Xaropar é se preocupar demais. É problematizar situações antes mesmo que se constituam os fatos. É mexer no que está quieto, se precipitar. Xaropar é ponderar e investigar toda e qualquer ação que seja de cunho subjetivo. E quase toda ação (pra não dizer toda) provinda de um sujeito é subjetiva. Xaropar é ser autoagressivo. É se martirizar com muita, mas muita antecedência.
Em meu próprio caso, tento compreender as formas que ultimamente me delineiam enquanto indivíduo. Elas se transformam. E essas transformações são abruptas demais, constantes demais. Logo que me emancipo num aspecto, me fragilizo por completo noutro. São formas desenhadas com traços tênues que se misturam facilmente ao mundo, mesclando figura e fundo. Mas que porra é essa?
Talvez não devesse despender de tanta reflexão, de um esforço tão denso para assuntos de ordem relativamente superficial. Desaprendi a "deixar rolar".
Dessa vez é certo que o conflito está em mim. Bem melhor ter essa certeza e, consequentemente, manter a comunicação de mim para comigo. Não existe nenhum objeto externo que mereça o fardo de compartilhar minhas angústias.
Capaz ser tudo fruto desse ócio maldito. Esse ócio que se iniciou como queda da produtividade e, finalmente, se instaurou por completo outra vez. E de novo recai sobre mim a culpa e o desespero por, supostamente, rascunhar a vida.
Talvez exista uma necessidade intrínseca, absoluta por uma fase de introspecção pela qual não quero me submeter. Por que? Por medo, simplesmente. E se ao meu despertar, todos tiverem ido embora? Aliás, todos quem, afinal? Sob uma ótica mais realista, racional e, despropositadamente cruel, nunca houve ninguém e nem nunca haverá.
Do leque de sistemas que permeiam minha modesta existência, não vejo algo que esteja propriamente fora do lugar. Mas ainda assim, está tudo fora de ordem. Estou intimamente ligada ao fantasma de uma crise que já não tem mais causa.
Em todos nós habita um buraco. Temos a opção de preenchê-lo ou deixá-lo aberto para as eventualidades. Transito por essas opções. Honestamente, estou tentando largar-me ao acaso. Mas existe uma ansiedade corrosiva. Aquela apressada corrida rumo ao nada, já citada diversas vezes.
Feliz de quem consegue operar de fato no nível operacional. Feliz de quem consegue ser. De quem consegue somente ser.
segunda-feira, 19 de agosto de 2013
domingo, 4 de agosto de 2013
Erotomaníaca (Inspirado em ''À la folie... pas du tout'')
Estava mais do que certa sobre ele ser louco por ela. Por que haveria de dar tantos sinais caso fosse mentira?
Mas claro que ele jamais admitiria às claras, ela pensava. Tamanha era sua importância, vistosa era sua carreira. Um acadêmico cheio de estofo, de fala prolixa, de conhecimento exímio, digno de seu título. Doutor. Ah, doutor!
Já ela era apenas uma aluna que acabara de iniciar sua jornada em busca do primeiro canudo. Mas dormia todas as noites com a certeza de que era consigo que o professor de neurofisiologia estava prestes a se casar.
Durante as aulas, ele fixava o olhar em seu rosto. Era como se quisesse dar a ela uma aula particular. Tão dispensáveis eram os outros jovens, a sala de aula, a universidade e o seu emprego. Importante mesmo era ela. A atenção dela, a ternura com a qual prestava atenção em cada uma de suas palavras.
E ela, muito dedicada e compreensiva, sempre o perdoava por não responder seus recados. Sabia que ele padecia de vontade de escrever dezenas de cartas, entregar incontáveis presentes e até quem sabe cantar, ao pé de seu ouvido, sua canção preferida. Mas não podia! E indubitavelmente sofria por essa razão.
Não conversava com quase ninguém a respeito de seu romance. A quem tentou confessar, não creu. Para ela, isto significava inveja. Lógico que não creriam! Não havia qualquer outra no campus que não amaria trocar de lugar com ela.
E assim ia levando os dias. Tecendo minuciosamente cada detalhe de seu futuro com seu amado professor.
E ele? Bem, ele gostava dela. Considerava-a excelente aluna. Não lembrava ao certo qual era seu nome, já que não era dos mais comuns. Além do mais, era demasiadamente ocupado para conseguir memorizar os nomes de tantos alunos. Ministrava suas aulas durante o dia e também a noite. Participava de inúmeras bancas, orientava muitas pesquisas. As vezes, encontrava-se sem tempo até mesmo para apreciar a companhia da esposa e dos filhos. Mas era feliz. Incontestavelmente feliz.
Vez ou outra, ficava um pouco assustado com a desmedida dedicação da menina, pois esta escrevia extensos artigos sobre anatomia cerebral, desenhava complexos esquemas do sistema nervoso e sabia mais do que qualquer outro aluno sobre neurônios e sinapses. Além de contemplar o hábito demodé de presenteá-lo com maçãs quase todos os dias.
Mas, de forma bastante generalista, ficava orgulhoso quando percebia a admiração saltar dos rostos de seus alunos. Embora o que mais contasse era a satisfação em poder deixar para o mundo o seu legado.
O que ele não sabia é que no caso dela, não se tratava de admiração. Era amor, era paixão, era erotomania.
Mas claro que ele jamais admitiria às claras, ela pensava. Tamanha era sua importância, vistosa era sua carreira. Um acadêmico cheio de estofo, de fala prolixa, de conhecimento exímio, digno de seu título. Doutor. Ah, doutor!
