sábado, 22 de fevereiro de 2014
Escritor
Seus olhos atravessavam a todos os indivíduos que, de alguma forma, tocavam seu caminho.
Quantas histórias abrigavam aqueles corpos? E os que não abrigavam, a quantas poderiam servir de inspiração?
A escrita era inerente ao seu ser. Não conseguia deixar de fazer das pessoas, acessórios para os seus romances.
Contrariando o que se pode pensar, escrever não fazia-o pleno.
Perturbava-se com a necessidade incessante e insaciável de registrar sua captura do mundo através de suas próprias palavras. E não eram quaisquer palavras que satisfaziam sua vaidade. Cada frase era minuciosamente refletida, revisada. A perfeição era seu objetivo mínimo, porém, nunca alcançado.
Era intimista. Não se aproximava de quase ninguém, pois sempre confeccionava previamente a dimensão psicológica de cada ser com quem cruzava um olhar. Deixar que o próximo desse vazão à sua verdadeira identidade, desmancharia a trama de sua história aniquilando assim, o significado de sua existência. Preferia as pessoas segundo sua própria imaginação. Tinha como recompensa de sua reclusão, a vantagem de nunca decepcionar-se ou surpreender-se, uma vez que controlava o enredo que sustentava o destino de tudo e todos. Era Deus. Era o Deus do seu mundo, o qual criava e destruía sem dever explicação a ninguém.
Podia emprestar a seus personagens aquelas emoções as quais não suportava viver sozinho. Ou ainda aquelas as quais acreditava não poder experimentar na realidade objetiva. Se quisesse um grande amor, por exemplo, podia vivê-lo sob a pele de uma de suas criaturas. Não sofreria, salvo fosse sua escolha, já que detinha consigo toda criação.
Sabia que não era feliz. Mas por que haveria de ser? Era poderoso! Ditava choro e riso. Não os seus. Esses eram dispensáveis, omissos. Afinal, não era gente como toda gente. Era escritor.
Só mais um escritor.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
DOIS MIL E CATARSE, pra começar o ano bem
Vi gente cercando, dispondo da alma até se fosse preciso, aquilo que acreditava ser de sua posse, chamando o que era do mundo de "meu".
Vi gente dedicada, gente bramindo bravamente, evocando pelos quatro cantos da Terra os seus direitos. Mas das palavras que proferiam, só conseguia-se identificar um inextricável canto de proposições idiotas, vulgares e egoístas, que se substanciavam na palavra "EU, EU, EU..."
Vi gente maltratando, assassinando, esquartejando outrem, sob alegação de não serem seus iguais.
Vi gente orgulhosa dos anais mais fúteis. Ouvi os jargões mais frívolos.
Às causas mais inúteis, conferiram maior prestígio.
Vi gente plantando sementes de ódio. Vi germinar a desesperança.
Vi os mais justos, injustiçados, colhendo desespero, fatalismo e ignorância.
Vi sorrisos comprados, sorrisos vendidos, sorrisos invetados.
Vi a conversão da vida em bens consumíveis, perecíveis. Vi horas e horas de trabalho pesado, de suor salgado, investidas em pão e circo.
Vi, ouvi, vivi... tentei engolir, não consegui digerir. Vomitei consciência, arrogância, e um repúdio infinito.
Respirei.
Esse não era o caminho.
Como na alegoria da luz no fim do túnel, agarrei a última centelha da boa perspectiva.
Isso tem de mudar! O mundo há de mudar.
Que 2014 seja bem vindo e traga a revolução consigo!
Vi gente dedicada, gente bramindo bravamente, evocando pelos quatro cantos da Terra os seus direitos. Mas das palavras que proferiam, só conseguia-se identificar um inextricável canto de proposições idiotas, vulgares e egoístas, que se substanciavam na palavra "EU, EU, EU..."
Vi gente maltratando, assassinando, esquartejando outrem, sob alegação de não serem seus iguais.
Vi gente orgulhosa dos anais mais fúteis. Ouvi os jargões mais frívolos.
Às causas mais inúteis, conferiram maior prestígio.
Vi gente plantando sementes de ódio. Vi germinar a desesperança.
Vi os mais justos, injustiçados, colhendo desespero, fatalismo e ignorância.
Vi sorrisos comprados, sorrisos vendidos, sorrisos invetados.
Vi a conversão da vida em bens consumíveis, perecíveis. Vi horas e horas de trabalho pesado, de suor salgado, investidas em pão e circo.
