segunda-feira, 23 de julho de 2018

Sangue


Quando o sangue começou a escorrer, a dor veio cobrar o descaso dos dias. Eu sempre pensei que não faria diferença, que não havia questão de espírito. Mas em tudo há espírito. O espírito dos nossos tempos, espírito sem corpo, sobrepõe-se aos outros corpos. Contida, a alma sente dor sem lugar. E como corta a dor que não dói em nenhum lugar...
O corpo avisa, é sabido da cólera do espírito. Mas há um ouvido, quase surdo... Um que fica do lado de dentro e raramente escuta a sabedoria de um organismo ferido.
Quando o sangue começou a escorrer, eu senti que estava viva.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Amor bruto


Eu nunca te escreverei um poema .
Me injurio nos limites dos versos, por onde se derrama a ineficácia das palavras.
Eu nunca te escreverei um poema.
Eu que escuto ressoar teu nome,  sons vibrando na frequência das tuas letras
Teu nome fica. Com ele eu me abraço.
Eu nunca te escreverei um poema.
Pra dourá-lo com pitadas de louvor.
Tu és como um deus.
Mas não te assustes!
Somos todos deuses e somos todos um!
Eu jamais te escreverei um poema.
Pra estampar inverdades em nome do amor. 
Porque  amor não é poesia.
Nem só vive de afago.
amor corta a carne e a carne se deleita na contusão.
Eu nunca te escreverei um poema.
Pra dizer que teu sumo é doce.
Embora tua candura
teu sumo é amargo
tântrico e sagrado.
Semente de cacau.
Eu nunca te escreverei um poema.
Não há palavra ou poesia que contemple a eternidade do teu abraço.

Partida


Troca teus telhados pelas árvores

que teu fumo já nem precisas mais esconder

Troca teus discos por livros

que a solidez do teu passado já começas a esquecer

Troca tuas ilusões por desencanto

Revolve no solo de outrora o entusiasmo de viver

Olha o mundo lá fora

e reconheces que o relógio enverga o homem

e que todos os homens se envergonham

de admitir na ossatura o ofício das horas 

das colunas dos jornais

às vértebras do tempo

Assuma-te

Suma

Em suma,

Valha-te as asas

e voa...

pelas veredas ao teu Norte.