Este vento que sopra hoje gélido e intenso traz consigo sonhos traçados há um tempo longínquo. Suficientemente remoto para ser esquecido. Mas quando o caos se instaura, se faz necessário cavar a alma até suas vísceras. Ou mais do que isso: Até o núcleo da célula do espírito, onde está inscrito o código da felicidade.
E foi no ato destrutivo de me afundar de uma só vez nas infindas lamentações e desgraças de uma vida sem propósito é que tive de encarar, já quase que sem forças, uma estrutura amorfa, desconhecida, perigosa e amedrontadora: o vazio existencial.
Como já era sabido pelos povos antigos, é do caos que surge a organização. Organização esta que nomeia os sentimentos, que dá sentido aos desejos, que determina o lócus dos sonhos mais insanos e descabidos, que concede papéis às pessoas e que acima de tudo devolve o amor próprio.
Dar sentido à existência é tarefa árdua e dinâmica. Seu dinamismo se dá ao passo que uma razão para a vida não satisfaz o vazio definitivamente. Significar esta lacuna existente entre vida e morte consiste em atualizar os motivos para estar vivo a cada segundo vivido.
E são estes novos ares que me felicitam de verdade. Estes que trazem esperança, estes que sopram belas imagens de um futuro alcançável, não tão distante. Estes que me imprimem pequenos bons momentos. Que me dão a graça de ouvir cantar um pássaro pela manhã ao abrir a janela do quarto. Que me presenteiam com a simplicidade de sentar na poltrona do ônibus, num dia ensolarado e bonito, enquanto escuto minha canção favorita nos fones de ouvido e por este pretexto, sorrio. Sorrio sem grandes precedentes, sorrio verdadeiramente.
sexta-feira, 24 de maio de 2013
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Um monólogo esquizofrênico de mim comigo mesma
-Ei
-Ei...
- Como você chegou até aí? Sabe, sei lá... você tem tantos amigos. Sua vida parece legal. Me contaram que você tem até um amor eternizado em seu peito..
- Não é assim, dessa forma tão banal quanto você vê e fala. Primeiro que não foi por acaso que vim parar onde estou. E já te adianto que foi um caminho ardiloso.
- Não parece. Você é tão diferente de mim.
- Sim. Inclusive não sou capaz de muita coisa que você é.
- Eu? Mas eu sou infeliz. As pessoas me perturbam na escola. Ninguém é fã de Ramones ou de punk rock. Somente eu. Na maior parte do tempo, eu estou sozinha.
- Quando chegar aqui, verá que esse era o menor de seus problemas, e torcerá por exclusividade. Por ser diferente dos outros. Você também lamentará pelo tempo em que pôde ficar sozinha e administrar seus próprios sentimentos, sem depender de ninguém. Verá que nunca deveria ter deixado o teatro, tampouco a guitarra.
- Mas por que você deixou?
- Porque comecei a priorizar não o que tinha, mas o que me faltava. E isso implica em ingratidão, em falta de reconhecimento, de autoestima... Se paga um preço alto para ter tudo isso que você almeja hoje.
- Mas não estou querendo nada demais. Só quero que minha vida seja legal como a sua. Quero poder sair aos fins de semana com amigos de verdade, quero poder experimentar as bebidas que você bebe, quero ter uma família normal, um namorado que me ame. Isso não é muito.
- A mãe que você tem hoje, eu não trocaria por nada. Ela é bastante imperfeita e eu sei disso. Ela erra, ela é bem chata às vezes, mas ela te ama independente e acima de qualquer coisa nessa vida. Tudo que você imaginar. O problema dela é não ter nada em que se agarrar. No dia em que ela te perder, ela não terá mais qualquer razão para continuar viva.
- Não acredito nisso que fala. Ela não se importa comigo. Aliás, você está me privando de querer me parecer com você e eu não entendo o motivo.
- Sabe, você devia atentar-se ao que digo e não ao que sou ou faço. Se seguir por este caminho, vai sofrer. Vai perder convicções, vai deixar que te moldem, que te ditem o que fazer. Vai perder pessoas as quais poderiam vir a ser grandes amigos. Vai gastar muito tempo presa a ideia de que é necessário ter alguém em quem você coloque sua felicidade. O que é preciso fazer para que você saiba desde já que seu sucesso só depende de você?