Vi, ouvi, vivi... tentei engolir, não consegui digerir. Vomitei consciência, arrogância, e um repúdio infinito.
Respirei.
Esse não era o caminho.
Como na alegoria da luz no fim do túnel, agarrei a última centelha da boa perspectiva.
Isso tem de mudar! O mundo há de mudar.
Que 2014 seja bem vindo e traga a revolução consigo!
sexta-feira, 27 de dezembro de 2013
Mon Sauveur
A noite caía, as ruas estavam desertas. A pequena cidade não era mais a mesma. Os rostos eram tão hostis e as pessoas por trás destes me eram incógnitas.
Cabelos coloridos esvoaçantes me causavam repugnância. Uma escolha mal pensada me torturava, me arrebatava por completo em culpa e desespero.
Não reconhecia os sorrisos de outrora, não encontrava os lençóis compartilhados, não encontrava qualquer abrigo. Estivera fora por muito tempo. A brisa litorânea soprava agressiva, a maresia grudava na pele e as unhas do arrependimento cravavam-se em minhas têmporas. Como queria correr dali. Me envergonhava minha própria presença na amaldiçoada orla da lagoa. Nos olhos que me julgavam, eu tentava encontrar minha dignidade perdida. Em vão.
O telefone não sossegava em meu bolso e eu sabia que era você quem me ligava. Relutava em atendê-lo. De que valeria? Estava arrasada, assolada na maior e mais profunda humilhação de todos os tempos. Na verdade, acho que não queria deixá-lo me ver em tão deplorável circunstância.
E enquanto eu me alimentava da areia imunda e de desilusão, você apareceu. E ainda à distância, reconheci no seu sorriso a minha salvação. Você despontou embalado pelas lembranças nossas e tão somente nossas, que capazes de me arrancar o riso em meio ao pânico e a solidão. Solidão da pior estirpe; daquelas que se sente mesmo quando entre outros cem.
E então eu logo compreendi que achara meu lar em alguém. Embora já suspeitasse antes, a confirmação eu tive no aconchego do seu abraço.
Cabelos coloridos esvoaçantes me causavam repugnância. Uma escolha mal pensada me torturava, me arrebatava por completo em culpa e desespero.
Não reconhecia os sorrisos de outrora, não encontrava os lençóis compartilhados, não encontrava qualquer abrigo. Estivera fora por muito tempo. A brisa litorânea soprava agressiva, a maresia grudava na pele e as unhas do arrependimento cravavam-se em minhas têmporas. Como queria correr dali. Me envergonhava minha própria presença na amaldiçoada orla da lagoa. Nos olhos que me julgavam, eu tentava encontrar minha dignidade perdida. Em vão.
O telefone não sossegava em meu bolso e eu sabia que era você quem me ligava. Relutava em atendê-lo. De que valeria? Estava arrasada, assolada na maior e mais profunda humilhação de todos os tempos. Na verdade, acho que não queria deixá-lo me ver em tão deplorável circunstância.
E enquanto eu me alimentava da areia imunda e de desilusão, você apareceu. E ainda à distância, reconheci no seu sorriso a minha salvação. Você despontou embalado pelas lembranças nossas e tão somente nossas, que capazes de me arrancar o riso em meio ao pânico e a solidão. Solidão da pior estirpe; daquelas que se sente mesmo quando entre outros cem.
E então eu logo compreendi que achara meu lar em alguém. Embora já suspeitasse antes, a confirmação eu tive no aconchego do seu abraço.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
Segura minha mão
Naquela época, a garotada corria por toda a parte. Era assim. Nós cuidávamos o mais rápido possível do serviço da casa que era pra poder jogar bola e pular corda na rua. E a criançada inventava brinquedo, inventava brincadeira... A vida não era fácil como hoje não, hoje vocês tem tudo pronto e tem de tudo.
Mas eu era feliz, viu. Ah! Que sorriso amarelo o que?! Não me arrependo de nada não! Se bem que casar eu não queria.
Mas sabe como é, né minha filha? Tinha de ser assim. Deus quis assim.
Se eu acredito em Deus?! Mas que pergunta! Veja que tenho quase um século de vida e já vivi muito pra poder te garantir que não cai uma única folha de uma árvore se não for da vontade divina! É que você é muito jovenzinha... Vestida nesse avental branco, ainda se ilude com esse negócio de ciência. Eu também já fui assim.
