Quando cheguei na sua casa e entrei no quarto, você tava olhando pro computador e nem virou a cabeça direito pra me cumprimentar. Fiquei sentada do seu lado esperando o vídeo terminar, sem dizer nenhuma palavra. Terminada aquela esquete sem graça pela qual você mal esboçou reação, você levantou sem dizer nada e me ofereceu uma xícara de chá.
Eu gosto de gente assim, meio enrijecida. Quando eu era jovem, achava que isso era auto-suficiência. Eu nem imaginava que o buraco de vocês era muito parecido com o meu. Eu me achava o avesso da independência, o oposto de narciso, sem compreender que um e outro são perspectivas de um mesmo corpo.
Eu sempre fui muito tagarela. Dizem ser do signo, né. Eu gosto mesmo de falar, eu acredito na potência das palavras a ponto de esquecer a grandeza dos gestos. Não dá pra ignorar, é meu único veículo de afeto que nunca falha. Meu corpo falha, minhas palavras não.
Foi por isso que eu não conseguia me acostumar com a atmosfera pesada do silêncio. Quando você me beijava, meu corpo não respondia sempre bem. Ele se contraía, me contrariava e eu tinha tanto medo que você se sentisse rejeitado… Aí eu falava. Porque você era quem eu queria em mim e isso tem uma extensão enorme de significados. Eu queria saber como era falar através da sua voz e quem sabe até te emprestar um pouco da voz que me sobrava e você nem sempre tinha. Eu queria pegar pra mim um pouco da sua independência, eu queria beber da sua estética. Eu não tenho senso estético, se não com as palavras.
Eu adorava a parede da sua sala. Mesmo antes de entender como funcionava a xilogravura, eu já sabia que eu era o suporte das estampas produzidas pelos seus relevos. Eu já sentia as bordas fincando a minha pele, marcando em mim os seus desenhos.
Era por isso que eu gostava tanto, tão imensuravelmente de ficar bem perto. Podia ser só sobre dormir na sua cama. Não tinha a ver com sexo. O que eu queria mesmo era atravessar o seu silêncio. E quanto mais o seu silêncio invadia os espaços do quarto, mais eu sufocava lançada às fantasias. Foi assim que você descobriu tanto sobre mim. Eu não podia me arriscar a não falar sobre mim porque era a única chance de não errar. Como eu podia competir com as filosofias, as histórias no centro da cidade, com os bares e as narrativas que você jamais contou e eu mesma inventava só de te olhar. Isso tudo me inundava de um jeito que eu tinha medo até de trocar o disco no tocador da sua sala, porque na minha cabeça você não errava em nada e eu… a única chance de não errar era usando as palavras. E romper o silêncio.
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