- Nada do que você me diz faz sentido. Olhe para você. Você é a pessoa mais livre e autossuficiente que eu conheço. Não tem ninguém que te obrigue a nada. Tem o mundo em suas mãos e as pessoas aos seus pés. Você vai ser psicóloga. Não há nada nesse mundo que você não possa decifrar. Independente de como o consegue, você tem seu próprio dinheiro. Você pode usar uma roupa diferente todos os dias. Você tem um computador com acesso à internet. Pode andar sozinha de ônibus, pode passar a madrugada inteira fora de casa, viajar pra outro estado... TUDO. Você pode tudo. Sua vida nunca para, você nunca está sozinha ou entediada. Agora olhe só para mim. Tudo que tenho é esse CD player onde toco meus álbuns do Ramones e meu violão que mal sei tocar. Estou fadada a todos os dias esperar que o tempo passe pra que as aulas comecem e eu nunca posso fazer NADA. Passo horas devaneando sobre o que está acontecendo no mundo lá fora. Vejo gente feliz, se divertindo, gente amando e sendo correspondida. Vejo tudo isso, porém somente em minha cabeça.
- Menina, não seja tão fútil. Ser autossuficiente hoje, pra mim, é demérito. Não sou por escolha e sim por ser forçada a ser. Ninguém me obriga a nada porque também ninguém espera mais nada de mim. Meu dinheiro não é meu, já que não é conquistado com meus esforços. Posso hoje peregrinar por esse mundo que tanto te suscita curiosidade e inveja, mas se pudesse, passaria mais tempo no quarto, ouvindo meus álbuns.
- E por que não o faz então?
- Porque não suporto ficar sozinha.
- Viu? Eu te disse que é ruim.
-Sim, nunca disse que não era. No entanto, você é capaz, você fica. Eu não. Enquanto que seu medo é perder o que se passa lá fora, o meu é perder o que se passa aqui dentro de mim.
- Já chega, não faz mais sentido te ouvir. Diga o que quiser que eu continuarei desejando ser igualzinha a você.
Mas se puder, por favor, apenas me explique por qual motivo tenta me desiludir.
- Não tento te desiludir. Estou tentando salvá-la.
- Me salvar? Como assim? Quem diabos você pensa que é?
- Eu sou você.
-Ei...
- Como você chegou até aí? Sabe, sei lá... você tem tantos amigos. Sua vida parece legal. Me contaram que você tem até um amor eternizado em seu peito..
- Não é assim, dessa forma tão banal quanto você vê e fala. Primeiro que não foi por acaso que vim parar onde estou. E já te adianto que foi um caminho ardiloso.
- Não parece. Você é tão diferente de mim.
- Sim. Inclusive não sou capaz de muita coisa que você é.
- Eu? Mas eu sou infeliz. As pessoas me perturbam na escola. Ninguém é fã de Ramones ou de punk rock. Somente eu. Na maior parte do tempo, eu estou sozinha.
- Quando chegar aqui, verá que esse era o menor de seus problemas, e torcerá por exclusividade. Por ser diferente dos outros. Você também lamentará pelo tempo em que pôde ficar sozinha e administrar seus próprios sentimentos, sem depender de ninguém. Verá que nunca deveria ter deixado o teatro, tampouco a guitarra.
- Mas por que você deixou?
- Porque comecei a priorizar não o que tinha, mas o que me faltava. E isso implica em ingratidão, em falta de reconhecimento, de autoestima... Se paga um preço alto para ter tudo isso que você almeja hoje.
- Mas não estou querendo nada demais. Só quero que minha vida seja legal como a sua. Quero poder sair aos fins de semana com amigos de verdade, quero poder experimentar as bebidas que você bebe, quero ter uma família normal, um namorado que me ame. Isso não é muito.
- A mãe que você tem hoje, eu não trocaria por nada. Ela é bastante imperfeita e eu sei disso. Ela erra, ela é bem chata às vezes, mas ela te ama independente e acima de qualquer coisa nessa vida. Tudo que você imaginar. O problema dela é não ter nada em que se agarrar. No dia em que ela te perder, ela não terá mais qualquer razão para continuar viva.
- Não acredito nisso que fala. Ela não se importa comigo. Aliás, você está me privando de querer me parecer com você e eu não entendo o motivo.
- Sabe, você devia atentar-se ao que digo e não ao que sou ou faço. Se seguir por este caminho, vai sofrer. Vai perder convicções, vai deixar que te moldem, que te ditem o que fazer. Vai perder pessoas as quais poderiam vir a ser grandes amigos. Vai gastar muito tempo presa a ideia de que é necessário ter alguém em quem você coloque sua felicidade. O que é preciso fazer para que você saiba desde já que seu sucesso só depende de você?
