sábado, 6 de agosto de 2016

Voz às filhas marginais

Dilacera a carne o ódio que cresce no seio de toda mulher que percebe no ventre a causa da sua cólera. O privilégio de quem nasceu sem o fardo do partejo, do cuidado, do ato de amar irrestrito (remetido aos seus ímpares mas nunca às suas pares) me desperta o desejo aversivo de atirar meu corpo mole, sem padrão, excessivamente adiposo sobre os escombros dessa retórica falida que não cabe mais em nenhum lugar por fora, mas corrói tudo à todas por dentro.
Mulher  que presta é mulher mãe, mulher servil, mulher mãe de macho, mulher esposa, suicida das próprias vontades. O filho sagrado, é prodígio. A filha é desastre, é descuido, é digressão aos demônios nunca expurgados.  Há chance de realizar-se por entre as entranhas das próprias filhas satisfeitas pela liberdade que é concessão geracional, fruto de briga, marginalidade? Não, jamais. À filha a inveja, o descaso, a emulação. Estas putas que vos falam nunca serão como vós óh Santa Madre cheia de graça... O senhor é convosco e maldita é a sua voz entre as mulheres. Porque tu, ó santa, cuja santidade evoca o consolo do falo, deixaste as tuas iguais por estas migalhas patriarcais. 

Que alto preço se paga por essa vil tolerância disfarçada de bondade. 

terça-feira, 26 de julho de 2016

Trauma

Quando a letra espremida quer rasgar o papel,
quando ouço sua voz e não sei como me sinto,
quando acendo um cigarro sem pensar...
É porque o medo de te perder
se depravou em medo
de me perder de mim,
e me encontrar em você.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Tempos de agora

Coração pulsando atrás do relógio,
aceleração disfarçada de ansiedade,
fuga à imersão, polissemia à vontade.
E se todos os medos se rebelassem desejos refreados?
E se ódio somente fosse o amor marginalizado?
E se na desinformação deformada das horas,
tempo nenhum fosse realidade
se não o agora?







sábado, 30 de abril de 2016

Qué querê

Rir sem compromisso
Desnudar o teu ridículo
Amolecer o peito rijo
Deixar viver

Esmorecer a tua raiva
Pulsar descontrolada
A euforia dessa alma
que só quer querer 

terça-feira, 26 de abril de 2016

Véus de seda

Por trás do retrato há a história que ninguém ouviu. Nas entrelinhas da narrativa breve e mesquinha há o universo das sensações que só quem esteve presente sentiu. Por entre os lábios maquiados, o desejo de se flagrar visto por olhares súbitos, elogios desavisados. 
Ao léu, vagam os defeitos. Não há quem os queira abraçar, envolvê-los junto ao peito.
A espontaneidade foge aos dedos, se desgarra de uma alma que deseja - em segredo - ser nada além dela mesma; mas que no mundo dos fantasmas perfeitos, se encobre em véus de seda.

terça-feira, 15 de março de 2016

Contramaníaco

Não compito, tolero.
Se consigo, coopero.
Mas pra gozar
do acaso do destino
abro mão do ego.

Não, não faço juízo
esbravejar sem armas
é delírio risível.

Deliro em grandes sonhos
daqueles que se disfarçam
de ínfimos desejos mundanos.

Dispenso os adornos
sou humana em estado bruto
despindo-me até a essência
que rebenta na pura vivência
de cada instante ininterrupto. 




sábado, 12 de março de 2016

Alteridade

Encontro nos desencontros
esse encontro de contrários
residente no arbitrário 
desse descompasso 
Dos inversos 
despontam
estes versos
e desapontam
os que não veem-se
no outro
o reflexo
do outro lado.



segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Pedido de alta

Não me reduza ao seu normal estéril e incompetente
Não me injete estigmas nas veias,
pra remediar o sintoma da existência
Não torne fantasma o que em mim tenho tão vívido
Se chamam-me insensata é por insano medo
da vulgar insensatez
Esse louco medo que só se esvaece
Quando do ego se esquece
No descarrilar do trem do juízo.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

Pôr do Sol

Você visão, eu palavras
Você mundão, eu em casa
Eu teoria, você prática
Eu razão, você empático
Você ação, eu estática
Eu que não quis olhar o sol cair. Eu que calei minhas palavras roucas...
Eu que não pude prever que a energia que produz o choque entre nossos universos é motriz que aproxima nossas bocas.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Geografia


Subitamente me vi espiando os retratos que compõem a geografia da vida.
O quadro das ondas que se quebram sob o céu alaranjado do crepúsculo. A cartografia dos corpos dos amores antigos: seus rios, seus limites, as fronteiras e os contornos que ficaram salvoguardados na lembrança. O encontro do avião e das embarcações - em foco e na mesma composição - na Ponte Rio-Niterói. A expressão dos índices de natalidade estampada na frivolidade do choro de uma criança que irrompe no silêncio da noite.  As vozes de uma multidão de operários nas ruas, reivindicando greve geral, perpetrando revolução. A descoberta de que da nossa perspectiva latino-americana, nosso norte é ao sul, mas enquanto brasileiros, resistimos junto ao Nordeste-Norte. E da perspectiva mundial, nós da América de baixo, de mãos dadas a mãe África, já bem surrados, estamos lançados à própria sorte. Nós, a periferia da esfera a que chamamos Terra, avançamos e resistimos sem passaporte. 

(des)construção e (r)existência


A mente, violentadaemudece a boca. As denúncias sufocadas, os protestos inofensivos,
a sanidade abalada.
O medo aduba a imaginação, semeia campos onde brotam sementes medrosas.
Os ouvidos são sensíveis, surdos à razão. Os olhos duvidam.
Rompem-se as fronteiras, misturam-se as frequências, vida que sai dos trilhos.
No limbo do sistema límbico vozes algozes disparam contra os tímpanos.
Vieram de dentro? Estão do lado de fora?  Infiltraram-se os de fora para enfrentar os de dentro?
Um exército de dúvidas golpeia as asserções, tombam a sentinela, a rendição está completa.
Nos escombros das batalhas, redenção: Um suspiro, alívio. Resiliência.
Renasci. Luto com resignação contra os lutos que carrego de mim. Agradeço a quem fui, por ser hoje quem eu sou e por poder continuar aqui.