domingo, 26 de dezembro de 2021

Refluxo


Não consigo dormir porque minhas fixações estão implacáveis. Falta ritmo na solidão pra tentar dar conta do desejo insaciável de saber coisas. Saber coisas e as coisas que estão por trás das coisas. Uma alma penada obcecada por insegurança e miséria insiste em sussurrar "isso não é pra você". Pensando em Brasil, a gente cresce achando que isso é mesmo pra ninguém ou quando muito, quem sabe, pras pessoas que moram em casas com pianos que tocam nas salas que vibram cristaleiras. E se eu enlouquecer? Mas se a minha loucura típica faz morada em ser "deserto que só encontra oasis no deserto ao lado" e envolve sempre a alma ao lado e a alma ao lado da alma ao lado e daí pra fora? Sempre, sempre fora. Talvez eu só seja mulher. Adicta desse tesão insuportável em cessar esse fluxo caudaloso, de correntes que se chocam entre si e nunca deságuam, muito menos coincidem num mesmo leito... Então sexo, drogas e conversas intermináveis. No meio disso, alguns cigarros. Tudo pra não ter de defrontar o que é basal, as águas que correm por baixo das águas. Medo de esbarrar com o despropósito. Isso é de utilidade pra vida num registro, digamos, da praticidade? Atravessar dias frios? Por si só, acho a travessia pretensão de muita audácia já. Me bastar, ir de encontro sem pechincha. Tornar os encontros mais acidentais, menos premeditados. Amar com toda a verdade de amar. Amar com a pureza que é de amar. Ou no mínimo, não desatinar desesperada igual criança, porque chega uma hora que ninguém segura nossa testa quando vem a ressaca.

Lavoura

 Mas deixa a vida te lavrar a cara, como se diz 

Aí me fala da leveza do amor 

Então me dá aula sobre autocuidado

Me convence que saudável é o contrário


Deixa a vida te lavrar a cara 

Encara os sulcos da pele e a brancura nos cabelos 

Aí me fala de solidão aprazível 

Me conta da sua rebeldia 

Faz vibrar a sua voz de combate 

Mas antes 

Espera a vida te lavrar a cara


Espera o tempo curar 

Fermentar os desejos

Escancarar a crueza  

A realidade 

Nua cheia de ruga

Nudez que não seduz 

Qualidade de se decepcionar 

E continuar amando 

Sem jurisdição 


Espera a vida te lavrar a cara

Aí me conta dos contos que te contaram 

Vê que a beleza encara o trágico 

Que viver não é coletânea de eventos épicos 

Mas sucessivos acidentes 

Acontecimentos de desimportância clara 

Espera a vida te lavrar a cara



sábado, 4 de dezembro de 2021

 Pessoas são acostumadas com pedras

Sob tantas contusões já não sentem 

substância mais leve.


E as palavras são enganosas

Tracejam seu significados 

Mas não dizem nada.

Rastejam sob o ar 


Ouvidos sangram com gritos

Corações encolhem com prantos 


Mas as palavras são dissimuladas 

Palavras parecem um escritório

Cheio de gente engravatada


Cadências, rostos, lágrimas 

São espetáculos 

Explodem 

São golpes indefensáveis 


Por isso são dignos do colo

que seres opacos 

sufocam com contratos 

O que jamais será perene.

terça-feira, 7 de setembro de 2021

Uma inconstância [constante] contesta a segurança do que guarda o crânio.
A intempestividade tempestuosa troveja o que vai no peito. 
Rajadas trincam espelhos imaginários 
que se derramam em derradeiras imagens estilhaçadas,
 precipitando fases, frases, faces, sentimentos? 

Fronteiras que moram entre uma e outra coisa. 
Nuances que matizam os entremeios 
se vão emaranhadas, enlameadas, 
borrando em furtacor, 
furtando a cor dos dias de paz.
Os venenos potentes  num caldeirão efervescente 
fermentando mágoas na cabeça do século. 
Males crescentes jorrando cascatas luminosas,
pixelando quadros estáticos,
Teias, telas, tetas. 