Onde estava mesmo? Ah sim. Casar eu não queria. Quando era rapariga, tal como você, queria só saber de estudar. Eu teria dado boa professora, sabe? Mas o danado do Euzébio cismou com a minha cara. Pelo menos eu prefiro acreditar ainda, depois de mais de ciquenta anos, que foi pelo meu rosto que ele se apaixonou. Ele era bom homem, ia me buscar todos os dias na época do ginásio. Mas aí ele me fez crer que esposa dele não tinha necessidade de trabalhar fora e que se com ele eu me casasse, não tinha porque continuar frequentando a escola. Devia ser ciúmes que, sabe menina, eu to velha agora, mas eu era muito bonitinha quando tinha a sua idade.
Mas não me arrependo de nada não! Esteja certa de que não me arrependo. Criei três filhos, sabe? Três homens honrados, dignos e muito esbeltos. E hoje em dia vocês querem ensinar como que se cuida de criança, dizem que não se pode dar palmada e é por isso que o mundo tá nesse pé. Por isso que hoje filho não respeita mais os pais. Eu eduquei os meus filhos de acordo com a moral e os bons costumes que hoje já nem se escuta mais falar. Por isso que não gosto de televisão. Olha quanta pouca vergonha que passam na televisão, que antigamente, a gente até ouvia dizer que era coisa do diabo. Deus nos livre! Será que você pode abaixar um pouquinho o volume? Nunca vi tanto barulho em enfermaria de hospital.
Os meus filhos não vêm me ver porque... Ora, como por que? Eles não podem se ocupar com sua velha mãe uma vez que já se despendem às próprias famílias e aos próprios negócios. Mas não me sinto infeliz, não me sinto sozinha não. Estou te dizendo, minha filha! Tenho quase um século de vida. Solidão já não me aflige, que eu vivi tanta coisa...E olha que não me arrependo de nada!
Mas menina, faz um favor? Larga de tomar nota de tudo que eu falo e me segura um pouco a mão.
Mas eu era feliz, viu. Ah! Que sorriso amarelo o que?! Não me arrependo de nada não! Se bem que casar eu não queria.
Mas sabe como é, né minha filha? Tinha de ser assim. Deus quis assim.
Se eu acredito em Deus?! Mas que pergunta! Veja que tenho quase um século de vida e já vivi muito pra poder te garantir que não cai uma única folha de uma árvore se não for da vontade divina! É que você é muito jovenzinha... Vestida nesse avental branco, ainda se ilude com esse negócio de ciência. Eu também já fui assim.
Onde estava mesmo? Ah sim. Casar eu não queria. Quando era rapariga, tal como você, queria só saber de estudar. Eu teria dado boa professora, sabe? Mas o danado do Euzébio cismou com a minha cara. Pelo menos eu prefiro acreditar ainda, depois de mais de ciquenta anos, que foi pelo meu rosto que ele se apaixonou. Ele era bom homem, ia me buscar todos os dias na época do ginásio. Mas aí ele me fez crer que esposa dele não tinha necessidade de trabalhar fora e que se com ele eu me casasse, não tinha porque continuar frequentando a escola. Devia ser ciúmes que, sabe menina, eu to velha agora, mas eu era muito bonitinha quando tinha a sua idade.
Mas não me arrependo de nada não! Esteja certa de que não me arrependo. Criei três filhos, sabe? Três homens honrados, dignos e muito esbeltos. E hoje em dia vocês querem ensinar como que se cuida de criança, dizem que não se pode dar palmada e é por isso que o mundo tá nesse pé. Por isso que hoje filho não respeita mais os pais. Eu eduquei os meus filhos de acordo com a moral e os bons costumes que hoje já nem se escuta mais falar. Por isso que não gosto de televisão. Olha quanta pouca vergonha que passam na televisão, que antigamente, a gente até ouvia dizer que era coisa do diabo. Deus nos livre! Será que você pode abaixar um pouquinho o volume? Nunca vi tanto barulho em enfermaria de hospital.
Os meus filhos não vêm me ver porque... Ora, como por que? Eles não podem se ocupar com sua velha mãe uma vez que já se despendem às próprias famílias e aos próprios negócios. Mas não me sinto infeliz, não me sinto sozinha não. Estou te dizendo, minha filha! Tenho quase um século de vida. Solidão já não me aflige, que eu vivi tanta coisa...E olha que não me arrependo de nada!
Mas menina, faz um favor? Larga de tomar nota de tudo que eu falo e me segura um pouco a mão.
sexta-feira, 13 de dezembro de 2013
A rua é democrática
A hora se arrastava, não havia mais absolutamente nada a se fazer e nem qualquer companhia pra curar o ócio tedioso e improdutivo.
