Dilacera a carne o ódio que cresce no seio de toda mulher que percebe no ventre a causa da sua cólera. O privilégio de quem nasceu sem o fardo
do partejo, do cuidado, do ato de amar irrestrito (remetido aos seus ímpares
mas nunca às suas pares) me desperta o desejo aversivo de atirar meu corpo
mole, sem padrão, excessivamente adiposo sobre os escombros dessa retórica falida
que não cabe mais em nenhum lugar por fora, mas corrói tudo à todas por dentro.
Mulher que presta é mulher mãe, mulher
servil, mulher mãe de macho, mulher esposa, suicida das próprias vontades. O
filho sagrado, é prodígio. A filha é desastre, é descuido, é digressão aos
demônios nunca expurgados. Há chance de
realizar-se por entre as entranhas das próprias filhas satisfeitas pela liberdade
que é concessão geracional, fruto de briga, marginalidade? Não, jamais. À filha
a inveja, o descaso, a emulação. Estas putas que vos falam nunca serão como vós
óh Santa Madre cheia de graça... O senhor é convosco e maldita é a sua voz entre as mulheres. Porque tu, ó santa, cuja santidade evoca o consolo do falo, deixaste as tuas iguais por estas migalhas patriarcais.
Que alto preço se paga por essa vil tolerância disfarçada
de bondade.
sábado, 6 de agosto de 2016
terça-feira, 26 de julho de 2016
Trauma
Quando a letra espremida quer rasgar o papel,
quando ouço sua voz e não sei como me sinto,
quando acendo um cigarro sem pensar...
É porque o medo de te perder
se depravou em medo
de me perder de mim,
e me encontrar em você.
quando ouço sua voz e não sei como me sinto,
quando acendo um cigarro sem pensar...
É porque o medo de te perder
se depravou em medo
de me perder de mim,
e me encontrar em você.
quarta-feira, 29 de junho de 2016
quarta-feira, 22 de junho de 2016
Tempos de agora
Coração pulsando atrás do relógio,
aceleração disfarçada de ansiedade,
fuga à imersão, polissemia à vontade.
E se todos os medos se rebelassem desejos refreados?
E se ódio somente fosse o amor marginalizado?
E se na desinformação deformada das horas,
tempo nenhum fosse realidade
se não o agora?
aceleração disfarçada de ansiedade,
fuga à imersão, polissemia à vontade.
E se todos os medos se rebelassem desejos refreados?
E se ódio somente fosse o amor marginalizado?
E se na desinformação deformada das horas,
tempo nenhum fosse realidade
se não o agora?
sábado, 30 de abril de 2016
Qué querê
Rir sem compromisso
Desnudar o teu ridículo
Amolecer o peito rijo
Deixar viver
Esmorecer a tua raiva
Pulsar descontrolada
A euforia dessa alma
que só quer querer
Desnudar o teu ridículo
Amolecer o peito rijo
Deixar viver
Esmorecer a tua raiva
Pulsar descontrolada
A euforia dessa alma
que só quer querer
terça-feira, 26 de abril de 2016
Véus de seda
Por trás do retrato há a história que ninguém ouviu. Nas entrelinhas da narrativa breve e mesquinha há o universo das sensações que só quem esteve presente sentiu. Por entre os lábios maquiados, o desejo de se flagrar visto por olhares súbitos, elogios desavisados.
Ao léu, vagam os defeitos. Não há quem os queira abraçar, envolvê-los junto ao peito.
A espontaneidade foge aos dedos, se desgarra de uma alma que deseja - em segredo - ser nada além dela mesma; mas que no mundo dos fantasmas perfeitos, se encobre em véus de seda.
A espontaneidade foge aos dedos, se desgarra de uma alma que deseja - em segredo - ser nada além dela mesma; mas que no mundo dos fantasmas perfeitos, se encobre em véus de seda.
terça-feira, 15 de março de 2016
Contramaníaco
Não compito, tolero.
Se consigo, coopero.
Mas pra gozar
do acaso do destino
abro mão do ego.
Não, não faço juízo
esbravejar sem armas
é delírio risível.
Deliro em grandes sonhos
daqueles que se disfarçam
de ínfimos desejos mundanos.
Dispenso os adornos
sou humana em estado bruto
despindo-me até a essência
que rebenta na pura vivência
de cada instante ininterrupto.
Se consigo, coopero.
Mas pra gozar
do acaso do destino
abro mão do ego.
