domingo, 27 de janeiro de 2013

Em terceira pessoa, pra abster-me de falar de mim

Bate forte em seu córtex frontal, pressiona suas têmporas, range os dentes e estala os dedos. Não é capaz de sequer esboçar um sorriso porque sabe o quanto sua felicidade anda frágil ultimamente.
Em seu futuro, vê sucesso. Sabe exatamente onde colocar cada tostão que está por vir, mas sabe também que o essencial não se compra.
Embora tenha aprendido a apreciar a lua, não quer fazê-lo sozinha. Embora acredite amar alguém, não é capaz de escrever qualquer palavra a respeito disso.
Aponta o dedo à face alheia. Implora pra que não tenham medo, mas sabe que no fundo só sabe temer.
Aprendeu que quanto mais se conhece, mais é necessário regredir no tempo. Que quanto mais profunda é uma questão, também mais antiga ela é. Quantos e quantos traumas engastados na alma ainda serão descobertos?
Passou toda a vida acreditando que a felicidade chegaria em forma de olhos brilhantes e cabelos bonitos. Que qualquer afago serviria de consolo. Que qualquer ombro seria suficientemente confortável. Esqueceu-se que não pode dar a outro o que é de sua exclusiva responsabilidade.
Já não é mais novidade que terá que construir consigo própria seus objetivos. Que terá que conseguir preencher sozinha seus vazios.
Está aflita. Se sente velha. É sozinha. Mas não está certa de que quer ser sozinha. Talvez queira ser pega pelo braço, talvez queira sim ser companhia.

domingo, 6 de janeiro de 2013

Tudo é tudo e tudo é nada

Embora relativamente confuso, verdadeiramente difuso, esse arsenal de boas recordações é o bem mais valioso que carrego hoje.
O futuro nunca pareceu tão incerto. Incerto como uma melodia que destoa, tensiona os ouvidos sem pretender qualquer alívio, sem prometer nenhuma resposta.
E é destes acordes dissonantes que componho uma música ilógica que retumba nas paredes escorregadias dessa minha alma carente de tudo.
E essa composição aniquila todas as certezas que a cada dia se tornam mais descartáveis, considerando minha busca por aquilo que todos clamam: uma tal de felicidade.
Desse poucos segundos de inspiração pueril e covarde, desfruto quase nada. Desperdiçando a escassa criatividade procurando dar sentido às palavras.
Desses rabiscos, dessas questões, dessa inquietude, só quero ainda mais. Porque aprendi que em paz não se cria nada. Descobri que é no caos que se faz necessária a dúvida e quem sabe até a esperança.
Quando confortavelmente inerte, não existe anseio. Portanto, quero mais é que o mundo gire rápido. Quero mais é que o caos transborde para fora do meu controle. Quero mais é que a vida se faça como bem tiver que se fazer.
Porque o meu bem eu encontrei num estado chamado instabilidade.

domingo, 23 de dezembro de 2012

Dos momentos, da saudade e da despedida.

Não, sério, eu to bem.
Eu to é com saudade. Mas é saudade do que não volta mais.
Momentos morrem assim como pessoas morrem também.
E pessoas morrem todos os dias em nossas construções ideais. Porque são pessoas, não são telas de projeção.
E esses erros sempre vão nos acometer. São nossas necessidades gritando alto, pedindo pra que ajustemos a realidade a nossa favor.
Se apaixonar por alguém é altamente fácil, sobretudo quando as duas partes querem estar apaixonadas. Mas amar... Amar é difícil, requer dedicação que as vezes não temos nem conosco.
E as vezes, por mais que exista amor, ele implica em algo com o qual não somos capazes de lidar em determinadas circunstâncias ou fases da vida.


