fé tomou proporções gigantescas a ponto de abalar o inabalável. Simplesmente era o fim. Derrotada, apenas conformava-se com o fim. Ademais, antes lamentar-se pela finitude de um bom sentimento do que assisti-lo transformar-se em ódio. Ao menos as lembranças gratas resistiriam.
Caminhava sem pressa. Sentia uma enorme leveza que, no entanto, não era de alívio e sim consequência do vazio. Se sentia dominada por uma espécie de liberdade forçosa que mais parecia abandono, rejeição. Liberdade seria se estivesse, por escolha, desacompanhada. Mas a leveza estranha era na verdade solidão.
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Ser humano
Ser humano é sofrer.
E o ser humano sofre pelo simples fato de ser.
Ser humano entorpece a realidade pra não perceber que em seu íntimo sabe que é feito de nada e como nada vai perecer.
Entorpece-a com sonhos, devaneios, amor, arte, fumo e bebida. Não importa. Mais dia ou menos dia vai envelhecer, vai morrer.
Sua doença começa na existência. E só existe para si porque pensa existir. Pensa, se incomoda, sufoca as indagações e se acomoda.
Culpa a vida por incompreendê-la, pela incapacidade de atribuí-la algum sentido, algum motivo.
Trabalha, inventa, produz. Não sendo assim, é consumido pelo caos da exclusiva habilidade de refletir sobre ser.
Ah! Ser humano...
Investe na fé, investe no amor.
Relativiza tudo.
Certo e errado, prazer e dor.
Fraciona tantos significados que chega a zero no numerador e no denominador.
E o ser humano sofre pelo simples fato de ser.
Ser humano entorpece a realidade pra não perceber que em seu íntimo sabe que é feito de nada e como nada vai perecer.
Entorpece-a com sonhos, devaneios, amor, arte, fumo e bebida. Não importa. Mais dia ou menos dia vai envelhecer, vai morrer.
Sua doença começa na existência. E só existe para si porque pensa existir. Pensa, se incomoda, sufoca as indagações e se acomoda.
Culpa a vida por incompreendê-la, pela incapacidade de atribuí-la algum sentido, algum motivo.
Trabalha, inventa, produz. Não sendo assim, é consumido pelo caos da exclusiva habilidade de refletir sobre ser.
Ah! Ser humano...
Investe na fé, investe no amor.
Relativiza tudo.
Certo e errado, prazer e dor.
Fraciona tantos significados que chega a zero no numerador e no denominador.
sábado, 6 de julho de 2013
Café da manhã
Naquela manhã, me senti enganada pela vida. Não que fosse novidade que ela faria isso muitas e muitas vezes, mas dessa vez me senti traída e ainda não houve dor que superasse esta.
Não posso imaginar quão pior foi a sua dor. A dor aguda do punhal traiçoeiro da ilusão, atravessando nossos corações.
O seu café tinha mais calor que você. A banana que descascou com dificuldade guardava, em suas fibras, mais vida do que você.
Mas você esteve firme naqueles dias. Eu te vi segurando sua bandeja com tanta vitalidade, seu determinismo era tão forte. Havia uma chama em seu olhar que era intensa, porém, tremeluzia. Eu já devia saber... Eu devia ter escutado o que me diziam.
Mas não. Eu cri que você ficaria.
Mas tudo foi finito. Presença, esperança.
O que persiste imortal e invisível é a saudade.
Não posso imaginar quão pior foi a sua dor. A dor aguda do punhal traiçoeiro da ilusão, atravessando nossos corações.
O seu café tinha mais calor que você. A banana que descascou com dificuldade guardava, em suas fibras, mais vida do que você.
Mas você esteve firme naqueles dias. Eu te vi segurando sua bandeja com tanta vitalidade, seu determinismo era tão forte. Havia uma chama em seu olhar que era intensa, porém, tremeluzia. Eu já devia saber... Eu devia ter escutado o que me diziam.
Mas não. Eu cri que você ficaria.
Mas tudo foi finito. Presença, esperança.
O que persiste imortal e invisível é a saudade.
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