Nos bolsos, carregava uma única nota de cinco reais, já reservada à pagar a condução de volta pra casa. E ainda que no lugar da nota de cinco houvesse uma de cinquenta, não gastaria dela sequer um centavo, pois estava completamente capturada pela consciência adquirida ao longo dos anos e que fora reafirmada ao assistir Surplus e outras coisas do gênero. Estava preocupada com a preservação dos valores essenciais da vida e simplesmente não podia corroborar com nada que fosse contrário à minha nova forma de enxergar o mundo.
Caminhando pelas ruas, me perdi na bagunça do centro, típica de finais de ano. Que bagunça agradável! Que bagunça bonita de se ver...
Numa esquina, uma fábrica à céu aberto de quadros pintados com spray, funcionando diante dos olhos de quem passasse e quisesse ver.
Alguns metros adiante, caricaturistas, poetas, representantes do movimento hare krishna, gente de terno e gravata, mulheres de salto alto, crianças e famílias transitavam frenéticos, eufóricos. Hesitavam seguir seus respectivos rumos ao passar pela calçada aglomerada, de onde ecoava Starway to Heaven, do Led Zeppelin. A música era tocada por um rapaz corajoso que vestia flanela xadrez. Não corajoso apenas por se apresentar em público num espaço comum à toda gente, mas por expor a si e seus equipamentos aos possíveis olhares invasivos, aos olhos que julgam e também aos que cobiçam. Mas a verdade é que não havia má fé da parte de seus expectadores, tampouco dele próprio que cumpria o papel de entreter e fazer sorrir o paulistano sofrido. E seu público, certamente, era o mais variado que eu já tinha conhecido. Ao seu lado, dançava uma criança de menos de quatro anos de idade, pareada a um homem grisalho, trajando trapos encardidos, que fazia caretas e outras bizarrices. Um homem cujo a maioria se recusaria estar ao lado. Dançava também com eles, uma senhora descalça, desdentada e sorridente.
Pensei comigo, então: Qual outro cenário é capaz de expressar tão genuína liberdade quanto esse? O que há de mais democrático nessa cidade que as próprias ruas? A rua por si só é democrática. Quem, se não ela, abriga tamanha diversidade? E em qual outra parte cabe tanta gente? E não é preciso de mais do que boa arte - e atente que com "boa" quero dizer bem intencionada e não necessariamente erudita- pra ressuscitar o lado humano até daqueles que sequer lembravam que estavam vivos. Que até se esqueceram que existiam.
Nos bolsos, carregava uma única nota de cinco reais, já reservada à pagar a condução de volta pra casa. E ainda que no lugar da nota de cinco houvesse uma de cinquenta, não gastaria dela sequer um centavo, pois estava completamente capturada pela consciência adquirida ao longo dos anos e que fora reafirmada ao assistir Surplus e outras coisas do gênero. Estava preocupada com a preservação dos valores essenciais da vida e simplesmente não podia corroborar com nada que fosse contrário à minha nova forma de enxergar o mundo.
Caminhando pelas ruas, me perdi na bagunça do centro, típica de finais de ano. Que bagunça agradável! Que bagunça bonita de se ver...
Numa esquina, uma fábrica à céu aberto de quadros pintados com spray, funcionando diante dos olhos de quem passasse e quisesse ver.
Alguns metros adiante, caricaturistas, poetas, representantes do movimento hare krishna, gente de terno e gravata, mulheres de salto alto, crianças e famílias transitavam frenéticos, eufóricos. Hesitavam seguir seus respectivos rumos ao passar pela calçada aglomerada, de onde ecoava Starway to Heaven, do Led Zeppelin. A música era tocada por um rapaz corajoso que vestia flanela xadrez. Não corajoso apenas por se apresentar em público num espaço comum à toda gente, mas por expor a si e seus equipamentos aos possíveis olhares invasivos, aos olhos que julgam e também aos que cobiçam. Mas a verdade é que não havia má fé da parte de seus expectadores, tampouco dele próprio que cumpria o papel de entreter e fazer sorrir o paulistano sofrido. E seu público, certamente, era o mais variado que eu já tinha conhecido. Ao seu lado, dançava uma criança de menos de quatro anos de idade, pareada a um homem grisalho, trajando trapos encardidos, que fazia caretas e outras bizarrices. Um homem cujo a maioria se recusaria estar ao lado. Dançava também com eles, uma senhora descalça, desdentada e sorridente.
