sexta-feira, 28 de junho de 2013

Minha terra, minha vida

Da mistura antagônica de amor e ódio é que nascem as manhãs sob as cinzas na Selva de Pedras.
É da luz do sol que depende o bom humor de seu povo que não precisa de muito pra ser feliz. Esse sol que só vive escondido e que quando aparece, aparece tímido, com raios franzinos, na Terra da Garoa.
Essa gente que vive sufocada pelas dificuldades, pela hostilidade da vida conturbada, do céu avermelhado, da aridez nos olhares, é boa demais por viver sempre sorrindo. O coração é desconfiado, mas generoso que é, está sempre acessível. Oh, gente carrancuda, gente durona, cheia de marra!
É essa gente disposta que me contagia. Combustível heroico para a rotina caótica em nossa terra cheia de charme, poeira e poesia.
A heterogeneidade é nosso privilégio. Grato privilégio.
Ah, essa nossa gente bonita...
O branco, a índia, a linda pretinha do maracatu , o loirinho de pele rosada, o gringo, o cearense, a baiana arretada. Gente de toda parte do Brasil, do mundo. A galera do skate, gente pseudo-culta, gente culta de verdade. O barbudo do violão, o rapaz da bossa nova, o estudante, o trabalhador assalariado. O artesão, a atriz de rua, a patricinha, o executivo de terno e gravata. O gamer, o fotógrafo, o hippie, o mendigo. O turista, o hipster, o repentista, o rapper na rinha, o sertanejo, o rockeiro dobrando a esquina da 24 de maio. A dona de casa, o aposentado...
São incontáveis os rostos, são as tantas cores e as formas que compõem o cenário da nossa elegante metrópole judiada.
Verdes, azuis, vermelhos e amarelos são nossos caminhos de ferro. Asfaltadas e concretas são as jornadas. E mesmo com todas as faltas, mesmo saturada, cheia de escassez, os canteiros contemplam belas árvores centenárias.
A avenida que leva o nome de nossa naturalidade é nosso orgulho. É Paulista, tal como sua gente, e abriga desde as mais belas artes, até o clamor legítimo de um povo que luta por dignidade.
O horizonte é contornado sobre vários arranha-céus, mas nem por isso o crepúsculo deixa de ser estonteante.
E é por este prisma ambivalente que vou vivendo cada dia em minha cidade, que não é Rio de Janeiro, mas é maravilhosa. E é por estes tantos motivos que por mais que me enfureça nunca perde meu amor. Posso vir a me despedir de São Paulo. Pode ser que um dia realmente saia daqui. Mas o fato incontestável é que mesmo que saia de São Paulo, São Paulo jamais sairá de mim.

terça-feira, 25 de junho de 2013

Psicologizando desconexamente

O choro é passível de ser engolido sim. Nas primeiras vezes é um pouco complicado porque os suspiros arranham a garganta, o coração e a alma. Mas com o tempo, qualquer um é capaz de aprender.
Cada um tem seu truque. Igual engolir comprimido. Uns colocam na ponta da língua, outros no meio dela e alguns, mais ousados até dissolvem-no na água e bebem a mistura amarga.
O fato indiscutível é que todos, TODOS nós mais cedo ou mais tarde teremos de lidar com o mundo caindo sobre nossas cabeças, com o chão nos sendo tomado e com a bola de arame farpado que se forma em nossa traqueia, obstruindo-a, nos tirando o ar.
Parte de mim está morrendo. E está morrendo claramente pra dar espaço a uma nova pessoa. A tão sonhada maturidade está se aproximando e isso dói. Parece que cada vez doerá mais. Mas também será mais sutil e suportável. É, é paradoxal mesmo.
As lágrimas mais doídas da minha vida toda, foram as que eu contive na fila de uma empresa, segurando a carteira de trabalho nas mãos pra ser contratada. Estava em frangalhos, mas ninguém podia saber.
Com o tempo, a vida não nos permite mais derramar o pranto por um dia inteiro na cama. Sem comer, sem dormir ou tomar banho. Se isto acontecer, certamente algum diagnóstico tratará de nos colocar num lugar social muito pior: o lugar do doente. E aí pode-se dizer que a vida acaba mesmo. Internações, estimulantes, anti-psicóticos, avental, cateter na veia.
E se não for isso, então é a drogadição que acaba conduzindo exatamente pro mesmo status. Só que neste caso, os olhares são muito mais cruéis e preconceituosos.
Sabemos que uma pressãozinha no peito, que acomete a todos, não pode ser responsável por estragar os anos pósteros. Por isso que na hora que a maré aumenta, até quem não tem perna corre da praia.
Ninguém gosta, mas no fundo, todo mundo sabe que é melhor digerir a mágoa, por mais doloroso que seja o processo, do que deixá-la no domínio das continentais terras psíquicas.

