domingo, 30 de agosto de 2020

Carta aos amores platônicos que me atravessaram

 Quando cheguei na sua casa e entrei no quarto, você tava olhando pro computador e nem virou a cabeça direito pra me cumprimentar. Fiquei sentada do seu lado esperando o vídeo terminar, sem dizer nenhuma palavra. Terminada aquela esquete sem graça pela qual você mal esboçou reação, você levantou sem dizer nada e me ofereceu uma xícara de chá.

Eu gosto de gente assim, meio enrijecida. Quando eu era jovem, achava que isso era auto-suficiência. Eu nem imaginava que o buraco de vocês era muito parecido com o meu. Eu me achava o avesso da independência, o oposto de narciso, sem compreender que um e outro são perspectivas de um mesmo corpo.
Eu sempre fui muito tagarela. Dizem ser do signo, né. Eu gosto mesmo de falar, eu acredito na potência das palavras a ponto de esquecer a grandeza dos gestos. Não dá pra ignorar, é meu único veículo de afeto que nunca falha. Meu corpo falha, minhas palavras não.
Foi por isso que eu não conseguia me acostumar com a atmosfera pesada do silêncio. Quando você me beijava, meu corpo não respondia sempre bem. Ele se contraía, me contrariava e eu tinha tanto medo que você se sentisse rejeitado… Aí eu falava. Porque você era quem eu queria em mim e isso tem uma extensão enorme de significados. Eu queria saber como era falar através da sua voz e quem sabe até te emprestar um pouco da voz que me sobrava e você nem sempre tinha. Eu queria pegar pra mim um pouco da sua independência, eu queria beber da sua estética. Eu não tenho senso estético, se não com as palavras.
Eu adorava a parede da sua sala. Mesmo antes de entender como funcionava a xilogravura, eu já sabia que eu era o suporte das estampas produzidas pelos seus relevos. Eu já sentia as bordas fincando a minha pele, marcando em mim os seus desenhos.
Era por isso que eu gostava tanto, tão imensuravelmente de ficar bem perto. Podia ser só sobre dormir na sua cama. Não tinha a ver com sexo. O que eu queria mesmo era atravessar o seu silêncio. E quanto mais o seu silêncio invadia os espaços do quarto, mais eu sufocava lançada às fantasias. Foi assim que você descobriu tanto sobre mim. Eu não podia me arriscar a não falar sobre mim porque era a única chance de não errar. Como eu podia competir com as filosofias, as histórias no centro da cidade, com os bares e as narrativas que você jamais contou e eu mesma inventava só de te olhar. Isso tudo me inundava de um jeito que eu tinha medo até de trocar o disco no tocador da sua sala, porque na minha cabeça você não errava em nada e eu… a única chance de não errar era usando as palavras. E romper o silêncio.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Sangue


Quando o sangue começou a escorrer, a dor veio cobrar o descaso dos dias. Eu sempre pensei que não faria diferença, que não havia questão de espírito. Mas em tudo há espírito. O espírito dos nossos tempos, espírito sem corpo, sobrepõe-se aos outros corpos. Contida, a alma sente dor sem lugar. E como corta a dor que não dói em nenhum lugar...
O corpo avisa, é sabido da cólera do espírito. Mas há um ouvido, quase surdo... Um que fica do lado de dentro e raramente escuta a sabedoria de um organismo ferido.
Quando o sangue começou a escorrer, eu senti que estava viva.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

Amor bruto


Eu nunca te escreverei um poema .
Me injurio nos limites dos versos, por onde se derrama a ineficácia das palavras.
Eu nunca te escreverei um poema.
Eu que escuto ressoar teu nome,  sons vibrando na frequência das tuas letras
Teu nome fica. Com ele eu me abraço.
Eu nunca te escreverei um poema.
Pra dourá-lo com pitadas de louvor.
Tu és como um deus.
Mas não te assustes!
Somos todos deuses e somos todos um!
Eu jamais te escreverei um poema.
Pra estampar inverdades em nome do amor. 
Porque  amor não é poesia.
Nem só vive de afago.
amor corta a carne e a carne se deleita na contusão.
Eu nunca te escreverei um poema.
Pra dizer que teu sumo é doce.
Embora tua candura
teu sumo é amargo
tântrico e sagrado.
Semente de cacau.
Eu nunca te escreverei um poema.
Não há palavra ou poesia que contemple a eternidade do teu abraço.

Partida


Troca teus telhados pelas árvores

que teu fumo já nem precisas mais esconder

Troca teus discos por livros

que a solidez do teu passado já começas a esquecer

Troca tuas ilusões por desencanto

Revolve no solo de outrora o entusiasmo de viver

Olha o mundo lá fora

e reconheces que o relógio enverga o homem

e que todos os homens se envergonham

de admitir na ossatura o ofício das horas 

das colunas dos jornais

às vértebras do tempo

Assuma-te

Suma

Em suma,

Valha-te as asas

e voa...

pelas veredas ao teu Norte.

sábado, 28 de janeiro de 2017

Nostalgia

Cheiro de inseticida, pente fino
Franjinha de índio
Não para nem piolho
nesse cabelo liso 
Tanta coisa na cabeça...
Coceira, tristeza, desespero
Por favor perdão, apareça
Perdoa não ter ninguém aqui
Perdoa o esquecimento
Perdoa a infância febril
Perdoa as mentiras
Perdoa as chupetas
Perdoa o desejo sutil
de pausar essa ampulheta

sábado, 6 de agosto de 2016

Voz às filhas marginais

Dilacera a carne o ódio que cresce no seio de toda mulher que percebe no ventre a causa da sua cólera. O privilégio de quem nasceu sem o fardo do partejo, do cuidado, do ato de amar irrestrito (remetido aos seus ímpares mas nunca às suas pares) me desperta o desejo aversivo de atirar meu corpo mole, sem padrão, excessivamente adiposo sobre os escombros dessa retórica falida que não cabe mais em nenhum lugar por fora, mas corrói tudo à todas por dentro.
Mulher  que presta é mulher mãe, mulher servil, mulher mãe de macho, mulher esposa, suicida das próprias vontades. O filho sagrado, é prodígio. A filha é desastre, é descuido, é digressão aos demônios nunca expurgados.  Há chance de realizar-se por entre as entranhas das próprias filhas satisfeitas pela liberdade que é concessão geracional, fruto de briga, marginalidade? Não, jamais. À filha a inveja, o descaso, a emulação. Estas putas que vos falam nunca serão como vós óh Santa Madre cheia de graça... O senhor é convosco e maldita é a sua voz entre as mulheres. Porque tu, ó santa, cuja santidade evoca o consolo do falo, deixaste as tuas iguais por estas migalhas patriarcais. 

Que alto preço se paga por essa vil tolerância disfarçada de bondade. 

terça-feira, 26 de julho de 2016

Trauma

Quando a letra espremida quer rasgar o papel,
quando ouço sua voz e não sei como me sinto,
quando acendo um cigarro sem pensar...
É porque o medo de te perder
se depravou em medo
de me perder de mim,
e me encontrar em você.