sábado, 22 de fevereiro de 2014

Escritor


Seus olhos atravessavam a todos os indivíduos que, de alguma forma, tocavam seu caminho.
Quantas histórias abrigavam aqueles corpos? E os que não abrigavam, a quantas poderiam servir de inspiração?
A escrita era inerente ao seu ser. Não conseguia deixar de fazer das pessoas, acessórios para os seus romances.
Contrariando o que se pode pensar, escrever não fazia-o pleno.
Perturbava-se com a necessidade incessante e insaciável de registrar sua captura do mundo através de suas próprias palavras. E não eram quaisquer palavras que satisfaziam sua vaidade. Cada frase era minuciosamente refletida, revisada. A perfeição era seu objetivo mínimo, porém, nunca alcançado.
Era intimista. Não se aproximava de quase ninguém, pois sempre confeccionava previamente a dimensão psicológica de cada ser com quem cruzava um olhar. Deixar que o próximo desse vazão à sua verdadeira identidade, desmancharia a trama de sua história aniquilando assim, o significado de sua existência. Preferia as pessoas segundo sua própria imaginação. Tinha como recompensa de sua reclusão, a vantagem de nunca decepcionar-se ou surpreender-se, uma vez que controlava o enredo que sustentava o destino de tudo e todos. Era Deus. Era o Deus do seu mundo, o qual criava e destruía sem dever explicação a ninguém.
Podia emprestar a seus personagens aquelas emoções as quais não suportava viver sozinho. Ou ainda aquelas as quais acreditava não poder experimentar na realidade objetiva. Se quisesse um grande amor, por exemplo, podia vivê-lo sob a pele de uma de suas criaturas. Não sofreria, salvo fosse sua escolha, já que detinha consigo toda criação.
Sabia que não era feliz. Mas por que haveria de ser? Era poderoso! Ditava choro e riso. Não os seus. Esses eram dispensáveis, omissos. Afinal, não era gente como toda gente. Era escritor.
Só mais um escritor.

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