No mundo das demandas infinitas,
da pressa e da raiva pelo tempo e o abstrato,
não existe mais tato.
Sem delongas, não queira parecer um carente retardado.
Não crie laços consistentes, não seja antiquado.
Não tarde a se recuperar, não seja fraco.
Tome analgésicos.
Coma carne.
Não seja tão fraco!
Levante rápido! Não se deixe abalar. Não deixe te flagrarem aí em baixo.
Tome fluoxetina.
Não se comporte como uma menina!
Pare agora de chorar.
A realidade não permite espaço para abraços e ninguém é confiável.
Não queira confiar.
Mas se intentar uma aventura solitária, saiba que, de toda forma sua escolha é equivocada.
Todas as alternativas estão erradas.
Tome um chopp gelado.
Onde estão seus amigos?
Seja mais objetivo.
Saia logo de casa.
Não sonhe pelo coletivo, proteja seu umbigo.
No final, todos estarão sozinhos.
Trabalhe mais, cuide da sua vida.
Deste mundo, temos somente a breve estadia.
Ambientalismo é utopia ultrapassada.
Do futuro esperamos a morte e mais nada.
As apostilas da quarta-série falavam de reciclagem e das cores das latas.
Somente às crianças se ensina economizar água.
Tome um banho demorado.
Divirta-se um pouco mais, não seja bitolado.
Você ainda não comprou seu carro?
Vai ficar aí deitado?
É sábado...
Não deixe o fim de semana acabar,
Que hoje a noite tem open bar.
segunda-feira, 12 de maio de 2014
quarta-feira, 7 de maio de 2014
Cabe a mim escrever? Cabe em mim escrever?
Onde estão as linhas que me guiavam? Me desarranjo absorta pela brancura imaculada destas folhas de papel. Vazias, intactas.
São tantas as possibilidades, que me perco em digressão, como o leito de um rio que em lugar algum deságua, mas que se lança numa infinitude de afluentes que flanam despreocupadas.
Não encontro espaço tampouco sequencia para minhas próprias sentenças. As que despontam imaturas, não abarcam meus requeridos significados. Me desapontam.
Uma batalha contra a semântica foi declarada. O que pode ter inibido minha perspicácia?
Ainda cabe em mim escrever? Ainda cabe a mim escrever?
Meus pensamentos, travessos e infantis, jogam pique-esconde e são ligeiros. Perpassam minha mente e escorrem por entre meus dedos.
Minha mente decrépita não contemplou mais que duas décadas. As já diminutas certezas tornam-se cada vez mais obsoletas.
O que, como, por que e pra quem escrever?
Não quero crer que a satisfação pessoal tenha como produto final a inércia.
Qual demanda a escrita pode sanar e qual dimensão ela pode ocupar na realidade de alguém que após abrasar em crise por anos, finalmente colidiu-se com a paz?
São tantas as possibilidades, que me perco em digressão, como o leito de um rio que em lugar algum deságua, mas que se lança numa infinitude de afluentes que flanam despreocupadas.
Não encontro espaço tampouco sequencia para minhas próprias sentenças. As que despontam imaturas, não abarcam meus requeridos significados. Me desapontam.
Uma batalha contra a semântica foi declarada. O que pode ter inibido minha perspicácia?
Ainda cabe em mim escrever? Ainda cabe a mim escrever?
Meus pensamentos, travessos e infantis, jogam pique-esconde e são ligeiros. Perpassam minha mente e escorrem por entre meus dedos.
Minha mente decrépita não contemplou mais que duas décadas. As já diminutas certezas tornam-se cada vez mais obsoletas.
O que, como, por que e pra quem escrever?
Não quero crer que a satisfação pessoal tenha como produto final a inércia.
Qual demanda a escrita pode sanar e qual dimensão ela pode ocupar na realidade de alguém que após abrasar em crise por anos, finalmente colidiu-se com a paz?
quarta-feira, 12 de março de 2014
Voltando a falar de amor
O amor é protagonista magno na vida de qualquer ser humano. Ou pelo menos, nos fizeram crer assim.
Seja herói, seja vilão, o amor assume quase sempre o papel central na trama da vida. E não raro, o amor romântico faz emergir sintomas que denunciam a existência. Mas dentre as várias consequências atreladas ao existir, se destaca o sofrimento. Em suma, quem ama indubitavelmente sofre e quem sofre, se lembra que existe. Ou ainda, quem sabe que existe mas não ama, sofre igualmente.
Pelo menos foi nesses moldes que o aclamado amor (ou o que eu acreditava ser amor) sempre se apresentou a mim. Não à toa. Quem não foi condicionado a crer que o genuíno amor entre um homem e uma mulher é o apogeu humano, o mais legítimo dos sentimentos e o mais poderoso, que atire a primeira pedra.
Desconstruir esse olhar e dar ao amor um lugar menos comum me tem demandado muita reflexão, muita leitura e, acima de tudo, maturidade.