Pensei comigo, então: Qual outro cenário é capaz de expressar tão genuína liberdade quanto esse? O que há de mais democrático nessa cidade que as próprias ruas? A rua por si só é democrática. Quem, se não ela, abriga tamanha diversidade? E em qual outra parte cabe tanta gente? E não é preciso de mais do que boa arte - e atente que com "boa" quero dizer bem intencionada e não necessariamente erudita- pra ressuscitar o lado humano até daqueles que sequer lembravam que estavam vivos. Que até se esqueceram que existiam.
domingo, 1 de dezembro de 2013
Dicotomia sem solução
Eu poderia ter escolhido perder os cabelos entranhada em sentenças matemáticas. Poderia ter me perdido entre átomos e moléculas. Entre fórmulas e gráficos. Cálculos e sistemas binários. Eu poderia ter escolhido tudo, qualquer coisa.
Poderia ter escolhido viver quantas vidas quisesse, criando novas vozes, novos personagens. Poderia agraciar o mundo com melodias e pinturas fantásticas. Com poesia. Com comida saborosa, quem sabe.
Contudo, envaidecida pela promessa de compreender o funcionamento do ser que sempre mais me afugentou, escolhi enveredar no mais subjetivo universo inerente ao homem: A Psychē.
Escolhi a ciência que relativiza toda e qualquer ação que permeia a vida de um indivíduo. Que sistematiza as relações conferindo a elas significados jamais pensados por quem as constituiu. Que transforma uma infinidade de abstrações em fenômenos discutíveis e analisáveis.
É impossível não amar as infindas possibilidades e descobertas proporcionadas por esta implacável escolha, que já vem causando consequências subversivas ao próprio propósito há três anos. Assim como também é inevitável odiá-la com efervescência. Ódio este, exaustivamente explicado através de suas teorias e sistemas, ensejando a manutenção eterna da raiva.
E por mais que a sua importância seja intangível, imensurável, seus equívocos irritam o estômago já cansado de tanto sentir ojeriza.
Melhor que qualquer outra ciência, a psicologia viabiliza que muita gente de má fé se instrumentalize dela, adequando-a não só para nutrir o ego como também para se defender da objetividade do mundo. Porque o mundo continua existindo, apesar da psicologia. A vida existe, apesar da psicologia.
E pra esse tipo de gente e quaisquer outros que pretendam se utilizar do conhecimento acadêmico pra se autopromover e suster sua vã soberbia eu desejo a ruína. Do âmago da alma, eu desejo a ruína. E ai daqueles dispostos ao psicologismo de tentar interpretar meu desgosto, meu desamparo.
Poderia ter escolhido viver quantas vidas quisesse, criando novas vozes, novos personagens. Poderia agraciar o mundo com melodias e pinturas fantásticas. Com poesia. Com comida saborosa, quem sabe.
Contudo, envaidecida pela promessa de compreender o funcionamento do ser que sempre mais me afugentou, escolhi enveredar no mais subjetivo universo inerente ao homem: A Psychē.
Escolhi a ciência que relativiza toda e qualquer ação que permeia a vida de um indivíduo. Que sistematiza as relações conferindo a elas significados jamais pensados por quem as constituiu. Que transforma uma infinidade de abstrações em fenômenos discutíveis e analisáveis.
É impossível não amar as infindas possibilidades e descobertas proporcionadas por esta implacável escolha, que já vem causando consequências subversivas ao próprio propósito há três anos. Assim como também é inevitável odiá-la com efervescência. Ódio este, exaustivamente explicado através de suas teorias e sistemas, ensejando a manutenção eterna da raiva.
E por mais que a sua importância seja intangível, imensurável, seus equívocos irritam o estômago já cansado de tanto sentir ojeriza.
Melhor que qualquer outra ciência, a psicologia viabiliza que muita gente de má fé se instrumentalize dela, adequando-a não só para nutrir o ego como também para se defender da objetividade do mundo. Porque o mundo continua existindo, apesar da psicologia. A vida existe, apesar da psicologia.
E pra esse tipo de gente e quaisquer outros que pretendam se utilizar do conhecimento acadêmico pra se autopromover e suster sua vã soberbia eu desejo a ruína. Do âmago da alma, eu desejo a ruína. E ai daqueles dispostos ao psicologismo de tentar interpretar meu desgosto, meu desamparo.
domingo, 20 de outubro de 2013
Prece moderna
De volta à janela, debruçado sobre o parapeito coberto de cinzas, ousou uma forçosa epifania.