Vulcões de dores agudas em plena erupção de seu gozo carrasco. 
O tirano habita em nós, 
nos nós dos laços que atam desejos 
ao ventre carente, ardendo. 
Inconstanciazinhas, dissipando razões minúsculas, cretinas. 
Certezas de merda. 
Receita é a dúvida.
Recebam laudos que provam
                          [ou abnegam?
que é remédio 
um enorme buraco no seio 
vazio e mudo. 
Vazio-mundo.

segunda-feira, 21 de junho de 2021

 Gotas de saudade tamborilam 

plácidas sob olhos envidraçados. 

Uma febrezinha colérica rasga o corpo por vingança. 

A vida gargalha como coisa fácil. 

Sem esmero, pousou manso sobre a carne. 

Rodopiou, esmaeceu. 

No duro árido floresceu. 

Amor é pai da dor. 

Amor é filho do prazer. 

Além das bordas do pacto, 

o amor nunca morreu.

 Letra A, mire e verá: a pontinha do lápis que a mão segura pra desenhar o A, primeira letra do (a)lfabeto e da infância. 

A, grafema iniciático de (a)morosos poemas de (a)mor. 

Letra A, em português o fonema da boca escancarada. A, do rebento de um coração (a)rrebentado, (a)rrematado no leilão dos sentimentos. 

Letra A, trindade das constituintes do meu próprio nome. 

Letra A, inicial de um início (a)ngelical e final (a)ssombroso de partida, recomeço e encontro com o (a)uspicioso inédito. 

(A)costumar-se na presente (a)usência. 

Costurar e conservar as notas de (a)dmiração escondidas nos complexos (a)cordes de uma música terminada em tensão. 

A, lá maior e um cá diminuto. 

A, de um nome. 

Ad hominem. 

A, (a)rtigo definido, feminino e singular.


        A.

domingo, 30 de agosto de 2020

Carta aos amores platônicos que me atravessaram

 Quando cheguei na sua casa e entrei no quarto, você tava olhando pro computador e nem virou a cabeça direito pra me cumprimentar. Fiquei sentada do seu lado esperando o vídeo terminar, sem dizer nenhuma palavra. Terminada aquela esquete sem graça pela qual você mal esboçou reação, você levantou sem dizer nada e me ofereceu uma xícara de chá.

Eu gosto de gente assim, meio enrijecida. Quando eu era jovem, achava que isso era auto-suficiência. Eu nem imaginava que o buraco de vocês era muito parecido com o meu. Eu me achava o avesso da independência, o oposto de narciso, sem compreender que um e outro são perspectivas de um mesmo corpo.
Eu sempre fui muito tagarela. Dizem ser do signo, né. Eu gosto mesmo de falar, eu acredito na potência das palavras a ponto de esquecer a grandeza dos gestos. Não dá pra ignorar, é meu único veículo de afeto que nunca falha. Meu corpo falha, minhas palavras não.
Foi por isso que eu não conseguia me acostumar com a atmosfera pesada do silêncio. Quando você me beijava, meu corpo não respondia sempre bem. Ele se contraía, me contrariava e eu tinha tanto medo que você se sentisse rejeitado… Aí eu falava. Porque você era quem eu queria em mim e isso tem uma extensão enorme de significados. Eu queria saber como era falar através da sua voz e quem sabe até te emprestar um pouco da voz que me sobrava e você nem sempre tinha. Eu queria pegar pra mim um pouco da sua independência, eu queria beber da sua estética. Eu não tenho senso estético, se não com as palavras.
Eu adorava a parede da sua sala. Mesmo antes de entender como funcionava a xilogravura, eu já sabia que eu era o suporte das estampas produzidas pelos seus relevos. Eu já sentia as bordas fincando a minha pele, marcando em mim os seus desenhos.
Era por isso que eu gostava tanto, tão imensuravelmente de ficar bem perto. Podia ser só sobre dormir na sua cama. Não tinha a ver com sexo. O que eu queria mesmo era atravessar o seu silêncio. E quanto mais o seu silêncio invadia os espaços do quarto, mais eu sufocava lançada às fantasias. Foi assim que você descobriu tanto sobre mim. Eu não podia me arriscar a não falar sobre mim porque era a única chance de não errar. Como eu podia competir com as filosofias, as histórias no centro da cidade, com os bares e as narrativas que você jamais contou e eu mesma inventava só de te olhar. Isso tudo me inundava de um jeito que eu tinha medo até de trocar o disco no tocador da sua sala, porque na minha cabeça você não errava em nada e eu… a única chance de não errar era usando as palavras. E romper o silêncio.