Eu jamais ousaria (e me arriscaria) a dar um olhar antropológico e/ou histórico a essa discussão. Tenho vaga ciência de que a sociedade contemporânea carrega consigo resquícios das eras passadas, principalmente no que tange os movimentos artísticos e literários em geral. E é evidente que carregue intrínsecos os valores cristãos (seja de forma velada ou explícita). Poderia acrescentar os apontamentos feitos pelo querido Freud em "Mal estar na Civilização", onde o ilustre Sigi desmistifica a busca pela felicidade, mostrando que em condições civilizadas o que prevalece é um mecanismo de evasão ao desprazer. Mas não me sinto hábil a tocar nessas questões. Fico com meu achismo calcado nas minhas reflexões íntimas mesmo.
Amor não é nada disso que falam por aí. E em contrapartida, amor é sim tudo isso que falam e ainda mais que isso. É tudo e é nada ao mesmo tempo. Sua definição dialoga diretamente com o significado a si atribuído.
Uma vez admitida a subjetivação do amor, me pergunto por que é que somente o amor romântico é exaustivamente exaltado. Aquele cujo as características nos foram muito bem pontuadas desde muito cedo. Aquele intimamente atrelado ao apaixonamento. Aquele que só é permitido entre um homem e uma mulher (Sim, pois caso contrário, por que haveria tanto alarde, tanta balbúrdia em torno da homoafetividade?). Aquele que só se legitima através da exclusividade, da monogamia. Aquele em que se estabelecem contratos que quando quebrados resultam na sua completa extinção.
Toda a gama de outras possibilidades é considerada sórdida, abjeta.
Pra mim, a não aceitação das demais contingências resulta nessa doença a qual atribuíram o amor. Uma doença que não difere carência de identificação. Que não difere comodismo de fidelidade. Que não difere paixão de projeção. Que não difere necessidade socialmente imposta de necessidade individual. Que faz do indivíduo, divisível. Que transforma em pedaço o que, por natureza, outrora fora inteiro.
Seja herói, seja vilão, o amor assume quase sempre o papel central na trama da vida. E não raro, o amor romântico faz emergir sintomas que denunciam a existência. Mas dentre as várias consequências atreladas ao existir, se destaca o sofrimento. Em suma, quem ama indubitavelmente sofre e quem sofre, se lembra que existe. Ou ainda, quem sabe que existe mas não ama, sofre igualmente.
Pelo menos foi nesses moldes que o aclamado amor (ou o que eu acreditava ser amor) sempre se apresentou a mim. Não à toa. Quem não foi condicionado a crer que o genuíno amor entre um homem e uma mulher é o apogeu humano, o mais legítimo dos sentimentos e o mais poderoso, que atire a primeira pedra.
Desconstruir esse olhar e dar ao amor um lugar menos comum me tem demandado muita reflexão, muita leitura e, acima de tudo, maturidade.
Eu jamais ousaria (e me arriscaria) a dar um olhar antropológico e/ou histórico a essa discussão. Tenho vaga ciência de que a sociedade contemporânea carrega consigo resquícios das eras passadas, principalmente no que tange os movimentos artísticos e literários em geral. E é evidente que carregue intrínsecos os valores cristãos (seja de forma velada ou explícita). Poderia acrescentar os apontamentos feitos pelo querido Freud em "Mal estar na Civilização", onde o ilustre Sigi desmistifica a busca pela felicidade, mostrando que em condições civilizadas o que prevalece é um mecanismo de evasão ao desprazer. Mas não me sinto hábil a tocar nessas questões. Fico com meu achismo calcado nas minhas reflexões íntimas mesmo.
Amor não é nada disso que falam por aí. E em contrapartida, amor é sim tudo isso que falam e ainda mais que isso. É tudo e é nada ao mesmo tempo. Sua definição dialoga diretamente com o significado a si atribuído.
Uma vez admitida a subjetivação do amor, me pergunto por que é que somente o amor romântico é exaustivamente exaltado. Aquele cujo as características nos foram muito bem pontuadas desde muito cedo. Aquele intimamente atrelado ao apaixonamento. Aquele que só é permitido entre um homem e uma mulher (Sim, pois caso contrário, por que haveria tanto alarde, tanta balbúrdia em torno da homoafetividade?). Aquele que só se legitima através da exclusividade, da monogamia. Aquele em que se estabelecem contratos que quando quebrados resultam na sua completa extinção.
Toda a gama de outras possibilidades é considerada sórdida, abjeta.
Pra mim, a não aceitação das demais contingências resulta nessa doença a qual atribuíram o amor. Uma doença que não difere carência de identificação. Que não difere comodismo de fidelidade. Que não difere paixão de projeção. Que não difere necessidade socialmente imposta de necessidade individual. Que faz do indivíduo, divisível. Que transforma em pedaço o que, por natureza, outrora fora inteiro.
sábado, 22 de fevereiro de 2014
Escritor
Seus olhos atravessavam a todos os indivíduos que, de alguma forma, tocavam seu caminho.