Ah, a janela do quarto. Lugar tão conhecido, tão gasto e ainda assim, sempre bem-vindo. A paisagem imutável, os ruídos das casas em volta e o oblíquo desejo de encontrar respostas que nenhum outro espaço no mundo elucidaria.
A janela propriamente representava pouco. Mas o simbolismo que carregava intrínseco a si era irrevogável.
Pensou há quanto já estaria morto, não fosse seu otimismo que, embora abalável, nunca se dava por vencido. Otimismo atrelado ao nada.
Não era um homem de fé. Não cria. Nem em deus, nem forças do universo, nem em si talvez. Procurava um lugar confortável, onde houvesse paz e alguma convicção. Mas a paz no mundo moderno é objeto místico, desconhecido.
Percebeu a inconsistência de suas expectativas. Almejava protagonizar a vida sem ter que escrever sua história com as próprias mãos. Dava a algum autor desconhecido à responsabilidade de suas ações. Como pode um incrédulo esperar que uma força maior domine seu dia a dia? Não era como um cristão, que sustenta a certeza de que o Deus onipotente é quem discorre as linhas do destino. O que esperar então?
Em desespero, com seus rasos recursos mundanos, pedia:
"Que a fumaça leve consigo toda a saudade, incluindo aquela dos momentos que nem nunca se fizeram e das pessoas que jamais chegaram.
Que cada estrela no céu cinza opaco trate de guardar, no distante intangível, as angústias que se ocupam em flagelar o ego franzino e doente.
Que os drinques gelados curem a infecção nas feridas de toda alma carente.
Que as luzes da cidade iludam por algum instante qualquer coração solitário que insista crer na capacidade humana de amar ao próximo como a si mesmo sob todas as circunstâncias.
Que a ciência descubra o princípio ativo que livre todo ser humano de seus constantes tormentos ontológicos. E que se cure com ele toda deficiência social, pra que então se prive qualquer homem do encargo da práxis contínua.
Que a morte seja sempre indolor, pra quem vai e pra quem fica.
Que a inspiração não se esvaia antes que se pontue a primeira linha.
Que os próximos romances desabrochem fecundos.
E que os cigarros não acabem antes que o café esfrie.
Amém."
Ah, a janela do quarto. Lugar tão conhecido, tão gasto e ainda assim, sempre bem-vindo. A paisagem imutável, os ruídos das casas em volta e o oblíquo desejo de encontrar respostas que nenhum outro espaço no mundo elucidaria.
A janela propriamente representava pouco. Mas o simbolismo que carregava intrínseco a si era irrevogável.
Pensou há quanto já estaria morto, não fosse seu otimismo que, embora abalável, nunca se dava por vencido. Otimismo atrelado ao nada.
Não era um homem de fé. Não cria. Nem em deus, nem forças do universo, nem em si talvez. Procurava um lugar confortável, onde houvesse paz e alguma convicção. Mas a paz no mundo moderno é objeto místico, desconhecido.
Percebeu a inconsistência de suas expectativas. Almejava protagonizar a vida sem ter que escrever sua história com as próprias mãos. Dava a algum autor desconhecido à responsabilidade de suas ações. Como pode um incrédulo esperar que uma força maior domine seu dia a dia? Não era como um cristão, que sustenta a certeza de que o Deus onipotente é quem discorre as linhas do destino. O que esperar então?
Em desespero, com seus rasos recursos mundanos, pedia:
"Que a fumaça leve consigo toda a saudade, incluindo aquela dos momentos que nem nunca se fizeram e das pessoas que jamais chegaram.
Que cada estrela no céu cinza opaco trate de guardar, no distante intangível, as angústias que se ocupam em flagelar o ego franzino e doente.
Que os drinques gelados curem a infecção nas feridas de toda alma carente.
Que as luzes da cidade iludam por algum instante qualquer coração solitário que insista crer na capacidade humana de amar ao próximo como a si mesmo sob todas as circunstâncias.
Que a ciência descubra o princípio ativo que livre todo ser humano de seus constantes tormentos ontológicos. E que se cure com ele toda deficiência social, pra que então se prive qualquer homem do encargo da práxis contínua.
Que a morte seja sempre indolor, pra quem vai e pra quem fica.
Que a inspiração não se esvaia antes que se pontue a primeira linha.
Que os próximos romances desabrochem fecundos.
E que os cigarros não acabem antes que o café esfrie.
Amém."
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