segunda-feira, 30 de julho de 2012

4:00 horas

Nem noite, nem dia.
Nem dia porque não há claridade, com exceção de lâmpadas elétricas. Pessoas, em sua maioria estão deitadas em suas camas, mergulhadas em suas produções oníricas. 
Nem noite porque já se escuta o burburinho de início de manhã. Um sabiá assobia, impetuoso, empoleirado numa árvore solitária enraizada na calçada de concreto. De tempos em tempos, o som grave do motor de um ônibus urbano retumba nos ares da rua vazia. 
Alguns, tomam café e, seguidamente, metrô. Com maletas e crachás, paletós e sapatos baratos. Seus bolsos vazios, suas mentes desoladas e cheias de perturbação.
Outros, de ressaca, dirigem imprudentes por avenidas largas, furando faróis e cortando faixas. 
Tem os que nem dormiram. E também aqueles que, frutos da moda do estrangeirismo e escravos de um sonho juvenil , acendem seus cigarros de cannabis no momento em que os ponteiros marcam quatro e vinte. 
Também tem eu, que por noites incontáveis não consigo dormir assombrada por lembranças que nunca sequer desbotam. Algumas boas, outras ruins. Às vezes saudade. Às vezes fúria e revolta. 
No quarto, me encolho na cama em resposta ao frio da alvorada. Sem café, sem ressaca e tampouco  cigarros. Por sorte, também sem trabalho.
Ansiosa pelos dias que virão, torço pra que sejam menos ociosos, de preferencia preenchidos de forma proveitosa.
Lembro então do exercício de ser grata, poder chorar os meus fantasmas em casa ao invés de sentada num banco gelado do metrô. Ou ainda, quem sabe, numa cadeira velha e mofada de escritório, desgastando meus olhos frente a um monitor antigo, de canhão.
Novamente me forço a dormir, já muito mais calma. Me sinto amparada pelo meu travesseiro e pelo meu cobertor.


sexta-feira, 27 de julho de 2012

Diário ordinário

Até hoje, houve muito conteúdo recolhido por anos para ser escrito. Era tanto tempo e uma porção tão grande de coisas vividas que simplesmente tudo transbordou. Resultou numa criatividade temporária, passageira.
Hoje sinto timidez diante da magnitude que é o gesto de escrever. Escrevo, leio, releio meus textos débeis, sem brilho. De todas as virtudes que poderiam ter, só têm a sinceridade e boa intenção de quem os escreve.
Não é menosprezo ou falta de estima em mim mesma. Não é um caso de crise de identidade ou coisa do gênero, é só que sinto que a fonte secou. Sobrou algum eco do que havia meses atrás, mas não o suficiente pra satisfazer minha necessidade narcisista de produção ou quem sabe - numa linguagem mais florida - satisfazer meu eu sonhador que com ou sem talento, insiste e crê.
Acontece que descobri que escrever para outrem sem primeiro conhecer quem dominou essa tarefa muito antes de haver qualquer sombra da minha insignificante existência, é ordinariamente imbecil.
Escrever significa mais e requer muito mais esforço do que simplesmente redigir um diário das mazelas que sufocam minha vidinha.
Pobre criança sou que desconhece a grandeza de toda arte produzida e deixada, pelos verdadeiros adultos, ao nosso desfrute. Toda beleza que é simplesmente usufruir da herança que os gênios de outrora reservaram a todos aqueles que pretender ir além.
Como se atrever a escrever algo antes de ler o que  antes já foi escrito com muito mais sagacidade?

Se ainda pretendo escrever, tenho urgentemente que buscar outros horizontes e eleger novos heróis.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Medidas

Eu gosto de gente de verdade. Beleza em excesso é exaustiva e só de vê-la sinto aquele cheiro plástico  de folha de revista. Eu gosto de gente feita de carne, de gente que borra a maquiagem, de quem fica descalço quando o sapato está apertado.
Não estou aqui pra relativizar beleza, isso seria desnecessariamente óbvio demais. Eu compreendo exatamente o que a maioria exalta e elege como padrão. Também não estou aqui pra defender  celulite só porque tenho as minhas. Claro, claro que um corpo saudável e músculos avantajados são admiráveis. Mas daí dizer que uma pessoa é feia só porque é naturalmente quem é de verdade? Só porque está imersa numa realidade que não permite tanta preocupação com detalhes descartáveis?
Quando conheço alguém, reparo no jeito de andar. Reparo na boca também. Mas reparo principalmente no que tem pra me mostrar.
Num dia qualquer, vi uma pessoa qualquer postar  no facebook: ''Quando alguém lhe disser que gosta de verde, pergunte 'por que?' ao invés de dizer que gosta de vermelho.''
Achei a frase essencial pra finalmente entender que qualquer pessoa tem muito a oferecer.
Diante de tanta coisa importante que carrega o ser humano, pra que vou eu reparar no quanto mede o diâmetro da sua cintura?

terça-feira, 10 de julho de 2012

Caixa de Pizza vazia

Despertou de um sono desconfortável. Abriu os olhos e se certificou que estava no seu quarto. Seu quarto, enfim seu quarto. Depois da noite anterior, acordar em casa era surpreendente. 
No quarto havia roupas pelo avesso jogadas no chão, um cinzeiro que ele não limpava há dias, uma caixa de pizza vazia. Tão vazia quanto sua própria vida. 
Já tinha um tempo que as coisas não corriam bem. Havia contas a pagar, compromissos a honrar, mas isso já não importava mais, dali pra frente nada importaria mais. 
Uma doença o acometia e com ela vinha a depressão e a desistência de existir. 
Decidiu evitar o tratamento médico. Se tinha que usar drogas, que fossem ao menos as de sua preferência ao invés das receitadas pelo cara de jaleco. 
Não parecia correto nem justo morrer tão jovem. No entanto, sua morte não parecia ser de todo mal. As pessoas o lembrariam como um herói. Um pobre herói... Miserável, covarde, mas ainda assim um herói. E dessa forma, talvez fosse mais querido do que enquanto vivo. 
Deitado na cama, tinha todas as lembranças bem vívidas em sua cabeça embora mescladas a outras imagens e ideias que provinham de sua insanidade. 
Via a si mesmo há alguns anos atrás, rindo, enaltecido pela música alta e as luzes coloridas no seu rosto. Deve ter sido naquela época que alguém lhe ofereceu a felicidade em forma de pílulas. Esse alguém esqueceu-se de mencionar que essa felicidade era breve e forjada.
Não existiam mais medos, não existiam mais anseios. Seu único receio era que a morte tardasse a visitá-lo. Mas havia uma voz interior que sempre o recordava de que era questão de pouco tempo. A mesma voz que o fazia sentir-se culpado por usar ecstasy pela primeira vez.
A mesma voz que o encorajava a saltar do sétimo andar. 
E então, no meio dessa ressaca incurável surgiam os sentimentos mais sórdidos de arrependimento junto a curtos flashes de memória infantil. 
A voz que antes não tinha dono, materializou-se numa figura feminina solidária e carinhosa que lhe deu as mãos e lhe sugou a ultima centelha de vida. 
Só ela, a própria Morte era capaz de perdoá-lo. 
Pros outros era apenas um colapso cardiovascular. Mas pra ele, era um alívio se salvar da sua detestável vida. Descartável como uma caixa de pizza vazia.