Quantas histórias abrigavam aqueles corpos? E os que não abrigavam, a quantas poderiam servir de inspiração?
A escrita era inerente ao seu ser. Não conseguia deixar de fazer das pessoas, acessórios para os seus romances.
Contrariando o que se pode pensar, escrever não fazia-o pleno.
Perturbava-se com a necessidade incessante e insaciável de registrar sua captura do mundo através de suas próprias palavras. E não eram quaisquer palavras que satisfaziam sua vaidade. Cada frase era minuciosamente refletida, revisada. A perfeição era seu objetivo mínimo, porém, nunca alcançado.
Era intimista. Não se aproximava de quase ninguém, pois sempre confeccionava previamente a dimensão psicológica de cada ser com quem cruzava um olhar. Deixar que o próximo desse vazão à sua verdadeira identidade, desmancharia a trama de sua história aniquilando assim, o significado de sua existência. Preferia as pessoas segundo sua própria imaginação. Tinha como recompensa de sua reclusão, a vantagem de nunca decepcionar-se ou surpreender-se, uma vez que controlava o enredo que sustentava o destino de tudo e todos. Era Deus. Era o Deus do seu mundo, o qual criava e destruía sem dever explicação a ninguém.
Podia emprestar a seus personagens aquelas emoções as quais não suportava viver sozinho. Ou ainda aquelas as quais acreditava não poder experimentar na realidade objetiva. Se quisesse um grande amor, por exemplo, podia vivê-lo sob a pele de uma de suas criaturas. Não sofreria, salvo fosse sua escolha, já que detinha consigo toda criação.
Sabia que não era feliz. Mas por que haveria de ser? Era poderoso! Ditava choro e riso. Não os seus. Esses eram dispensáveis, omissos. Afinal, não era gente como toda gente. Era escritor.
Só mais um escritor.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
DOIS MIL E CATARSE, pra começar o ano bem
Vi gente cercando, dispondo da alma até se fosse preciso, aquilo que acreditava ser de sua posse, chamando o que era do mundo de "meu".
Vi gente dedicada, gente bramindo bravamente, evocando pelos quatro cantos da Terra os seus direitos. Mas das palavras que proferiam, só conseguia-se identificar um inextricável canto de proposições idiotas, vulgares e egoístas, que se substanciavam na palavra "EU, EU, EU..."
Vi gente maltratando, assassinando, esquartejando outrem, sob alegação de não serem seus iguais.
Vi gente orgulhosa dos anais mais fúteis. Ouvi os jargões mais frívolos.
Às causas mais inúteis, conferiram maior prestígio.
Vi gente plantando sementes de ódio. Vi germinar a desesperança.
Vi os mais justos, injustiçados, colhendo desespero, fatalismo e ignorância.
Vi sorrisos comprados, sorrisos vendidos, sorrisos invetados.
Vi a conversão da vida em bens consumíveis, perecíveis. Vi horas e horas de trabalho pesado, de suor salgado, investidas em pão e circo.
Vi, ouvi, vivi... tentei engolir, não consegui digerir. Vomitei consciência, arrogância, e um repúdio infinito.
Respirei.
Esse não era o caminho.
Como na alegoria da luz no fim do túnel, agarrei a última centelha da boa perspectiva.
Isso tem de mudar! O mundo há de mudar.
Que 2014 seja bem vindo e traga a revolução consigo!
Vi gente dedicada, gente bramindo bravamente, evocando pelos quatro cantos da Terra os seus direitos. Mas das palavras que proferiam, só conseguia-se identificar um inextricável canto de proposições idiotas, vulgares e egoístas, que se substanciavam na palavra "EU, EU, EU..."
Vi gente maltratando, assassinando, esquartejando outrem, sob alegação de não serem seus iguais.
Vi gente orgulhosa dos anais mais fúteis. Ouvi os jargões mais frívolos.
Às causas mais inúteis, conferiram maior prestígio.
Vi gente plantando sementes de ódio. Vi germinar a desesperança.
Vi os mais justos, injustiçados, colhendo desespero, fatalismo e ignorância.
Vi sorrisos comprados, sorrisos vendidos, sorrisos invetados.
Vi a conversão da vida em bens consumíveis, perecíveis. Vi horas e horas de trabalho pesado, de suor salgado, investidas em pão e circo.
Vi, ouvi, vivi... tentei engolir, não consegui digerir. Vomitei consciência, arrogância, e um repúdio infinito.
Respirei.
Esse não era o caminho.
Como na alegoria da luz no fim do túnel, agarrei a última centelha da boa perspectiva.
Isso tem de mudar! O mundo há de mudar.
Que 2014 seja bem vindo e traga a revolução consigo!
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