domingo, 23 de junho de 2013

Prodígio

Dentre todas as coisas que compunham seu visual anedótico, meio Starbucks na hora do almoço misturado com Augusta de sexta-feira a noite, era o seu sorriso que mais chamava atenção.
Claro que não era tão perceptível, escondido atrás da barba e dos óculos de armação larga. Sorriso maduro de aspecto pueril.
Embora aparentasse inocência, escondia a sabedoria de mais de cem anos. Não sei dizer se vinha dos livros, dos antepassados ou de outras vidas. Só sei que um rapaz tão jovem e tão pouco vivido certamente guardava alguma receita secreta sobre inteligência.
E sua sagacidade era tão vistosa que formava de dentro pra fora uma potente camada de valência, capaz de atrair incontáveis pessoas. Em outras palavras, era através de sua beleza interna que conquistava prontamente quem conhecia. Não que fosse feio por fora. Mas os apetrechos xadrezes e seu chapéu escondiam um pouco de seu brilho.
Não era incomum que tivesse crises ou sofresse sem motivos óbvios. Pessoas geniais sofrem desse mal. E embora brincasse de Narciso, era muito menos orgulhoso de si do que poderia ser, afinal, sua auto-estima era suficientemente baixa para cegá-lo.
Das palavras fazia legítimas obras de arte. E era modesto. Tanto que se dispunha a ler os rascunhos miseráveis alheios com dedicação e afinco.
Esse rapaz prodígio passou por mim como um vetor desvairado, deixando apenas boas lembranças, algumas fotografias e meu olhar perdido em admiração.
Sua passagem foi breve. Seu legado, imensurável.
Hoje, quando o avisto de longe, me felicito em vê-lo sorrindo sem artifícios, com menos disfarces. É bom constatar o fortalecimento de seu ego e a preservação de sua essência. Pois continua o mesmo bobo de discurso tristonho sempre bem disposto.
Ele inclusive me acena, embora não me tenha deixado uma porta aberta, apenas as vidraças de algumas janelas distantes, para que eu pudesse gritá-lo quando estivesse em apuros. Muito justo, afinal já havia dado de cara com minha porta fechada, trancafiada a sete chaves.
E no meu íntimo, me arrependo por tê-lo deixado ir embora tão depressa. Apesar de que prendê-lo, seria nada menos do que egoísmo da minha parte.

sábado, 22 de junho de 2013

Um dilema sem dialética

Havia algum tempo que ela adotara uma maneira mais fácil e menos narcísica de falar sobre si.
Era usando um discurso em terceira pessoa, que seus sentimentos se esvaíam, em detalhes, pelo mundo.
Não é incomum confeccionar um objeto romântico, ideal e perfeito para constituir uma bela prosa. Mas no caso dela a fixação por seu objeto transcendia as intenções literárias.
Era sob o viés do amor que ela escrevia já há meses. Sendo ele maior ou menor motivo. Sendo oculto ou sendo explícito. Ele estava sempre presente. O amor insistente, incansável, que com o tempo foi forçado a se transformar num amor mais altruísta, desesperançoso. Mas ainda era o mesmo amor. Com o mesmo vigor que tivera em seu apogeu.
E ela sabia que a fonte nutritiva para tudo em sua vida tinha sua nascente ali. Mas se ramificava através de inúmeras justificativas e desculpas disfarçadas em novos objetivos.
Não era por menos que suas noites eram regadas por lágrimas e insônia e era tudo tão doloroso que só podia ser percebido por sentidos sensíveis ao silêncio. Mas para seu azar, ninguém conseguia percebê-la ali calada e trancada em seu sofrimento.
As razões para escrever estavam diminuindo. Na verdade, havia muito para ser escrito ainda, mas onde estavam seus leitores?Pior do que não receber a única atenção que esperava era notar que haviam muitas outras disputando a mesma fonte de inspiração.
Achava injusto. Não admitia que desconhecidas se apossassem de sua história e a apagassem lentamente pelo esquecimento.
Ao mesmo tempo, quando tomada pela lógica, sentia-se egoísta e infantil pois no fundo sabia que era muito complicado tecer com as próprias mãos a felicidade do outro. Mas acima de todas as coisas era essa felicidade que mais importava. O outro merecia, mais do que ninguém, sorrir em paz.
Era afogada nesse dilema que ela vivia há semanas. Queria ver o rosto alegre do outro, mas insistia em tomá-lo para si. E sabia que se o tomasse, provavelmente o extinguiria. Seja por incapacidade, pela distância, pelas circunstâncias...
Talvez apenas o outro conseguisse entender essa dualidade, essas nuances sentimentais extremamente complexas. Ou talvez ele estivesse desinteressado, cuidando a seu modo de superar suas mazelas e alcançar sua merecida felicidade. Na verdade, é impossível supor seu posicionamento nessa história, pois sabia disfarçar tudo muito bem. Seja lá o que fosse, apenas escondia.
E ela, já tão desconfiada de tudo e todos ficava a mercê de seu humor. Quando bem humorada, era otimista, compreensiva e corajosa. Com o humor abalado, cogitava-o como mentiroso, insensível, enganador. E quando finalmente tentava uma dialética, perdia-se ainda mais e então chorava.
Embutidos no medo de perdê-lo estavam também o medo da solidão e do fracasso. Ora acreditava em destino, ora acreditava que eram os resquícios de sua adolescência esperando para serem resolvidos.
Mesmo com uma sensação estranha de que estava gastando a última centelha de sua história de amor, ainda tentava juntar os quadros chamuscados para formar um novo filme.
Pois afinal, quem pode saber se a teoria sore o destino não é mesmo a correta?