Já ela era apenas uma aluna que acabara de iniciar sua jornada em busca do primeiro canudo. Mas dormia todas as noites com a certeza de que era consigo que o professor de neurofisiologia estava prestes a se casar.
Durante as aulas, ele fixava o olhar em seu rosto. Era como se quisesse dar a ela uma aula particular. Tão dispensáveis eram os outros jovens, a sala de aula, a universidade e o seu emprego. Importante mesmo era ela. A atenção dela, a ternura com a qual prestava atenção em cada uma de suas palavras.
E ela, muito dedicada e compreensiva, sempre o perdoava por não responder seus recados. Sabia que ele padecia de vontade de escrever dezenas de cartas, entregar incontáveis presentes e até quem sabe cantar, ao pé de seu ouvido, sua canção preferida. Mas não podia! E indubitavelmente sofria por essa razão.
Não conversava com quase ninguém a respeito de seu romance. A quem tentou confessar, não creu. Para ela, isto significava inveja. Lógico que não creriam! Não havia qualquer outra no campus que não amaria trocar de lugar com ela.
E assim ia levando os dias. Tecendo minuciosamente cada detalhe de seu futuro com seu amado professor.
E ele? Bem, ele gostava dela. Considerava-a excelente aluna. Não lembrava ao certo qual era seu nome, já que não era dos mais comuns. Além do mais, era demasiadamente ocupado para conseguir memorizar os nomes de tantos alunos. Ministrava suas aulas durante o dia e também a noite. Participava de inúmeras bancas, orientava muitas pesquisas. As vezes, encontrava-se sem tempo até mesmo para apreciar a companhia da esposa e dos filhos. Mas era feliz. Incontestavelmente feliz.
Vez ou outra, ficava um pouco assustado com a desmedida dedicação da menina, pois esta escrevia extensos artigos sobre anatomia cerebral, desenhava complexos esquemas do sistema nervoso e sabia mais do que qualquer outro aluno sobre neurônios e sinapses. Além de contemplar o hábito demodé de presenteá-lo com maçãs quase todos os dias.
Mas, de forma bastante generalista, ficava orgulhoso quando percebia a admiração saltar dos rostos de seus alunos. Embora o que mais contasse era a satisfação em poder deixar para o mundo o seu legado.
O que ele não sabia é que no caso dela, não se tratava de admiração. Era amor, era paixão, era erotomania.
sexta-feira, 2 de agosto de 2013
O que caralhos você está fazendo aqui?
Idolatrar o Poder pode parecer obsoleto. Mas não pra mim. Sempre funciona comigo, até mesmo nos mais frágeis símbolos.
Aliás, quão débil sou eu diante de qualquer porra de imagem pseudo-autoritária? Com exceção da divina, porque é sempre um passatempo duplamente excitante blasfemar contra Deus. Em primeiro porque nem mesmo acredito que exista e em segundo porque nos lapsos de crença surge aquele prazer ignóbil em desautorizar a entidade suprema. Infantil, confesso. Porém, inenarravelmente sincero.
Eu que me afundo em combustível oriundo de uma imaginação profana, descomungo a mim mesma da ordem moral toda vez que me surge algum pensamento a seu respeito. Não é todo mundo que desperta em mim o lado sórdido. E atente para o fato de que sequer te conheço.
Mas, como não ser boa, como não ser fofa, como não ser delicada e reverente à uma verdadeira ameaça? É, eu me afundo. E digo mais: Não me importo nada. Me afundo e não nado de volta à superfície. Não, não sei fazer jogo duro, tampouco aprendi a esconder o jogo. Despejo o deck sobre a mesa, já que dessa aposta não perco e nem levo nada.
O que será que é você? O que caralhos você está fazendo aqui?
Se veio por bem, espero que fique mais. Se foi por mal, então foi um mal necessário. Deveras necessário. Substituível, porém indispensável. Porque no final das contas o trabalho de destroçar meus tabus acabou ficando por sua conta. Por sua conta e meu risco. Mas eu assumi os riscos desde o início.
Então, sei lá. Valeu aí, de verdade mesmo.
Aliás, quão débil sou eu diante de qualquer porra de imagem pseudo-autoritária? Com exceção da divina, porque é sempre um passatempo duplamente excitante blasfemar contra Deus. Em primeiro porque nem mesmo acredito que exista e em segundo porque nos lapsos de crença surge aquele prazer ignóbil em desautorizar a entidade suprema. Infantil, confesso. Porém, inenarravelmente sincero.
Eu que me afundo em combustível oriundo de uma imaginação profana, descomungo a mim mesma da ordem moral toda vez que me surge algum pensamento a seu respeito. Não é todo mundo que desperta em mim o lado sórdido. E atente para o fato de que sequer te conheço.
Mas, como não ser boa, como não ser fofa, como não ser delicada e reverente à uma verdadeira ameaça? É, eu me afundo. E digo mais: Não me importo nada. Me afundo e não nado de volta à superfície. Não, não sei fazer jogo duro, tampouco aprendi a esconder o jogo. Despejo o deck sobre a mesa, já que dessa aposta não perco e nem levo nada.
O que será que é você? O que caralhos você está fazendo aqui?
Se veio por bem, espero que fique mais. Se foi por mal, então foi um mal necessário. Deveras necessário. Substituível, porém indispensável. Porque no final das contas o trabalho de destroçar meus tabus acabou ficando por sua conta. Por sua conta e meu risco. Mas eu assumi os riscos desde o início.
Então, sei lá. Valeu aí, de verdade mesmo.
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