Ei, menino!
Você é lindo! Você tem nas mãos todas as ferramentas necessárias pra ser quem você quiser. E é exclusivamente você quem vai determinar quem quer ser.
Obrigada por todos os momentos sinceros. Obrigada por ter se preocupado comigo e ao mesmo tempo ter me ensinado a me preocupar com alguém (que fico feliz que tenha sido você).
Eu precisava aprender que esse tipo de felicidade existe sim.
Me desculpa por não saber lidar com tantas questões, por ser impaciente, por ser imediatista (como você sempre me disse) e principalmente por ser tão orgulhosa quanto você.
Vamos guardar conosco aqueles sorrisos, aqueles beijos, aquelas caminhadas até o metrô. Vamos lembrar das madrugadas que passamos acordados sonhando com a presença física que sempre nos fez tanta falta. Das nuances da luz do quarto causadas pela cortina vermelha. Aliás, eu lembro até das estampas dos lençóis das camas. Sem nenhuma dúvida, derramarei uma lágrima toda vez que passar por aquele pedaço da avenida. Mesmo que daqui dez ou quinze anos, construam qualquer outra coisa no lugar daquele pequenino hotel.
E das tardes alegres que passávamos antes de nos darmos conta de todas as dificuldades que a vida nos traria?
O primeiro ''eu te amo'' verdadeiramente significativo em toda minha curta existência, contido nas letrinhas miúdas da tela do celular.
Ah, menino, como te amei, como dói que não tenha dado certo mesmo depois das desgastantes tentativas.
É, foi amor. Mas vamos torcer que tenha sido só o primeiro. Sem culpa, sem mágoa.
Vamos carregar pra sempre as brincadeiras, as lágrimas e os objetivos compartilhados. Mas, sobretudo vamos guardar seguramente o que aprendemos um com o outro e com o que vivemos.
Eu me comprometo a lembrar disso tudo pra sempre com todo carinho. Repito, é um compromisso.
E quanto a minha promessa, não se preocupe, continuarei sempre a honra-la. Nem perca seu tempo me pedindo pra ir embora. Eu estarei aqui. Mas não como sempre estive antes.
Não dá pra ficar e almejar que um dia você volte, mas também é impossível não estar aqui pra tudo que precisar.
Não somos mais um do outro, mas fomos. E essa é a dívida que tenho contigo: ser sua amiga, mesmo que bem distante.
Seja feliz, voe o mais alto que puder e continue a se cuidar, como sempre fez.



''And I wonder when I sing along with you
If everything could ever feel this real forever
If anything could ever be this good again
The only thing I'll ever ask of you
You've gotta promise not to stop when I say when... ''

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O outro

Falta de sensibilidade e empatia, sobretudo na instituição familiar, me causa ânsia de vômito.
Seria pretensão demais esperar que quem está calejado e viciado em maus costumes compreenda a gravidade que tem um julgamento.
O outro sempre será mal visto e sempre terá problemas menores, menos disposição, menos capacidade, menos...e sempre menos.
Engraçado como, eu mesma, já resolvi os problemas das pessoas ao meu redor mais de cem vezes dentro da minha própria cabeça. No entanto, não consigo resolver os meus próprios. Irônico, não?
A vida do outro é sempre facilmente solucionável, enquanto a nossa própria não tem solução. O outro sempre está numa situação mais favorável e apenas ele próprio não enxerga.
Porém, se o outro tem o mesmo problema que eu, aí sim merece ser respeitado. Mas apenas se for o mesmo problema que eu. Nem mais e nem menos, apenas na medida que se iguale a mim.
O outro é sempre menos, porque o outro não sou eu, correto?
Afinal, Narciso acha feio tudo que não é espelho.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