Não, não faço juízo
esbravejar sem armas
é delírio risível.
Deliro em grandes sonhos
daqueles que se disfarçam
de ínfimos desejos mundanos.
Dispenso os adornos
sou humana em estado bruto
despindo-me até a essência
que rebenta na pura vivência
de cada instante ininterrupto.
sábado, 12 de março de 2016
Alteridade
Encontro nos desencontros
esse encontro de contrários
residente no arbitrário
desse descompasso
Dos inversos
despontam
estes versose desapontam
os que não veem-se
no outro
o reflexo
do outro lado.
segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Pedido de alta
Não me reduza ao seu normal estéril e incompetente
Não me injete estigmas nas veias,
pra remediar o sintoma da existência
Não torne fantasma o que em mim tenho tão vívido
Se chamam-me insensata é por insano medo
da vulgar insensatez
Esse louco medo que só se esvaece
Quando do ego se esquece
No descarrilar do trem do juízo.
Não me injete estigmas nas veias,
pra remediar o sintoma da existência
Não torne fantasma o que em mim tenho tão vívido
Se chamam-me insensata é por insano medo
da vulgar insensatez
Esse louco medo que só se esvaece
Quando do ego se esquece
No descarrilar do trem do juízo.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016
Pôr do Sol
Você visão, eu palavras
Você mundão,eu em casa
Eu teoria, você prática
Eu razão, você empático
Você ação, eu estática
Eu que não quis olhar o sol cair. Eu que calei minhas palavras roucas...
Eu que não pude prever que a energia que produz o choque entre nossos universos é motriz que aproxima nossas bocas.
Você mundão,
Eu teoria, você prática
Eu razão, você empático
Você ação, eu estática
Eu que não quis olhar o sol cair. Eu que calei minhas palavras roucas...
Eu que não pude prever que a energia que produz o choque entre nossos universos é motriz que aproxima nossas bocas.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016
Geografia
Subitamente me vi espiando os retratos que compõem a geografia da vida.
O quadro das ondas que se quebram sob o céu alaranjado do crepúsculo. A cartografia dos corpos dos amores antigos: seus rios, seus limites, as fronteiras e os contornos que ficaram salvoguardados na lembrança. O encontro do avião e das embarcações - em foco e na mesma composição - na Ponte Rio-Niterói. A expressão dos índices de natalidade estampada na frivolidade do choro de uma criança que irrompe no silêncio da noite. As vozes de uma multidão de operários nas ruas, reivindicando greve geral, perpetrando revolução. A descoberta de que da nossa perspectiva latino-americana, nosso norte é ao sul, mas enquanto brasileiros, resistimos junto ao Nordeste-Norte. E da perspectiva mundial, nós da América de baixo, de mãos dadas a mãe África, já bem surrados, estamos lançados à própria sorte. Nós, a periferia da esfera a que chamamos Terra, avançamos e resistimos sem passaporte.
O quadro das ondas que se quebram sob o céu alaranjado do crepúsculo. A cartografia dos corpos dos amores antigos: seus rios, seus limites, as fronteiras e os contornos que ficaram salvoguardados na lembrança. O encontro do avião e das embarcações - em foco e na mesma composição - na Ponte Rio-Niterói. A expressão dos índices de natalidade estampada na frivolidade do choro de uma criança que irrompe no silêncio da noite. As vozes de uma multidão de operários nas ruas, reivindicando greve geral, perpetrando revolução. A descoberta de que da nossa perspectiva latino-americana, nosso norte é ao sul, mas enquanto brasileiros, resistimos junto ao Nordeste-Norte. E da perspectiva mundial, nós da América de baixo, de mãos dadas a mãe África, já bem surrados, estamos lançados à própria sorte. Nós, a periferia da esfera a que chamamos Terra, avançamos e resistimos sem passaporte.
(des)construção e (r)existência
O medo aduba a imaginação, semeia campos onde brotam sementes medrosas.
Os ouvidos são sensíveis, surdos à razão.
Rompem-se as fronteiras, misturam-se as frequências, vida que sai dos trilhos.
No limbo do sistema límbico vozes algozes disparam contra os tímpanos.
Vieram
Um exército de dúvidas golpeia as asserções, tombam a sentinela, a rendição está completa.
Nos escombros das batalhas, redenção: Um suspiro, alívio. Resiliência.
Renasci. Luto com resignação contra os lutos que carrego de mim. Agradeço a
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