sábado, 28 de janeiro de 2017

Nostalgia

Cheiro de inseticida, pente fino
Franjinha de índio
Não para nem piolho
nesse cabelo liso 
Tanta coisa na cabeça...
Coceira, tristeza, desespero
Por favor perdão, apareça
Perdoa não ter ninguém aqui
Perdoa o esquecimento
Perdoa a infância febril
Perdoa as mentiras
Perdoa as chupetas
Perdoa o desejo sutil
de pausar essa ampulheta

sábado, 6 de agosto de 2016

Voz às filhas marginais

Dilacera a carne o ódio que cresce no seio de toda mulher que percebe no ventre a causa da sua cólera. O privilégio de quem nasceu sem o fardo do partejo, do cuidado, do ato de amar irrestrito (remetido aos seus ímpares mas nunca às suas pares) me desperta o desejo aversivo de atirar meu corpo mole, sem padrão, excessivamente adiposo sobre os escombros dessa retórica falida que não cabe mais em nenhum lugar por fora, mas corrói tudo à todas por dentro.
Mulher  que presta é mulher mãe, mulher servil, mulher mãe de macho, mulher esposa, suicida das próprias vontades. O filho sagrado, é prodígio. A filha é desastre, é descuido, é digressão aos demônios nunca expurgados.  Há chance de realizar-se por entre as entranhas das próprias filhas satisfeitas pela liberdade que é concessão geracional, fruto de briga, marginalidade? Não, jamais. À filha a inveja, o descaso, a emulação. Estas putas que vos falam nunca serão como vós óh Santa Madre cheia de graça... O senhor é convosco e maldita é a sua voz entre as mulheres. Porque tu, ó santa, cuja santidade evoca o consolo do falo, deixaste as tuas iguais por estas migalhas patriarcais. 

Que alto preço se paga por essa vil tolerância disfarçada de bondade. 

terça-feira, 26 de julho de 2016

Trauma

Quando a letra espremida quer rasgar o papel,
quando ouço sua voz e não sei como me sinto,
quando acendo um cigarro sem pensar...
É porque o medo de te perder
se depravou em medo
de me perder de mim,
e me encontrar em você.

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Tempos de agora

Coração pulsando atrás do relógio,
aceleração disfarçada de ansiedade,
fuga à imersão, polissemia à vontade.
E se todos os medos se rebelassem desejos refreados?
E se ódio somente fosse o amor marginalizado?
E se na desinformação deformada das horas,
tempo nenhum fosse realidade
se não o agora?







sábado, 30 de abril de 2016

Qué querê

Rir sem compromisso
Desnudar o teu ridículo
Amolecer o peito rijo
Deixar viver

Esmorecer a tua raiva
Pulsar descontrolada
A euforia dessa alma
que só quer querer 

terça-feira, 26 de abril de 2016

Véus de seda

Por trás do retrato há a história que ninguém ouviu. Nas entrelinhas da narrativa breve e mesquinha há o universo das sensações que só quem esteve presente sentiu. Por entre os lábios maquiados, o desejo de se flagrar visto por olhares súbitos, elogios desavisados. 
Ao léu, vagam os defeitos. Não há quem os queira abraçar, envolvê-los junto ao peito.
A espontaneidade foge aos dedos, se desgarra de uma alma que deseja - em segredo - ser nada além dela mesma; mas que no mundo dos fantasmas perfeitos, se encobre em véus de seda.