O amor é protagonista magno na vida de qualquer ser humano. Ou pelo menos, nos fizeram crer assim.
Seja herói, seja vilão, o amor assume quase sempre o papel central na trama da vida. E não raro, o amor romântico faz emergir sintomas que denunciam a existência. Mas dentre as várias consequências atreladas ao existir, se destaca o sofrimento. Em suma, quem ama indubitavelmente sofre e quem sofre, se lembra que existe. Ou ainda, quem sabe que existe mas não ama, sofre igualmente.
Pelo menos foi nesses moldes que o aclamado amor (ou o que eu acreditava ser amor) sempre se apresentou a mim. Não à toa. Quem não foi condicionado a crer que o genuíno amor entre um homem e uma mulher é o apogeu humano, o mais legítimo dos sentimentos e o mais poderoso, que atire a primeira pedra.
Desconstruir esse olhar e dar ao amor um lugar menos comum me tem demandado muita reflexão, muita leitura e, acima de tudo, maturidade.
Eu jamais ousaria (e me arriscaria) a dar um olhar antropológico e/ou histórico a essa discussão. Tenho vaga ciência de que a sociedade contemporânea carrega consigo resquícios das eras passadas, principalmente no que tange os movimentos artísticos e literários em geral. E é evidente que carregue intrínsecos os valores cristãos (seja de forma velada ou explícita). Poderia acrescentar os apontamentos feitos pelo querido Freud em "Mal estar na Civilização", onde o ilustre Sigi desmistifica a busca pela felicidade, mostrando que em condições civilizadas o que prevalece é um mecanismo de evasão ao desprazer. Mas não me sinto hábil a tocar nessas questões. Fico com meu achismo calcado nas minhas reflexões íntimas mesmo.
Amor não é nada disso que falam por aí. E em contrapartida, amor é sim tudo isso que falam e ainda mais que isso. É tudo e é nada ao mesmo tempo. Sua definição dialoga diretamente com o significado a si atribuído.
Uma vez admitida a subjetivação do amor, me pergunto por que é que somente o amor romântico é exaustivamente exaltado. Aquele cujo as características nos foram muito bem pontuadas desde muito cedo. Aquele intimamente atrelado ao apaixonamento. Aquele que só é permitido entre um homem e uma mulher (Sim, pois caso contrário, por que haveria tanto alarde, tanta balbúrdia em torno da homoafetividade?). Aquele que só se legitima através da exclusividade, da monogamia. Aquele em que se estabelecem contratos que quando quebrados resultam na sua completa extinção.
Toda a gama de outras possibilidades é considerada sórdida, abjeta.
Pra mim, a não aceitação das demais contingências resulta nessa doença a qual atribuíram o amor. Uma doença que não difere carência de identificação. Que não difere comodismo de fidelidade. Que não difere paixão de projeção. Que não difere necessidade socialmente imposta de necessidade individual. Que faz do indivíduo, divisível. Que transforma em pedaço o que, por natureza, outrora fora inteiro.