- Nada do que você me diz faz sentido. Olhe para você. Você é a pessoa mais livre e autossuficiente que eu conheço. Não tem ninguém que te obrigue a nada. Tem o mundo em suas mãos e as pessoas aos seus pés. Você vai ser psicóloga. Não há nada nesse mundo que você não possa decifrar. Independente de como o consegue, você tem seu próprio dinheiro. Você pode usar uma roupa diferente todos os dias. Você tem um computador com acesso à internet. Pode andar sozinha de ônibus, pode passar a madrugada inteira fora de casa, viajar pra outro estado... TUDO. Você pode tudo. Sua vida nunca para, você nunca está sozinha ou entediada. Agora olhe só para mim. Tudo que tenho é esse CD player onde toco meus álbuns do Ramones e meu violão que mal sei tocar. Estou fadada a todos os dias esperar que o tempo passe pra que as aulas comecem e eu nunca posso fazer NADA. Passo horas devaneando sobre o que está acontecendo no mundo lá fora. Vejo gente feliz, se divertindo, gente amando e sendo correspondida. Vejo tudo isso, porém somente em minha cabeça.
- Menina, não seja tão fútil. Ser autossuficiente hoje, pra mim, é demérito. Não sou por escolha e sim por ser forçada a ser. Ninguém me obriga a nada porque também ninguém espera mais nada de mim. Meu dinheiro não é meu, já que não é conquistado com meus esforços. Posso hoje peregrinar por esse mundo que tanto te suscita curiosidade e inveja, mas se pudesse, passaria mais tempo no quarto, ouvindo meus álbuns.
- E por que não o faz então?
- Porque não suporto ficar sozinha.
- Viu? Eu te disse que é ruim.
-Sim, nunca disse que não era. No entanto, você é capaz, você fica. Eu não. Enquanto que seu medo é perder o que se passa lá fora, o meu é perder o que se passa aqui dentro de mim.
- Já chega, não faz mais sentido te ouvir. Diga o que quiser que eu continuarei desejando ser igualzinha a você.
Mas se puder, por favor, apenas me explique por qual motivo tenta me desiludir.
- Não tento te desiludir. Estou tentando salvá-la.
- Me salvar? Como assim? Quem diabos você pensa que é?
- Eu sou você.
terça-feira, 7 de maio de 2013
Por demérito, sem título
Quão irresponsável você foi ao despertar um coração quieto, sendo que nunca teve a intenção de nutrir qualquer bom sentimento?
Como pôde tratar como nada o que poderia vir a tornar-se tudo? Fantasia que jamais existiria, não fosse você e suas mentiras sob o azul do céu e sobre a grama fria.
Toda rigidez uma hora desmorona, se tratada com doçura. Todo coração se aquece frente a um gesto verdadeiramente amigo.
Amigo? Podia ter sido. Ou até mais, se assim desejasse. Mas é deveras incompleto para andar ao lado de alguém, sem precisar estribar-se numa muralha de concreto, tijolos e segurança. Mesmo que feita de uma superfície fria e agourenta, está sempre aí, estática a te involucrar. Enquanto que ao ar livre, o mundo dança conforme o ritmo dos ventos desconhecidos.
Imatura a escolha de não assumir riscos.
Dentre os recortes de sorrisos, fico aqui tentando achar algum que tenha sido real.
Tateando todas as lembranças verifico se alguma merece ser preservada. Mas no final, acabam todas arremessadas ao fogo do esquecimento. Ordinárias chamas que consomem lentamente seu descaso.
Com que estômago me vem proferir a palavra? Com que coragem me sorri de cara lavada?
Me serve de consolo, que assim tão despreparado, a vida há de te ensinar muito com algumas bofetadas.
Como pôde tratar como nada o que poderia vir a tornar-se tudo? Fantasia que jamais existiria, não fosse você e suas mentiras sob o azul do céu e sobre a grama fria.
Toda rigidez uma hora desmorona, se tratada com doçura. Todo coração se aquece frente a um gesto verdadeiramente amigo.
Amigo? Podia ter sido. Ou até mais, se assim desejasse. Mas é deveras incompleto para andar ao lado de alguém, sem precisar estribar-se numa muralha de concreto, tijolos e segurança. Mesmo que feita de uma superfície fria e agourenta, está sempre aí, estática a te involucrar. Enquanto que ao ar livre, o mundo dança conforme o ritmo dos ventos desconhecidos.
Imatura a escolha de não assumir riscos.
Dentre os recortes de sorrisos, fico aqui tentando achar algum que tenha sido real.
