quinta-feira, 6 de agosto de 2015

Ego-metria

Um estudo sobre as noções de indivíduo nos tempos atuais:



                                EU

                                                                                            tu
                                                                    ele
                                                                    nós
                                                                    vós
                                                                    eles                                                       

    


                                                                                         
Verdades e afagos nascem e morrem a cada caso
corpulentas, as contradições se esbarram
pecaminosas incertezas bailam
sobre a rigidez dos fundamentos

Soergue-se a fálica falácia
sobre  a salvação eterna
de uma repressão tão severa
da qual só eu posso libertar-me

Ah, como dói ser minha por inteiro
Pensar à própria sorte
sem adular e perecer
(n)os vestígios  de um homem-norte

Contundentes são as paixões precipitadas
tão sólidas, mas se despedaçam
a franca confiança se desgasta
e essa moléstia
só me lega
um eu tolo, todo recortado.
                           







domingo, 2 de agosto de 2015

Quem somos?

Tantos são os dramas, tão extenuante é o caos do mundo e não há visionário que desate o embaraço: O que envaidece hoje trará vergonha amanhã?
Somos partidários da cólera dos tempos ou tão somente existimos?
Quando da concepção de nossos corpos já estava tudo desse jeito? Conceberemos alguma ideia ou através das ideias fomos meramente concebidos?
Ser produto é diminuto, abrevia ainda mais uma presença já tão curta... Não obstante, ser fator é manifestamente fatídico e arriscado.
Em cima do muro não nos cabe. Não há mais muro capaz de sustentar tantas divergências que nos incidem sob ângulos múltiplos e no final desbaratinam-se em nada, no nada.
Vamos assistir a tudo sentados sobre os escombros do passado?
Diante do tribunal da história seremos réus, vítmas, fracassados, medrosos, dissimulados?
O que seremos?
Quem somos? O que queremos?

sábado, 1 de agosto de 2015

Nobreza

Como é nobre uma concha feita de sorrisos.
Como brilha o polido diamante da razão.
Como é frígido e cheio de brio o orgulho.
No fronte, o córtex soberbo e logo atrás, correndo desatada em desespero uma alma bem pequena, maltratada.
Tão sem esmero esparramar as cartas sobre a mesa e terminar o jogo. Sem aviso, sem regras e sem medo, devendo apenas os riscos.
Tão mais controlada a sã consciência do que a vil insensatez de não saber.
Tão mais seguro não deixar as luzes acesas.
Tão mais fácil não ser feliz.
Tão mais fácil não crescer.

quinta-feira, 30 de julho de 2015

Sobre quartos, luas e janelas

Independente da mutabilidade das coisas, algumas constantes transcendem qualquer espaço temporal.
Os conteúdos se transformam, mas a forma insiste em não ter nenhuma forma.
As paredes com suas visíveis rachaduras ainda carregam a mesma tinta, exceto por alguns rabiscos escritos com caneta hidrográfica.
A janela ainda é a mesma. Os telhados, cobertos de fuligem, continuam escondendo verdades que alguma inspiração súbita poderá revelar.
A Lua cintila no breu avermelhado e com o seu brilho impar, ela se impõe cheia e altiva, reivindicando o trono dos céus. Hoje ela é rainha, mas nas noites tristes e apagadas é ela, a mesma Lua, quem se recolhe tímida e apavorada pelos olhares da Terra.
Os anos passam, as horas escorrem pelos limites dos ponteiros e eu não mudo, embora já tenha sido tantas nesse tempo.
Desajeitada e oscilante uma ideia chega de mansinho. Não é segura o bastante, mas precisa se materializar, criar asas e voar pelo mundo. Se ela entrou pela janela, por que eu deveria mantê-la presa dentro do quarto, guardada nos cadernos?
A alguns metros, há uma outra janela. Dentre tantas, ela nunca foi notada. Nela está contida uma silhueta. Me pergunto quantas pessoas além de mim contemplam o luar estonteante estampado na vulgaridade de uma noite como outra qualquer. 
Me flagro questionando se pela outra janela também entram ideias e na forma como elas são acolhidas. O dono da silhueta, será ele um bom anfitrião? Permitirá que elas se espraiem ou as tomará do mundo somente para si?
Quantos outros além de mim tem como essência não ter essência alguma?
Serão outros quartos, outras janelas, outras luas e outras ideias mentoras de outras teses particulares e intransferíveis como a minha?
Prefiro crer que sim, pois se assim o creio, não exploro solitária as encruzilhadas da vida. E as teses particulares já não são tão intrasferíveis assim. E todos os quartos e janelas, luas e ideias poderão ser representadas aqui, em comunhão semântica.
Porque sabem, por mais que tudo mude, mudar é algo que não mudará jamais.  

terça-feira, 28 de julho de 2015

Esteves nauseado

Será que chega o tempo
Será que é dessa vez?
É a maturidade que bate ao peito,
Sou eu que regresso aos dezesseis?

Na nova fase,
Surge ainda  mais tese
Vou tecendo a nova era
desvendando dialética
em todo canto e cada parte

Dois lados da mesma moeda
Lados de uma só face
Lábios lado a lado
Ao invés de colados
Onde o amor se esconde
Na idade pós-moderna?

Rápido,
sigam aquela síntese,
que é que nos interessa!
Ô, mas a vida é complexa!

Devo ajudar a construir
O mais novo paradigma?
Contribuir com a revolução da ciência ?
Me dêem licença,
Ocupo-me ainda de sentir

Em conserva,
não só azeitonas
Mas costumes avessos e
aos versos nenhuma sobra
Pouquíssima atitude
Só a fulgaz inquietude
que é ser jovem

Mas pra filósofo de boteco
Bastam palitos de dente
Pra espetar nas azeitonas da tradição
Comê-las com a mesma  verdade
Com que se come a história
                                       (nenhuma)
Por onde anda a indignação?

Ah, poeta, aspirante
Assume que não é
Ninguém mais que Esteves-sem-metafísica
Lá da Tabacaria de um gênio que se achava louco
Por saber que há tantos gênios pra si
Toma logo para ti que da tua boca
Não sai uma única palavra
que não seja puro engodo
ôo, que saco, que enjôo!
Ai de mim que escrevo por salvação,
que escrevo por precisar
Bom seria transbordar
Transcender transpiração,
mas a minha frustração
Foi não imaginar
Que meus versos miseráveis
Poderiam causar medo
A quem muito além de desejo
Eu senti tão intensa inspiração.

Ressoa agora nos quatro cantos da mente
Minha consciência insolente
A culpa pela paixão irreverente
Que outrora nutriu essa inanição
de sinceridades verdadeiras
que esse querer-te por inteira
É ambicionar mais ambição
Ai que  minha preta tão querida
Foi-se embora da minha vida
Me contrariando sob sua contradição.