365 dias

Mãe, me perdoa. Me perdoa por não conseguir ficar tão bem como você me pediu. Eu sei, você me queria forte, me queria sorridente, me queria de cabeça erguida.
Eu mesma achei que superaria facilmente a sua falta, mas é impossível.
Lembra quando, na escola, as outras crianças diziam que queriam ter uma mãe igual você? Uma mãe ''doidona'', uma mãe boazinha, divertida?
Hoje quando falo de você pros meus amigos, a maioria lamenta por não ter te conhecido e os que conheceram, lamentam o que aconteceu.
Tem gente, que nós duas sabemos, diz sentir saudade por pura demagogia. Mas você sabe melhor que eu sobre as verdades e mentiras desse mundo.
Desde que você se foi, eu sonhei muitas vezes com você. Alguns sonhos foram lindos, outros foram terríveis.
Nos primeiros dias logo após você partir, eu sonhava com você triste e doente e quando acordava, me perdoe, mas sentia alívio por não estar mais aqui sofrendo.
Hoje em dia, me perdoe outra vez, mas sonho com você e acordo lamentando por não estar mais aqui, nem saudável, nem doente, nem por alguns dias, nada. Não tem você aqui.
Me perdoe pelo meu egoísmo, mãe. Era horrível aguentar aqueles procedimentos médicos pra manter sua última centelha de vida, mas agora é horrível pensar que NADA mais pode ser feito. Me despedaço quando penso que nada vai te trazer de volta.
Nos primeiros dias, todos me falaram palavras bonitas, me abraçaram e pareceram até realmente me compreender. Mas mãe, é pura crueldade, pois passado um mês, ninguém sequer lembrava. Agora então, depois de um ano, tem gente que simplesmente exige que eu esteja recuperada.
Por isso eu te peço, mãe. Me perdoa, pois sutilmente minha vida foi desmoronando na tua ausência. Ainda que poucos tenham notado, foi ficando cada vez mais difícil suportar as lembranças tristes e a saudade dos momentos felizes.
Mas mãe, veja! Eu estou aqui. Levando tombos, esbarrando nas paredes das dificuldades, mas eu sobrevivi. E pode ter certeza de que vou continuar percorrendo o mesmo caminho, sem desvio, sem atalho, porque sei que é a sua vontade.
Eu sei, é difícil me reconhecer assim, aos prantos. Logo eu que sempre me fiz de durona... Mas acredite, só quero continuar acreditando que onde quer que esteja, você está bem. Só assim ficarei bem.
Esteja em paz, mammy, que enquanto você descansa eu honrarei a sua passagem por aqui.
Obrigada por tudo.
Te amo.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Só sou capaz de amar quem é capaz de perceber a sutil diferença entre :) e :')

sábado, 3 de novembro de 2012

Homem? Não... Anjo.

Me lembro com clareza da minha mãe me ensinar seus mais valiosos valores pautados na conduta dele.
Sua admiração era tão profunda, que ela não sabia outro adjetivo se não 'perfeição' para contemplá-lo.
Ele era meu tio, eu o via pouco, mas vou pra sempre lembrar sorrindo do seu jeito bocó de me cumprimentar dizendo ''ÔÔH MÃRIÃNÃ! ''
Minha mãe chegou  chamá-lo de Jesus Cristo. Mas como adivinharia que um dia eu acordaria com a notícia de que o único Jesus que eu conhecia teve o rosto perfurado por uma bala? Se minha mãe vivesse entre nós, certamente ficaria desolada. É nessa hora que me rendo à crença e admito que talvez esse seja um dos motivos pra ela ter partido primeiro.
Meu tio, era a única pessoa que eu conhecia com estrutura psíquica para carregar o poder sobre a vida das pessoas, guardado em sua pistola e sua farda. E tenho plena convicção de que, por pior que fosse a situação, ele ainda optaria pela vida. 
Ironicamente foi através do mesmo poder, concedido a infelizes que exalam a fétida desgraça pelo simples fato de existirem, que ele partiu deste mundo carnal e leviano que conhecemos.
Não me importa justiça, não me importa certo e errado. O que me importa é a sabedoria contida no próprio ciclo vida-morte que nós incompreendemos. 
Por mais que doa assistir minha família se desintegrar, se reduzir a mágoa e sofrimento, sinto orgulho por poder usufruir dos ensinamentos do meu tio e da minha mãe, que embora tenham feito uma passagem muito curta pela Terra, participaram da minha vida,  fazendo-me sentir especial e honrada. 
Obrigada aos dois que, coincidentemente ou não, partilhavam sorrisos idênticos <3