Tateando todas as lembranças verifico se alguma merece ser preservada. Mas no final, acabam todas arremessadas ao fogo do esquecimento. Ordinárias chamas que consomem lentamente seu descaso.
Com que estômago me vem proferir a palavra? Com que coragem me sorri de cara lavada?
Me serve de consolo, que assim tão despreparado, a vida há de te ensinar muito com algumas bofetadas.
quarta-feira, 1 de maio de 2013
Obrigado por ousar
Desavisada das infinitas consequências, fitou certa familiaridade naqueles olhos opacos. Não sabia bem onde os tinha visto antes, mas habitava-lhe a certeza de que cedo ou tarde, aconteceria alguma coisa errada.
Certo seria o que afinal? Fingir que na sombra petulante daquele olhar não havia nada?
E como incomodava ser todos os dias premiada com algumas verdades ásperas e atrevidas daquele insolente ser.
No fundo sabia que ali havia muito medo. Sabia que lhe faltava compreensão e cuidado. Coisa que não cabia a ela consertar.
E era fato que ele precisava desarmar-se de suas rochosas convicções. Se exprimisse sua fragilidade, ela poderia ser sua mentora num universo repleto de oportunidades.
E bem que ela espreitava uma vau para conduzi-lo até seu mundo. Aquele que acreditava ser o único bom de verdade.
Confiava que podia protegê-lo dos eventuais males que o acometessem. Ela poderia supri-lo. Não em tudo, mas naquilo que mais lhe faltasse.
É que a perturbava a ideia de não retribuir àquela mão solidária que recebera dele próprio outrora. Pois embora ele soubesse disfarçar bem, era impossível esconder o tamanho de seu coração.
E ela inquietava-se com os mistérios de uma alma já trancafiada, porém pulsando para esvair-se por entre as brechas do acaso.
Se pudesse, pediria pra que ele se detivesse em deitar nos seus braços e se preocupasse apenas com os próprios machucados. Aqueles esquecidos, que ninguém nunca percebeu ou quis tratar.
Mas ainda que estivesse sempre lá, sempre presente, sempre bem disposta, presumia não haver muito espaço para ela dentro daquela cabecinha repleta de velhas opiniões formadas sobre tudo. Já que ela era, assumidamente, uma metamorfose ambulante.
Independentemente do que diziam as más línguas, ela tinha uma certeza: Ali com ele, sem importar a circunstância, ela era capaz de sentir. E era um novo sentir, pois já estava farta das nostálgicas sinfonias que insistiam em ressoar em seus ouvidos mnemônicos.
Importante mesmo, era que seu corpo estremecia ao contato com o dele. E o dele, mesmo que relutante, agradecia.
Certo seria o que afinal? Fingir que na sombra petulante daquele olhar não havia nada?
E como incomodava ser todos os dias premiada com algumas verdades ásperas e atrevidas daquele insolente ser.
No fundo sabia que ali havia muito medo. Sabia que lhe faltava compreensão e cuidado. Coisa que não cabia a ela consertar.
E era fato que ele precisava desarmar-se de suas rochosas convicções. Se exprimisse sua fragilidade, ela poderia ser sua mentora num universo repleto de oportunidades.
E bem que ela espreitava uma vau para conduzi-lo até seu mundo. Aquele que acreditava ser o único bom de verdade.
Confiava que podia protegê-lo dos eventuais males que o acometessem. Ela poderia supri-lo. Não em tudo, mas naquilo que mais lhe faltasse.
É que a perturbava a ideia de não retribuir àquela mão solidária que recebera dele próprio outrora. Pois embora ele soubesse disfarçar bem, era impossível esconder o tamanho de seu coração.
E ela inquietava-se com os mistérios de uma alma já trancafiada, porém pulsando para esvair-se por entre as brechas do acaso.
Se pudesse, pediria pra que ele se detivesse em deitar nos seus braços e se preocupasse apenas com os próprios machucados. Aqueles esquecidos, que ninguém nunca percebeu ou quis tratar.
Mas ainda que estivesse sempre lá, sempre presente, sempre bem disposta, presumia não haver muito espaço para ela dentro daquela cabecinha repleta de velhas opiniões formadas sobre tudo. Já que ela era, assumidamente, uma metamorfose ambulante.
Independentemente do que diziam as más línguas, ela tinha uma certeza: Ali com ele, sem importar a circunstância, ela era capaz de sentir. E era um novo sentir, pois já estava farta das nostálgicas sinfonias que insistiam em ressoar em seus ouvidos mnemônicos.
Importante mesmo, era que seu corpo estremecia ao contato com o dele. E o dele, mesmo que relutante, agradecia.
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