domingo, 27 de setembro de 2015

Roots na Luz

Estação da Luz, mar de gente, áurea confusa. O trem estaca na plataforma, um cânone dissonante de centenas de vozes desconhecidas emerge de dentro dos vagões. O aspecto anacrônico da arquitetura suscita o espectro de um passado mais ou menos distante engastado na gente. Progresso, metais, indústria, exploração.
A praça é clara, muda. Os desavisados transitam sem notar o burburinho dos esquecidos. A sociedade ė surda.
Outro desembarque, outra onda se arma. Nadamos contra a corrente, na multidão profusa. Convicção certeira, invocação do bem a nossa maneira.
Nossos coletes são escudos e no meio disso tudo somente uma certeza: somos nós que construímos o mundo!
Que Jah nos proteja.



Texto dedicado aos meus companheiros de trabalho. Equipe Roots <3>

Estrela cadente

Sinto uma velhice que não vem dos anos e tampouco me pertence. Uma esperteza prescindível, cansativa.
Meus pensametos contém rugas, experiências que não são minhas.
Algo me fora furtado e uma vez violado o antigo lugar intocado da esperança não se recupera jamais.
Não há tempo que conserte o vazio que deixa uma fantasia desmistificada. Não há fuga que se trace dessa melancolia descomedida.
Reivindico a inocência que pelas experiências me fora tomada. Renego o devir dessa maturidade.
Sou estrela cadente que se perde na queda, cadenciando um ritmo decadente na imensidão do nada.


segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Natureza

És tão grande que me abraça na simplicidade de um agora interminável, como o agora deve ser. Destrói a ilusão do tempo pra devolver a presença que a civilização nos furtou.
Anseio te louvar em palavras, sou filha tua tentando subverter teu desígnio que é me fazer pedaço, no espaço -sem baliza-  integrante de um corpo consciente sobre cada desdobramento de sua consciência. Hoje, consciente de sua concessão à  minha própria consciência, me rendo e te abraço de volta, emudecida nos gestos e com a boca calada.
És tão sagrada que me revela que a alma é uma entidade sem idade, conduzindo uma matéria reduzida pela duração. Resistimos através dos séculos, numa busca interminável pelo nosso lugar. Temos legitimidade pra existir caso haja confluência aos seus sinais e propósitos. Peço licença pra aprender com a dissolução dos rancores e consolidar a fé em ser, sem representar.
Ao religar-me ao teu ventre, conecto-me com o meu e entendo a graça do surgimento da vida. Traduzo o mundo sob o olhar das crianças. Quantas dezenas de milhares de verdades carregam as risadas frouxas, os olhares curiosos, os poros que tangem cada milímetro do universo palpável?
Quem sou então, para interpelar a significância dos grilhões da existência? Que sentido teria a vida, se não viver?