No quarto havia roupas pelo avesso jogadas no chão, um cinzeiro que ele não limpava há dias, uma caixa de pizza vazia. Tão vazia quanto sua própria vida.
Já tinha um tempo que as coisas não corriam bem. Havia contas a pagar, compromissos a honrar, mas isso já não importava mais, dali pra frente nada importaria mais.
Uma doença o acometia e com ela vinha a depressão e a desistência de existir.
Decidiu evitar o tratamento médico. Se tinha que usar drogas, que fossem ao menos as de sua preferência ao invés das receitadas pelo cara de jaleco.
Não parecia correto nem justo morrer tão jovem. No entanto, sua morte não parecia ser de todo mal. As pessoas o lembrariam como um herói. Um pobre herói... Miserável, covarde, mas ainda assim um herói. E dessa forma, talvez fosse mais querido do que enquanto vivo.
Deitado na cama, tinha todas as lembranças bem vívidas em sua cabeça embora mescladas a outras imagens e ideias que provinham de sua insanidade.
Via a si mesmo há alguns anos atrás, rindo, enaltecido pela música alta e as luzes coloridas no seu rosto. Deve ter sido naquela época que alguém lhe ofereceu a felicidade em forma de pílulas. Esse alguém esqueceu-se de mencionar que essa felicidade era breve e forjada.
Não existiam mais medos, não existiam mais anseios. Seu único receio era que a morte tardasse a visitá-lo. Mas havia uma voz interior que sempre o recordava de que era questão de pouco tempo. A mesma voz que o fazia sentir-se culpado por usar ecstasy pela primeira vez.
A mesma voz que o encorajava a saltar do sétimo andar.
E então, no meio dessa ressaca incurável surgiam os sentimentos mais sórdidos de arrependimento junto a curtos flashes de memória infantil.
A voz que antes não tinha dono, materializou-se numa figura feminina solidária e carinhosa que lhe deu as mãos e lhe sugou a ultima centelha de vida.
Só ela, a própria Morte era capaz de perdoá-lo.
Pros outros era apenas um colapso cardiovascular. Mas pra ele, era um alívio se salvar da sua detestável vida. Descartável como uma caixa de pizza vazia.
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