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Delírios de grandeza e saudade

Entrei naquele carro que você nunca comprou e nós viajamos para aquela praia que você sempre quis conhecer.
Escutamos as músicas que não cheguei a te apresentar e você, como sempre, me disse que agora prefere MPB.
Divagamos sobre política, educação, sobre nossas atuais boas vidas. Eu sobre aquele mestrado que ainda não conquistei e você sobre aqueles números extensos que nunca residiram sua conta bancária. Sempre tão ambiciosa, sempre tão cheia de poder.
E nós comemos um jantar refinadíssimo, pois era seu desejo.
Finalmente, quando acabou o passeio, peguei suas mãos já calosas em função da idade que você nunca atingiu e pintei suas unhas com aquele esmalte cor de goiaba que você tanto adora.
E você sorriu, exibindo as facetas em porcelana que nunca chegou a implantar nos dentes. Mas isso, claro, sem abrir mão de seu tão antigo hábito de acender seu Marlboro vermelho a todo instante. Triste vício, porém intransferivelmente seu.
Mas triste mesmo foi o momento em que despertei. Não de um sonho, como se poderia pensar, mas de um devaneio, de um quase-delírio.
Acordei num ponto de ônibus qualquer, numa sexta-feira qualquer. E como já não fosse suficientemente doloroso constatar a ausência de nossos sonhos, lembrei-me que sequer te tenho aqui comigo. Nem mesmo sua face rugosa eu tive a chance de conhecer.
No caminho para casa, passando pela avenida, desconhecidos me acenavam confundindo-me com você. Curioso pois em razão de sua fama, é de se estranhar que desconheçam sobre sua partida.
Embora seja compreensível associarem-me a seus traços e suas madeixas rubras tais quais as minhas.
Por fim, acabei entrando no ônibus velho e sujo. Acompanhada apenas de saudades e de um amor por você que jamais acabará. Sem seu abraço, sem ouvir sua voz esbravejando com cobradores e motoristas, sem debochar alegremente de seus peculiares costumes, sem comer seu feijão aguado, sem enlouquecer ao te ver com minha calça jeans recém comprada e sem sentir seu doce perfume de óleo de andiroba.
Enfim, vida e morte seguiram seu caminho e eu fiquei aqui sozinha.

terça-feira, 4 de junho de 2013

Destino

O amor ainda estava lá. Mas dessa vez, num lugar mais escondido. Num recipiente opaco talvez. Pra não chamar muita atenção, quem sabe. Mas ainda assim, podia-se sentir sua fragrância exalando doce e sutil nos ares litorâneos.
Já não importavam mais as circunstâncias, não eram necessárias explicações, tampouco era necessário dizer o óbvio.
O que os olhos de fato contemplavam era a centelha de uma vida ideal que ficava pra traz e sem qualquer garantia de sobrevivência.
Não é que não havia esperança, na verdade, como já se sabe, a esperança é sempre a última sobrevivente. Só já não fazia nenhum sentido erguer uma bandeira estampada com os mais genuínos sentimentos. Tão genuínos que seria um crime deixá-los expostos a quem quisesse passar, olhar e julgar sem conhecer os motivos.
Não podia mais haver egoísmos. Tudo devia ser dito e mais importante ainda: devia ser escutado. Não havia razão para omitir nenhum assunto, nenhuma palavra.
Os rostos estavam tão mudados. O tempo sempre se encarrega de promover as mudanças. Mas como é de nosso comum conhecimento, o que é intrínseco nunca muda. Sobretudo aos olhos de quem sabe exatamente com quem e o que está lidando. Exímios conhecedores das almas um do outro.
E o Tempo, o Devastador, o Soberano não deixa mais qualquer lacuna para ser preenchida com perspectivas futuras. Ele é inteiramente responsável pelas decisões e pelo destino dessas duas vidas que um dia se cruzaram por acaso.
E embora seja verdadeiramente angustiante ter os olhos cerrados pelo incerto, há ainda o alento de que as linhas corretas provavelmente já devem ter sido traçadas e portanto estão definitivamente definidas. Se Deus ou o Diabo as escreveu? Não sei. Não é possível sequer comprovar sua existência. Mas o indiscutível é que pelo menos em mim, habita uma força maior que me faz crer fielmente que o que for pra acontecer, se for o certo, simplesmente acontecerá.